Etapa 9: De León a Astorga de bicicleta
Xavier Rodríguez PrietoDados técnicos da etapa
- Distância até Santiago: 305 km
- Distância da etapa: 49 km
- Tempo estimado: 4 – 5 horas
- Altitude mínima: 800 m
- Altitude máxima: 950 m
- Dificuldade: Baixa
- Lugares de interesse: Santuário de la Virgen del Camino, Hospital de Órbigo, Astorga
- Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui

De León a Astorga de bicicleta é a nona etapa do Caminho Francês. Depois da primeira etapa, da segunda, da terceira, da quarta, da quinta, da sexta, da sétima e da oitava etapa, começa a conta regressiva para a Galícia. A saída de León pode ficar um pouco caótica e também bem longa, já que Trobajo del Camino e La Virgen del Camino funcionam quase como uma extensão urbana da cidade. Depois dessa zona residencial e industrial, aparecem duas opções para chegar a Hospital de Órbigo, que é o ponto médio do dia.
A rota tradicional acompanha o traçado da N-120. A alternativa é um pouco mais longa, mas foge do trânsito por caminhos de terra e estradas secundárias. Depois de atravessar a incrível ponte de Hospital de Órbigo, o caminho volta a se dividir, obrigando a gente a escolher de novo entre asfalto ou terra para chegar ao alto da Cruz de Toribio, onde se abre uma vista panorâmica de Astorga.
A entrada em Astorga é bem mais simples que a saída de León — a única dificuldade é o desnível a superar. Em linhas gerais, o caráter industrial dos povoados pelos quais passa o itinerário tradicional pode deixar a etapa um pouco pesada. Indo pelos caminhos de terra a distância aumenta, mas a experiência compensa.
O único ponto realmente complicado do dia pode ser o tempo. Se tiver chovido, recomendamos seguir pela N-120, porque as trilhas agrícolas tendem a ficar lamacentas. Se estiver ventando, a altitude do caminho por Villares de Órbigo fica mais dura.
Bom caminho!

Perfil e rotas principais da etapa
Como a saída de León é confusa, vamos tentar deixar as instruções o mais simples possível. Saímos da cidade pela Ponte de San Marcos, bem ao lado do parador. A partir da catedral, o mais fácil é descer a rua Ancha e virar em Casa Botines, seguindo em frente até contornar San Isidoro. Virando obliquamente à esquerda, chegamos à rua Renueva e à avenida Suero de Quiñones, que leva direto à ponte.
Depois de atravessar a Ponte de San Marcos, seguimos em frente pela avenida Quevedo, cruzando uma rotatória. Depois de um quilômetro ou mais, a avenida descreve uma curva à direita enquanto, bem à frente, aparece uma passarela metálica. Os dois caminhos cruzam a linha do trem e, para ciclistas, é melhor continuar pela avenida.
Ao chegar em Trobajo del Camino, seguimos pela avenida até a curva à esquerda. Depois dela é preciso prestar atenção: a gente tem que pegar a primeira rua à direita, uma ladeira perpendicular que leva a La Virgen del Camino. Essa inclinação vertical vai ficando suave aos poucos.
Pedalando paralelo à N-120, chega-se a La Virgen del Camino (km 7,5 da etapa). Depois de passar pelo povoado, pegamos a rua Paz, uma bifurcação à esquerda da N-120. A uns 500 metros dali começam a aparecer setas contraditórias pintadas no chão. É o momento de escolher por onde ir até Hospital de Órbigo:
- Rota tradicional: segue o traçado da N-120, então vamos pelas trilhas pedonais ou pelo acostamento. São cerca de 24 km passando por San Martín del Camino. O perfil, no geral, é uma leve descida.
- Rota alternativa: não tem uma justificativa histórica clara, mas permite fugir do trânsito da rodovia. São mais ou menos 28 km por trilhas e, depois de algumas ondulações iniciais, o perfil também é de leve descida.
Seguindo pela rota tradicional, é preciso cruzar a A-66 por um túnel e depois continuar paralelo à N-120 até Valverde de la Virgen (km 12), San Miguel del Camino (km 13,5), Villadangos del Páramo (km 21) e San Martín del Camino (km 25,5).
Se optar pela alternativa, vire à direita e pegue a LE-5522 para chegar em cerca de 5 minutos a Fresno del Camino e em 10 a Oncina de la Valdoncina. Quando entrar nas trilhas de terra, siga até Chozas de Abajo e, de novo por estrada secundária, até La Milla del Páramo. Por caminhos de terra firme chega-se a Villavante e, a uns 4 km dali, você se reencontra com a rota tradicional entrando em Hospital de Órbigo.

Ao chegar em Hospital de Órbigo (km 33), atravessamos a sua incrível ponte medieval e voltamos a ter que escolher por onde seguir. Temos duas opções:
- Rota tradicional: vai paralela à N-120 até pouco antes de chegar em San Justo de la Vega, onde muda de direção à direita para alcançar a Cruz de Toribio. São cerca de 9 km até a virada e mais 1 km até a cruz. Perfil plano nos primeiros 5 km e, depois, uma leve subida.
- Rota alternativa: depois de Hospital de Órbigo, muda de direção à direita para passar por Villares de Órbigo e Santibáñez de Valdeiglesias. No total, são cerca de 3 km a mais, mas os caminhos de terra podem ficar lamacentos se chover. O perfil alterna subidas e descidas um pouco mais marcadas que na rota tradicional, mas é razoável.
Independentemente da escolha, chegamos à Cruz de Santo Toribio (km 45), uma estrutura situada no alto que oferece uma vista magnífica de San Justo de la Vega e de Astorga.

Desse ponto, a gente desce uma rampa de 1,5 km com 73 metros de desnível que leva a San Justo de la Vega, onde voltamos a nos conectar à N-120.
Para entrar em Astorga é preciso atravessar a linha do trem. Os caminhantes fazem isso por uma passarela elevada (com rampa e sem escadas), mas de bicicleta dá para continuar pela N-120 a partir de San Justo, evitando a passarela. Depois é só cruzar em linha reta a rotatória na entrada da cidade e enfrentar uma pequena ladeira que nos leva até a Plaza Mayor de Astorga.

Dicas práticas
Se você começa a sua jornada em León, na Tournride ajudamos você a chegar.
- De ônibus. A rodoviária fica na avenida Ingeniero Sáenz de Miera. A empresa com mais saídas é a Alsa, que conecta León a quase todo o Norte da Espanha. De Salamanca também dá para vir com a Vivas; de cidades menores como Burgos ou Palencia, com a Abel.
- De trem. León é um importante nó ferroviário. Para conferir horários e preços, veja o site da Renfe.
- De avião. O aeroporto de León tem apenas uma conexão regular permanente, operada pela Air Nostrum.
Lembre que na Tournride deixamos as bicicletas no seu alojamento em León se você começar por aí e podemos levar sua bagagem extra para que ela espere você no fim do Caminho.
Na etapa de León a Astorga as distâncias entre povoados são curtas e cheias de serviços, você não vai ter problema com abastecimento.
Se você for fazer esta rota no verão, não esqueça de uma boa proteção solar e água suficiente. As retas entre campos sem árvores já ficaram para trás, mas ainda estamos em León e o sol continua forte.
Na hora de escolher os caminhos, é questão de gosto. Mais direto com trânsito ou mais longo por trilhas agrícolas — mesmo assim, a diferença em quilômetros de bicicleta é pequena. Como dica, se tiver chovido a gente recomenda ir pela rota tradicional da N-120 para fugir da lama.
Roteiro detalhado e patrimônio histórico-artístico
A etapa de León a Astorga tem como ponto de partida e de chegada duas cidades carregadas de história e patrimônio cultural. No meio, nos despedimos das planícies áridas de León, porque amanhã o perfil volta a ficar quebrado na subida da Cruz de Ferro, a caminho de Ponferrada.
A N-120 virou a espinha dorsal de muitos povoados cujo nome lembra o passado jacobeu que carregam. Tantos lugares do Caminho que nos recordam o quanto essas estradas são históricas. Hoje apareceram alternativas menos históricas, mas que fogem do ruído e do trânsito da rodovia.
Ainda que o itinerário todo possa ser feito mais ao norte ou mais ao sul, o ponto imperdível da etapa continua sendo Hospital de Órbigo. Essa parada nos dá a chance de conhecer histórias medievais de amor e de atravessar o histórico “Paso Honroso”.
Saímos de León por ruas apertadas e visitamos o moderno santuário de La Virgen del Camino
Na saída de León passamos por alguns dos lugares que recomendamos visitar no final da etapa anterior por León. Se você não teve chance de admirá-los no dia anterior, vale espiar agora.
Contornando a Basílica de San Isidoro chegamos ao Parador, onde atravessamos o rio Bernesga pela majestosa Ponte de San Marcos, do século XVI. É construída com silhares, com grandes talha-mares que sustentam abóbadas de canhão. No século XX foi necessário ampliá-la, mas o trabalho respeitou a forma original.

Depois de cruzar a ponte passamos por algumas ruas de um bairro residencial. Para entrar em Trobajo del Camino é preciso atravessar a linha do trem, seja pela rodovia, seja pela passarela. Do passado jacobeu desse povoado só restam o nome e uma das quatro capelas que existiam, ainda de pé, quase imperturbável entre gigantes de concreto. A capela é dedicada ao apóstolo; as suas origens remontam à Idade Média, mas o que vemos hoje é uma reforma de uma construção do século XVIII.
Deixando Trobajo del Camino para trás, entramos no polígono industrial do oeste de León. Depois de atravessá-lo, voltamos à N-120 até La Virgen del Camino, um povoado-dormitório cortado pela rodovia.
Apesar de tudo ali gritar modernidade, inclusive o seu inconfundível santuário principal, o nome do povoado indica que ele é ponto de passagem de peregrinos há séculos. Conta a lenda que no século XVI a Virgem apareceu a um pastor chamado Alvar, pedindo que avisasse ao bispo para que construísse uma igreja no local. Cheio de dúvidas sobre como seria levado a sério, o pastor pediu ajuda à Virgem. Maria pegou uma funda e atirou uma grande pedra para que o bispo visse e testemunhasse o milagre. Construíram uma capela no lugar exato onde a pedra caiu e, em torno dela, foi crescendo o povoado que se ampliou graças à passagem dos peregrinos.
Em 1957 começaram a construir um novo templo, fácil de reconhecer pelo seu caráter marcadamente moderno. Mistura materiais tão variados quanto concreto, vidro, pedra e madeira em um edifício cuja horizontalidade é quebrada por uma cruz vertical altíssima, em forma de torre. As esculturas da fachada são do artista José María Subirachs e os vitrais foram feitos em Chartres (França).

Passando o templo, pegamos a mão esquerda da N-120 para sair do povoado. Tomando a rua Paz, em uns 500 metros temos que decidir por qual caminho vamos chegar a Hospital de Órbigo.
Escolhemos o caminho de La Virgen del Camino a Hospital de Órbigo
Como mostram as várias setas contraditórias pintadas no chão, existe certa rivalidade entre os povoados das duas rotas preferidas pelos peregrinos. Na verdade, a rota tradicional foi invadida pelo ruído do trânsito com a construção da N-120, e por isso povoados próximos passaram a oferecer uma alternativa mais tranquila.
Pela alternativa você faz 4 km a mais até Villar de Mazarife, o que é praticamente irrelevante de bicicleta. A escolha, no fim, é uma questão de gosto.
Se for pela rota tradicional, você segue o traçado da N-120 e tem que contornar um cruzamento de estradas. Pelo acostamento dá para passar sem problema; pela trilha pedonal, é preciso desviar um pouco para passar por um túnel sob a rodovia.
Por caminhos de terra e concreto, a paisagem é a mesma dos páramos de León — com algumas árvores esparsas — alternada com galpões industriais. Em menos de 2 km chegamos a Valverde de la Virgen e, em mais 1,5 km, a San Miguel del Camino. Os dois povoados têm a N-120 como espinha dorsal. Em San Miguel havia um hospital de peregrinos desde o século XII; hoje ali fica o clube de golfe mais importante da província de León.
Seguindo o traçado da rodovia, deixamos à direita um polígono industrial e uma grande urbanização que, pela proximidade com o Caminho Francês, foi batizada de “Camino Santiago”. Assim chegamos a Villadangos del Páramo, cujo nome, por sinal, não é dos mais originais considerando quão árido é o entorno. A tradição jacobeia deste povoado, reconstruído durante a Reconquista, se expressa na dedicação da sua igreja paroquial a Santiago Apóstolo (séc. XVII-XVIII). Na porta são contados episódios milagrosos, como a aparição na Batalha de Clavijo. Para celebrar esse fato, todo 25 de julho um morador se veste de Santiago Matamoros e entra em Villadangos brandindo a espada sobre um cavalo branco como a neve.

Continuando pela N-120 ou por uma trilha de terra paralela ao acostamento esquerdo, chegamos a San Martín del Camino em uma descida suave. Apesar de não contar com muitos serviços nem patrimônio marcante, a sua posição praticamente equidistante entre León e Astorga fez dele um ponto importante do Caminho Francês, também por causa das diversas opções de pernoite.
Numa subida contínua, mas leve, percorremos os 7 km que nos separam de Hospital de Órbigo, passando por campos de cereal e milho. Numa trilha de terra paralela ao acostamento direito da N-120, uma placa jacobeia com a concha amarela indica onde virar à direita para entrar no povoado. Se estiver indo pela rodovia, atenção para não perder o desvio.
Se você escolheu a alternativa desde La Virgen del Camino, passou por trilhas de terra e estradas secundárias entre povoados pequenos até chegar a Villar de Mazarife. Alguns desses caminhos coincidem com antigas calçadas romanas. Recomendamos cuidado na travessia da N-120 pela rotatória, pouco antes de se reencontrar com a rota tradicional.
Com o “Paso Honroso” conhecemos lendas medievais e escolhemos o caminho até a Cruz de Santo Toribio
Hospital de Órbigo é dividida pelo rio homônimo e, sobre ele, está a ponte que tornou toda a vila famosa. A Ponte de Órbigo é um dos monumentos mais importantes da etapa inteira, então recomendamos aos peregrinos que vão pela rodovia desviar a rota para visitá-la.

O pavimento da ponte é de pedra, bem desconfortável para ciclistas. A construção parece desproporcional para o fluxo atual do rio, mas antes de a represa de Barrios de Luna ser construída a correnteza era muito maior. Há registros de estruturas erguidas ali com a intenção de navegar o rio já desde a época romana, porque a estrada entre León e Astorga passava por esse ponto. Além disso, muitas batalhas aconteceram no local, como a dos suevos contra os alanos no século V ou a travada contra os franceses durante a Guerra da Independência, no século XIX.
De qualquer modo, o lugar é especialmente conhecido por ter sido o cenário do “Paso Honroso”, segundo algumas crônicas. Uma placa informativa no meio da ponte conta a história a todos os visitantes — e é ela que a gente resume aqui na Tournride.
Embora no século XV as justas de cavaleiros já fossem praticamente obsoletas, rumores diziam que ali um cavaleiro chamado Suero de Quiñones estava tão apaixonado por uma moça chamada Leonor que pediu ao rei a autorização para convocar um torneio e conquistar a admiração da dama. O rei permitiu, e o torneio aconteceu em julho do ano jacobeu de 1434. O nome “Paso Honroso” vem do fato de que toda pessoa que quisesse atravessar o rio tinha antes que batalhar em uma justa — caso contrário, devia nadar o Órbigo inteiro e carregar a fama de covarde. A regra valia para todos, menos para os peregrinos.
Para celebrar a sua participação no torneio, Suero prometeu quebrar mais de 300 lanças ao longo de todo o mês e carregar um enorme anel de metal no pescoço. Depois de cumprir as promessas, partiu em peregrinação a Compostela e pediu ao apóstolo pelo amor de Leonor, dizendo: “Se não quiseres aceitar o meu amor, não há alegria para mim”. Conta-se que, ainda hoje, esse anel pertence à curta gargantilha de ouro pendurada no relicário do apóstolo na catedral.
As justas do Paso Honroso foram registradas por muitos poetas e em várias crônicas. Eram tão famosas que até Miguel de Cervantes menciona Suero de Quiñones em Don Quixote! Hoje, em sua homenagem, no primeiro dia de junho se celebra a festa de justas medievais em Hospital de Órbigo, no Paso Honroso. É um grande festival em que as pessoas vestem trajes da época, simulam combates com lança, vendem artesanato e comem em grandes tendas.

Depois de atravessar a ponte, seguimos pela rua Santiago. A poucos metros, à direita, aparece a Igreja de San Juan Bautista, de meados do século XVIII. No início pertenceu à ordem de San Juan, dos cavaleiros de Jerusalém. No interior há um atraente retábulo plateresco.

Ao chegar ao fim da rua Mayor de Hospital de Órbigo, aparecem de novo as setas jacobeias duplas, bem na segunda bifurcação do dia. Seguindo em frente, vamos pela N-120 até a Cruz de Toribio, perto de Astorga, sem passar por nenhum povoado. Se pegarmos a trilha larga à direita, nos perdemos entre campos e vegetação agrícola e visitamos mais dois povoados em cerca de 3 km.

A rota tradicional segue o traçado da N-120. O perfil é bem simples; só no final a inclinação vira uma leve subida. Como dica, atenção em dois dos cruzamentos da N-120 que a gente precisa usar para pegar os caminhos jacobeus que pulam de um acostamento para o outro. Se for pela rodovia, atenção redobrada depois da segunda curva à direita, porque é ali que a gente muda de direção para o Crucero de Toribio (Cruzeiro de Toribio).
A rota alternativa pode ser mais recomendável, exceto se o tempo estiver ruim, especialmente com chuva, porque o piso vira lamaçal facilmente. Essa opção tem muito mais serviços do que a alternativa anterior, a que passa por Villar de Mazarife. O perfil é mais complicado, sobretudo porque no fim aparecem algumas rampas entre ondulações, mas é razoável.
A paisagem deixa de ser árida: campos cheios de hortaliças e pequenos trechos de floresta, com o rio Órbigo exibindo os seus grandes choupais nas duas margens.

Em menos de 2 km chegamos a Villares de Órbigo, povoado com o mesmo nome do município, onde vivem menos de 700 pessoas que trabalham, em grande parte, no campo. Em Villares há uma igreja de origem românica com reformas barrocas, dedicada ao apóstolo, mas com uma bela escultura da Virgen del Carmen. O povoado se conecta com Santibáñez de Valdeiglesias por um caminho e uma estrada local que em poucos minutos vamos pedalar.
Santibáñez também tem uma igreja paroquial, dedicada à Santíssima Trindade, no núcleo do povoado. Dentro dela há uma espetacular escultura famosa de San Roque, e a sua tradição jacobeia se reflete na iconografia do santo, vestido de peregrino.
Ainda assim, Santibáñez é famoso mesmo por uma atração divertida de todo verão: um dos maiores labirintos de milho do mundo. O percurso muda a cada ano e é uma grande atração para peregrinos que pernoitam no albergue do povoado.

Na verdade, o fato de terem escolhido um labirinto tem um significado bem simbólico. Quando falamos da estrada de Logroño, na nossa quarta etapa, contamos como acreditamos que o Jogo da Oca (Juego de la Oca) pode ter sido desenhado pelos templários como uma representação fiel do Caminho de Santiago. Como dissemos sobre as pontes de Navarra “entre as quais nos levava a correnteza”, aqui o labirinto representa a casa 42 do Jogo da Oca, que nos prenderia ou nos mandaria do “Labirinto para a casa 30”.

Na saída de Santibáñez o piso fica um pouco mais complicado, cheio de pedrinhas. Além disso, começam a aparecer as mudanças de inclinação. A gente tem que lidar com algumas rampas entre ondulações — quase esquecemos como era depois de tantos trechos planos!
Antes de chegar à Cruz de Toribio, passamos pela “Casa de los Dioses” (Casa dos Deuses). Esse projeto, criado pelo catalão David Vidal em 2009, envolveu a reforma de um antigo galpão industrial para montar um ponto de acolhida que ajuda os peregrinos. Oferecem suco e comida de graça em troca de doações voluntárias, que têm que ficar exatamente assim para que futuros peregrinos aproveitem o lugar e retribuam de algum modo o que levam, como o próprio David anunciava. No fim de 2016 foi comunicado o fechamento desse curioso ponto do Caminho Francês, mas, embora o futuro do local seja incerto, ele continua aberto ao público.
A partir da Casa de los Dioses seguimos em frente pela trilha de terra e, depois de virar à esquerda, chegamos em cerca de 1,5 km à Cruz de Toribio. Diante de nós, pela primeira vez, se abre a vista panorâmica de Astorga.
Admiramos Astorga desde a Cruz de Santo Toribio e, por curtas descidas, chegamos ao fim da etapa
A cruz que domina as vistas de Astorga foi erguida em homenagem a Toribio, um religioso do século V. A sua vida santa começou quando vendeu tudo o que tinha para fazer uma peregrinação a Jerusalém. Tempos depois, foi nomeado bispo de Tui e de Astorga.
As crônicas contam que, quando era bispo de Astorga, ele escreveu uma carta ao Papa mostrando preocupação com uma doutrina que ganhava popularidade na cidade: o priscilianismo, que anos depois seria condenado como heresia. O Papa, preocupado com a situação, pediu a Toribio que organizasse uma reunião e lhe deu poder para excomungar quem não condenasse o priscilianismo. Aparentemente, os excomungados acabaram se voltando contra Toribio, que foi expulso de Astorga.
Anos depois, Toribio foi perseguido pelos visigodos e, ao chegar a Astorga, pediu abrigo — mas lhe negaram a entrada. Indignado, subiu até o ponto onde hoje está a cruz e pronunciou as suas palavras mais famosas: “De Astorga, ni el polvo” (no sentido de que não queria nada daquela terra, nem o seu pó). Hoje, a cidade homenageia com essa cruz um dos personagens históricos mais marcantes do lugar.
Depois de curtir as vistas oferecidas pela cruz, a gente desce a rampa que conecta com a N-120 e leva a San Justo de la Vega, povoado satélite de Astorga. Para chegar ao fim da etapa, dá para continuar pela N-120 ou ir pelas trilhas pedonais. Se não for pela rodovia, saiba que vai ter de atravessar a linha do trem por uma passarela elevada bem inclinada que obriga a descer da bicicleta.
Depois de duas rotatórias e de uma ladeira forte, entramos em Astorga, a antiga Asturica Augusta dos romanos.

Um passeio à tarde por Astorga
Astorga é uma cidade simples de percorrer e tem muito a oferecer, o que a torna um final perfeito para a etapa. Nesse caso, em apenas 7 minutos de caminhada você vê os principais monumentos da cidade. Neste mapa que criamos você pode ver a localização dos principais monumentos e museus, além do percurso de passeio que sugerimos.
Astorga é a capital da Maragatería, uma região da parte central da província de León. Quando visitamos a cidade, o que mais chama atenção dessa cultura é a abundância de restaurantes que oferecem o famoso cocido maragato (um prato tradicional). Além da gastronomia, toda essa região compartilha outros elementos de folclore e tradições. A origem do termo é discutida: alguns dizem que deriva de uma expressão latina que significa “mouros cativos” (mauri capti), graças a uma certa origem berbere. Também se diz que o nome pode se referir ao trabalho dos tropeiros de mulas, que transportavam mercadorias em mulas por toda a região. Os tropeiros iam da Galícia (do mar) até Madri (onde estão os gatos), e daí vem o nome mar-a-gatos (de mar a gatos).
A gente incentiva você a experimentar as iguarias da Maragatería, mas também a visitar uma cidade com um passado romano e medieval glorioso. Para se organizar melhor, veja os horários e preços das visitas.
Bom descanso, peregrinos!
Para começar, um pouco de história…
Sabemos com razoável certeza que a atual cidade de Astorga foi um importante centro romano. O que não está tão claro é o que existia no monte onde a cidade fica antes da chegada deles. O sábio romano Ptolomeu escreve, em um dos seus livros, que ali ficava a capital das tribos da Astúria — o que contradiz o fato de o centro mais importante delas não estar onde hoje fica a Astúrias.
Não há provas arqueológicas claras de que havia algo no local antes dos romanos; só temos crônicas e textos antigos de outros povos falando disso. É estranho, porque a posição do assentamento é privilegiada, num monte com grande vista sobre o entorno.
O que é certo é que, no ano 19 a.C., a Legio X Gemina chega a Astorga. Na etapa anterior descobrimos como outra legio, uma das entidades que dividiam o Exército Romano, tinha fundado León. Em Astorga, as tropas também se instalaram com o objetivo de controlar o território conquistado e aproveitar as riquezas das minas de ouro de Las Médulas.
A importância crescente desse centro fez com que se tornasse capital de um dos conventus romanos, o que hoje equivaleria a uma província. Graças à sua função política e administrativa, legou-se um grande fórum, que hoje fica sob a Plaza Mayor.

Com a chegada do cristianismo e as invasões bárbaras que causaram a derrota do Império, a cidade encontrou uma forma de melhorar o seu sistema defensivo construindo muralhas enormes. Essas grandes muralhas do século IV foram restauradas na Idade Média e ainda hoje se preservam trechos em bom estado.
Depois de um período turbulento de ataques árabes, a partir do ano 1000 a cidade volta a ser um assentamento permanente. Começa ali a sua evolução medieval, quando a cidade perde os traçados reticulados de origem romana e começam a aparecer a sua grande catedral entre pequenas vielas entrelaçadas.
Durante a Idade Média, Astorga teve diferentes períodos e métodos de governo — na maioria, o poder se concentrava em uma pessoa de uma família importante, por cessão do rei. No século XIII pertenceu a uma ordem cavaleiresca e, no século XV, quando Henrique IV tomou o trono, um marquês da família Osorio assumiu o poder. Foi assim que a cidade virou um marquesado em que os Osorio impulsionaram muito o comércio e o crescimento urbano. A antiga catedral romana foi substituída pela grande construção que vemos hoje e outras importantes ordens religiosas, como as Clarissas Pobres ou os Franciscanos, se estabeleceram em Astorga.
No século XVII o comércio da cidade começa a crescer, sobretudo pela importância que os tropeiros de mulas ganharam a partir do século XVI — um método de transporte de alimentos usando burros ou mulas. Eles levavam muitos produtos à Galícia, e foi assim que se estabeleceram importantes relações comerciais. Com os cacaus trazidos pelos tropeiros a partir dos portos comerciais conectados à América, apareceram diferentes empresas que elaboravam chocolate artesanal — tradição que ainda hoje dá para saborear.
A cidade continuou crescendo até o século XIX, quando uma série de epidemias e a Guerra da Independência contra Napoleão forçaram a população a diminuir. Alguns edifícios emblemáticos foram demolidos, como o castelo medieval e boa parte da muralha.
No fim do século XIX chegou o trem à cidade. Isso mudou muito a organização comercial de Astorga, porque os tropeiros desapareceram, a produção artesanal se ampliou e as empresas tiveram que adotar métodos industriais. A cidade cresceu bastante para além das antigas muralhas medievais.
Atualmente, Astorga é uma cidade moderna que preservou traços tradicionais que marcam a sua cultura. Encontramos ali todos os serviços de que precisamos e, ao mesmo tempo, podemos provar o mesmo chocolate que se comia no século XVII e passear pelas ruas medievais ou pelos restos do seu passado glorioso.

Primeiro foi Asturica Augusta: do fórum à atual Plaza Mayor
Em Astorga ainda há ruínas romanas, por exemplo as cloacas e as termas. É muito interessante conhecer o local que foi o antigo fórum romano, também chamado “la plaza” (a praça), um centro político onde o governo se reunia. Hoje, esse mesmo lugar é ocupado pela Plaza Mayor e pela Câmara Municipal.
O fórum de Astorga era um espaço quadrado, cercado por um pórtico de colunas. Em um dos lados se abre uma grande ábside com pavimento de mármore, preservada ainda hoje. É a chamada Aedes Augusti, um espaço tão especial que faz muita gente acreditar tratar-se de um templo dedicado ao imperador romano.
Há uma rua bem no mesmo ponto onde ficava a antiga Câmara Municipal; hoje é onde está o Museu Romano. Ele ocupa o edifício da “Ergástula”, uma construção que fazia parte do antigo fórum. Acredita-se que pertencia a um pórtico em forma de U, com um templo alto ao centro. Sobre a sua função, não sabemos ao certo. Alguns pesquisadores acreditam que servia como prisão de escravos explorados nas minas de ouro de Las Médulas e do Monte Teleno.

Em 1999, a Câmara Municipal recuperou a propriedade e criou uma estrutura superior para transformá-la no Museu Romano da cidade. Lá dentro encontramos muitas ruínas arqueológicas que ajudam a entender como era a vida nos últimos momentos do Império Romano. O site do museu também é bastante didático. Além de horários e preços de cada visita, dá para aprender um pouco mais sobre os romanos.
Se quisermos conhecer melhor o passado romano de Astorga, podemos visitar as cloacas e as termas chamadas “Domus do Mosaico do Urso e dos Pássaros”, uma antiga casa patrícia onde se preserva um mosaico no piso. O melhor é fazer a “Ruta Romana”, uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal desde 2005. As termas, as cloacas e a Aedes Augusti só podem ser visitadas nessa rota. Tudo o mais pode ser visitado de graça ou pagando separadamente. Nesta página você encontra todas as informações.

Atualmente, a Plaza Mayor ainda é o coração da vida institucional de Astorga. O edifício da Câmara Municipal é um dos maiores exemplos de barroco civil da província de León. Durante o “Siglo de las Luces” (Século das Luzes), foi promovida a construção de muitos edifícios civis, porque a ilustração deu espaço ao debate político e ao governo civil. Por isso, muitos edifícios civis da Espanha são barrocos: o estilo era o mais popular entre o fim do século XVII e o século XVIII.
O edifício é completamente simétrico, organizado em dois pavimentos, com o superior fechado por uma balaustrada de ferro. As duas grandes torres laterais se conectam à sineira central por uma espécie de escultura-balaustrada que lembra um arcobotante. Na parte de cima do relógio dá para ver Colás e Zancuda, duas esculturas da Maragatería que batem os sinos com um martelo a cada hora desde o século XVIII.

Seguimos ao grande monumento medieval de Astorga… A Catedral de Santa María
Saímos da Plaza Mayor por uma rua pedonal chamada Pío Gullón, do lado oposto da Câmara Municipal. Depois de dois cruzamentos, atravessamos a faixa de pedestres e, pegando a rua oblíqua à direita, chegamos à rua Los Sitios, mais larga, que em poucos metros nos leva à catedral — passando antes pelo Palácio de Gaudí.
Como já dissemos, antes dessa catedral monumental ser inaugurada no século XV, havia outra menor, de estilo românico. Ela foi demolida para dar lugar à nova, cuja construção levou cerca de 3 séculos para ser concluída. Essa demora fez com que a evolução arquitetônica ficasse registrada na catedral ao longo desses três séculos, como se fosse uma linha do tempo esculpida na pedra. A construção sempre começava pela ábside, considerada a parte mais sagrada, e terminava pela fachada oeste. Por isso, o interior do edifício e a sua ábside estão em estilo gótico tardio (séc. XV), a portada sul é renascentista (séc. XVI) e a fachada oeste é barroca (séc. XVIII).

O interior é dividido em três naves: a central é a mais alta e a mais larga, separada por grandes arcos ogivais. Acima deles, fica o segundo nível da elevação, um clerestório de arcos também apontados. Nessas janelas não encontramos vitrais coloridos como em León, mas a luz natural entra no templo em abundância, só quebrada pelas finas traças decorativas.
As abóbadas da catedral de Astorga são um regalo. Os pilares se entrelaçam criando formas complexas de estrela, que dá para admirar sem nada interromper: a luz limpa do clerestório ilumina os pilares lisos, destacando esses desenhos simétricos.

Do lado de fora, o que mais se destaca é a fachada oeste, profusamente decorada. É um grande exemplar do barroco leonês, que lembra um retábulo — como o que está no interior do edifício (exceto que esse último é dourado e do séc. XVI). Na parte inferior há três portadas com recuos; talvez uma imitação de León, porque a central é muito maior. Ao lado, e não acima delas, erguem-se duas grandes torres conectadas ao corpo central por arcobotantes na parte superior.
Na decoração, há cenas esculpidas da vida de Cristo e Santiago também aparece vestido de peregrino, prova da marca que a passagem jacobeia deixou na história de Astorga.
Ao sair da catedral só precisamos voltar alguns passos para encontrar, bem à nossa frente, o Palácio Episcopal de Astorga, o famoso Palácio Gaudí. Como dissemos na etapa anterior quando visitamos a Casa Botines de León, o grande arquiteto modernista realizou poucos projetos fora da Catalunha, e este é um deles. O encargo surgiu depois que o antigo palácio episcopal pegou fogo em 1886 e o bispo pediu a Gaudí para projetar uma nova residência.

Ao ver o edifício, várias referências saltam à mente, da Disney a catedrais góticas. Gaudí concebeu o palácio como uma reinterpretação de diversos elementos históricos, usando materiais e estilos variados. Vale lembrar que, no projeto original, não havia a cerca externa que vemos hoje, feita de granito e ferro, que impede chegar perto do palácio quando ele está fechado.
Na fachada principal, o que mais se destaca é o pórtico inferior. Quatro grandes arcos com recuos onde as pedras-chave deixam marca sustentam uma cúpula sobre pendentes. Além disso, cada fachada lateral é emoldurada por grandes torres fortificadas: três são parecidas e só uma é mais alta. A cabeceira, do lado oposto à fachada, lembra uma ábside gótica, como um grande ambulatório.
Embora pareça uma catedral, a planta do edifício não é regular — na verdade, é uma cruz grega. O telhado é de lousa e duas águas. O palácio tem quatro pavimentos, incluindo o subsolo, que se vê pelo fosso que circunda o edifício, como nos castelos medievais.
Há muitas influências nessa obra arquitetônica original, mas a que mais se destaca é a Catedral de León: todas as vãos do palácio são fechados por vitrais coloridos, elaborados por estúdios de prestígio. Os desenhos lembram os da Sainte-Chapelle de Paris.

Hoje, o Palácio Gaudí funciona como o Museo de los Caminos. Lá dentro há peças de arte ligadas à peregrinação e a gente percorre as diferentes salas que deveriam ter sido uma residência, mas que nunca chegaram a funcionar como tal.
Escolhemos se queremos continuar visitando Astorga e provar a sua gastronomia popular
Na Tournride entendemos que, depois de um dia intenso de peregrinação, estender as visitas turísticas pode cansar. Por isso terminamos aqui a nossa jornada, mas deixamos algumas notas sobre outras coisas que você pode curtir em Astorga.
Como já dissemos, dá para conhecer em profundidade o passado romano de Astorga fazendo a Ruta Romana: termas, cloacas, antigos templos, casas, museus etc. Se você se interessa mais por arte medieval, na Igreja de San Bartolomé (séc. XI) dá para ver uma superposição de estilos muito interessante.
Para quem gosta de comer, recomendamos a visita ao Museu do Chocolate da cidade. Lá dá para aprender tudo sobre a tradição chocolateira de Astorga: graças à sua localização de clima frio, foi possível preservar excelentemente esse material delicado. Em quatro salas, você percorre todo o museu.

Visitando ou não esses monumentos, não dá para deixar Astorga sem experimentar o seu prato emblemático: o cocido maragato. Graças ao clima difícil da Maragatería, desenvolveu-se uma gastronomia popular forte e substanciosa. A lenda diz que o cocido maragato deve ser comido ao contrário: primeiro a carne, depois as verduras e só no fim a sopa, em nome do ditado “de sobrar, que sobre sopa” (se algo tiver de sobrar, que seja a sopa). Astorga está cheia de restaurantes que servem o prato, então você não vai ter dificuldade em encontrar onde provar.
Além do cocido, a cecina também é típica, assim como em León. E, para sobremesa, a cidade é um paraíso: além de chocolates, milk-shakes e pães doces artesanais. É um presente para o paladar.
Você vai precisar recuperar as energias porque amanhã vem a subida da Cruz de Ferro. Já estamos nos aproximando da Galícia…
Bom caminho, peregrinos!
