Etapa 13: De Sarria a Melide de bicicleta
Xavier Rodríguez PrietoDados técnicos da etapa
- Distância até Santiago: 111 km
- Distância da etapa: 60 km
- Tempo estimado: 6 horas
- Altitude mínima: 360 m
- Altitude máxima: 730 m
- Dificuldade: Média – Alta
- Lugares de interesse: Portomarín, Palas de Rei, Melide
- Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui

De Sarria a Melide de bicicleta é uma etapa com três partes bem diferentes. O trecho de Sarria a Portomarín (km 22) vai exigir as suas melhores habilidades técnicas, porque passa por trilhas e corredoiras que, sobretudo na época de chuva, ficam barrentas e alagam com os riachos que correm ao lado.
Depois de cruzar o Miño e entrar em Portomarín, a dinâmica muda totalmente, já que até Palas de Rei (km 47) o Caminho jacobeu segue sempre pela LU-633 ou por uma estrada asfaltada praticamente sem tráfego. Dá para avançar muito mais rápido e a distância entre povoações fica um pouco maior.
De Palas a Melide (km 60) a gente alterna trechos pela N-547 com outros pelo bosque, o que volta a complicar o caminho, mas traz vistas lindas do entorno.
Em geral, é uma etapa variada e “quebra-pernas”, mas que permite em cada um dos seus trechos diferenciados conhecer aspectos distintos da cultura galega: desde a arquitetura popular — como hórreos e cruceiros — até o modo de vida no rural e um grande patrimônio histórico-artístico, com igrejas românicas, castelos e algumas das suas grandes vilas, todas com forte presença jacobea.
A gente espera que você curte muito esta imersão no rural de Sarria a Melide!

Perfil e rota principal da etapa
De Sarria a Portomarín a estrada não passa pelas localidades jacobeias, então, se você quiser visitá-las, a única opção é ir pela trilha pedonal, que alterna corredoiras e pistas estreitas de concreto entre bosques e fazendas de gado. Em geral, dá para pedalar, apesar de ser quebra-pernas, porque a inclinação muda o tempo todo e, em pontos bem concretos, o piso pode ficar bastante complicado. As opções em cada trecho são estas:
– De Sarria a Portomarín (km 22): ou você vai pela trilha pedonal ou segue pela LU-633, que vira para o sul na saída de Sarria e não volta a cruzar o traçado jacobeu até Portomarín. Não passa por nenhuma localidade, mas atravessa Paradela, uma das maiores vilas da região.
– De Portomarín a O Hospital (km 33,8): a trilha pedonal corre paralela à LU-633, então dá para escolher a pista de terra/cascalho ou o acostamento da estrada. Só se separam depois de passar por Gonzar, onde as setas amarelas indicam caminhos para passar por Castromaior e pelos restos do seu antigo castro celta.
– De O Hospital a Palas de Rei (km 47): depois de passar por O Hospital você precisa cruzar um cruzamento de estradas por um viaduto. Todas as nacionais se afastam da nossa rota, mas a gente pega uma trilha asfaltada — feita para os peregrinos — onde os caminhantes têm calçada própria e o tráfego de carros é mínimo. Dá para avançar com conforto até um pouco antes de Palas, onde ela termina na N-547.
– De Palas a Melide (km 60): você pode seguir pela N-547, mas depois de passar por Palas a gente vira para o norte até pouco antes de entrar no fim da etapa, sem passar pelas localidades do Caminho. Se seguirmos as indicações jacobeias, entramos no bosque na maior parte do percurso, com alguns trechos de piso complicado — barro ou rocha que pode ficar escorregadia — e outros de trilha asfaltada.
Em geral, é mais lógico fazer toda esta etapa pela trilha pedonal, seguindo as indicações jacobeias. Para isso você precisa ter boas bicicletas de montanha, porque o piso e a inclinação mudam muito. Mesmo assim, no mapa em PDF e no Google Maps a gente marca os pontos conflitivos e sugere desvios recomendados, especialmente na época de chuva.

Em relação ao perfil, resumimos aqui a tendência geral de cada trecho, embora vá haver “pulos” e mudanças de inclinação constantes que transformam esta etapa num exemplo perfeito de rota quebra-pernas.
Durante os primeiros 8,5 km, de Sarria a Peruscallo, o perfil é de subida, sendo especialmente dura a primeira rampa de menos de 1 km com inclinação média de 10%. A partir de Peruscallo o terreno “se estabiliza” por 6 km, até Couto, onde começa uma descida que fica bem mais pronunciada a partir de A Parrocha. Assim a gente chega à beira do rio Miño, altitude mínima da etapa (360 m). Cruzamos a ponte para ver Portomarín, e daí até Ventas de Narón (710 m de altitude) são 13 km de subida, com inclinações médias de 2-5%, embora com “pulos” contínuos e um trecho final de subida até Castromaior onde a rampa fica mais exigente. De Ventas de Narón a Melide faltam 27 km em que o perfil é de mudanças constantes de inclinação, embora haja mais descidas do que rampas de subida.
Quanto ao traçado da trilha pedonal nesta etapa, dá para dizer que é uma sucessão contínua de povoados ou, melhor dizendo, de pequenas aldeias formadas pelo conjunto de três ou mais casas com gado. Entre elas há uma multidão de pequenos caminhos e corredoiras que alternam tipos diferentes de piso o tempo todo. O Caminho cruza diversos riachos e pontes, algumas por construções antigas bem feitas e outras por pequenas passarelas improvisadas. É um itinerário que vai nos reconectar com a natureza e pode ser mais exigente do que outros que já fizemos antes, mas que traz um monte de emoções. A gente não se entedia em nenhum momento!

Conselhos práticos
– Como acontece em O Cebreiro, Sarria não tem distância suficiente até Santiago para que a gente, ciclista, receba a Compostela. Mesmo assim, a peregrinação não é uma questão de certificados e por isso vamos te contar, como sempre, como chegar a Sarria se você quiser começar a pedalar por ali.
Como muitos peregrinos a pé começam em Sarria, esta localidade tem boas conexões, embora quase todas passem por Lugo. Dá para chegar a Lugo de ônibus vindo de muitos pontos da península, sobretudo pelas conexões oferecidas pela Alsa, e, de lá, pegar uma das rotas que a Monbús faz a cada 1-2 horas até Sarria.
Também há uma média de 6 a 8 trens chegando em Sarria desde Lugo por dia. Se você quiser ir direto, de Barcelona e Madri chegam de um a três trens por dia.
Além disso, você já sabe que na Tournride deixamos as bikes no dia anterior ao início da sua viagem, no alojamento que você escolher em Sarria. Também podemos levar sua bagagem extra até o final do Caminho, para você não ter que carregar peso a mais!
– Esta é uma etapa quebra-pernas, então é preciso ajustar coroas e cassete o tempo todo para não forçar o ritmo constantemente. A paisagem compensa o esforço.
– A gente encontra povoados o tempo todo. Nem todos têm serviços, mas você não vai ter dificuldade para se abastecer de água ou comida, então não precisa carregar peso desnecessário.
– No inverno ou em períodos de chuva forte, na Tournride recomendamos evitar alguns trechos da trilha pedonal, porque o piso fica barrento e complicado demais. Trechos que recomendamos evitar:
- Trecho Peruscallo (km 9,2) – Lavandeira (km 10,5) – A Brea (km 11,4). Passa por uma trilha estreita de pedra/terra/grama ao lado de um riacho. Se tiver muita afluência de peregrinos ou se choveu, você vai ter que parar o tempo todo para não cair na água. Propomos um desvio antes de Peruscallo que segue um pouco ao sul por pista de terra e estrada asfaltada.
- Trecho As Rozas (km 14,5) – Moimentos (km 16). O caminho passa por uma corredoira que, quando chove, vira uma poça de barro com muitas pedras. Dá para evitar seguindo pela pista asfaltada e depois pela LU-4203.
- Trecho Portomarín (km 22) – cruzamento com a LU-633 (km 24). Na saída de Portomarín as placas indicam o cruzamento do rio para seguir durante 2 km por uma trilha de piso complicado, estreita e com pedras grandes. Sobretudo se choveu, a gente recomenda ir pela LU-633.
Itinerário detalhado e patrimônio histórico-artístico
Nesta etapa a gente vai descobrir o entorno natural de Lugo e, depois de passar por Palas de Rei, entrar na província onde fica a grande casa do apóstolo: A Coruña. Ao longo destes 60 km, proponho que você abra os olhos para interpretar tudo o que a paisagem rural, com sua configuração e construções tão particulares, conta sobre a cultura galega tradicional. Entre dezenas de pequenos povoados — vamos passar por mais de 60 localidades — você vai ver o mosaico de fincas divididas por marcos, em que os vizinhos trabalham o campo de forma sustentável e cuidam das frisonas e das rubias gallegas, as vacas da comunidade. A gente vai entender a importância simbólica dos hórreos e atravessar corredoiras entre carballos centenários.
Imersos nesse cenário impressionante, num choque de verde clorofila com o azul do céu no horizonte, a gente vai se deparar o tempo todo com joias maravilhosas do românico rural, cercadas por cemitérios cheios de flores coloridas. E esta etapa faz parte da Ribeira Sacra, uma região que, além de ser uma maravilha geológica e natural, ainda guarda a maior concentração de arte românica de todo o continente.
Dá para pedir mais?

De Sarria a Barbadelo: pontes medievais e bestas esculpidas em pedra
Saímos de Sarria seguindo pela sua rua Maior, onde ontem descobrimos grande parte dos principais monumentos da vila no nosso passeio cultural de fim de etapa. Como comentamos, essa rua foi a primeira a surgir nesta vila que nasceu para atender aos peregrinos, então concentra os serviços principais. Passamos pelo Concello (prefeitura) e subimos até a pequena capela românico-gótica do Salvador, onde as setas amarelas indicam que a gente vira à direita.
Seguindo pela rua, damos uma última olhada em Sarria desde o mirante da Prisão, que oferece uma vista imbatível do entorno. Daqui continuamos até o Mosteiro da Magdalena e deixamos Sarria descendo a ladeira que aparece em frente ao convento.
A descida nos deixa numa pista asfaltada que, em apenas 200 metros, leva a uma ponte. A Ponte da Áspera foi construída na época medieval, quando surgiu Vilanova de Sarria, para ajudar os peregrinos a deixarem a vila cruzando o rio Celeiro. A obra atual conserva grande parte da original, com três arcos de meio-ponto em sillar de granito e a parte superior em alvenaria de ardósia, entre a qual brota uma enorme quantidade de ervas e vegetação — o que dá um toque bem pitoresco, mas dificulta a conservação do monumento.

A ponte leva a uma trilha de terra com algumas pedras que segue ao lado dos trilhos do trem. Em cerca de 500 metros o caminho cruza os trilhos, o que certamente vai obrigar a gente a descer da bike.
Depois de atravessar os trilhos, nos vemos mergulhados numa enorme carballeira (bosque de carvalhos), onde enfrentamos a subida mais exigente do dia: uma rampa de 600 metros com inclinação média de 10%, com piso de pedras soltas. As grandes raízes das árvores, que brotam da terra reivindicando seu espaço, também vão dificultar o avanço. Se choveu, a subida fica mais complicada, porque se formam poças e o piso vira barro.
Depois de uma curva final vertiginosa, as árvores desaparecem e a gente volta a ver o céu em cima da cabeça, antes escondido atrás das grandes folhas dos carballos. Atravessamos por uma trilha de terra entre pastos, pela qual chegamos a As Paredes e Vilei (km 3,7). Em Vilei dá para encontrar todos os serviços, então pode ser um bom lugar para quem ainda não comeu nada tomar um bom café da manhã. Com certeza a rampa inicial abriu o seu apetite!
Saímos de Vilei por uma pista asfaltada numa leve subida que, a 450 metros, vira num ângulo reto quase perfeito à direita. Nesse ponto há um caminho que leva à igreja de Santiago de Barbadelo, declarada “Bem de Interesse Cultural”.
A igreja de Santiago é uma joia do românico entre grandes bosques e áreas de pasto. Faz parte do imenso patrimônio românico rural que a Galícia tem. Na verdade, a maior concentração de arquitetura românica de toda a Europa está muito perto de onde estamos, na Ribeira Sacra. Para entender por que fica justamente aqui, precisamos voltar ao século VII, quando muitos monges se estabeleceram nos cânions do Miño e do Sil em busca de uma vida ascética e contemplativa num lugar natural inexpugnável. Formaram comunidades que cresceram e, durante o auge do românico nos séculos XII e XIII, construíram enormes mosteiros e igrejas que ainda hoje maravilham quem visita.

Durante o percurso de hoje a gente vai ter a oportunidade de ver muitos exemplos de arquitetura românica que, como esta igreja de Barbadelo, atravessaram os séculos impassíveis, apesar de o desenvolvimento histórico ou a pouca atenção à sua conservação terem ameaçado — e ainda ameaçarem — destruir muitos deles.
Originalmente, a igreja de Barbadelo fazia parte de um mosteiro dependente de Samos, do qual hoje só restam ruínas. A igreja foi construída no século XII, mas atualmente não está na sua forma original, porque no século XVIII a ábside foi modificada. Entre as partes mais marcantes do templo estão a torre — que alguns acreditam ter sido feita como uma espécie de lanterna para guiar os peregrinos — e, sobretudo, sua iconografia curiosa.
Do início românico, o que melhor se preservou é o muro norte e a fachada ocidental — a principal —, que ainda mostram a decoração original esculpida em capitéis e elementos construtivos.
Na Idade Média existia uma espécie de seres antropomorfos ou fantásticos, carregados de significados negativos e ligados à parte mais obscura do ser humano, à baixeza terrena. Eles formavam o bestiário, que incluía basiliscos, centauros ou dragões. Nas igrejas eles costumavam aparecer como um “lembrete” — ou, melhor, uma ameaça — de como era importante seguir o caminho de Deus na vida para depois ser recompensado com o paraíso. Por isso, nesta igreja de Santiago a gente vê, por exemplo, um dragão no capitel da porta norte e da porta principal. Os dragões eram os inimigos mais conhecidos do Bem e, naquela época, não eram imaginados exatamente como hoje: o corpo deles se parecia com o de uma serpente — animal ligado ao pecado.
É preciso levar em conta que, embora hoje vejamos essas imagens e as entendamos como uma representação do mal, para a sociedade medieval esses animais existiam de verdade. Muitos apareciam na Bíblia, o livro que, para eles, representava toda a Verdade — com letra maiúscula —, e de outros se dizia que existiam, mas viviam em partes distantes do Oriente. Eles eram uma ameaça real que as pessoas achavam que talvez tivessem de enfrentar, daí uma iconografia tão eficaz para a Igreja controlar a vida social no campesinato.
Há também animais ou bestas considerados protetores, como a águia ou o leão, ligados à força e à nobreza. Esses animais também eram esculpidos nas entradas dos templos, como guardiões, avisando que ali se passava de um lugar profano para um sagrado. Na porta norte da igreja de Barbadelo, enfrentando os dragões, a gente também encontra um leão feroz.

Entre hórreos, cruzamos o quilômetro jacobeu número 100
Depois dessa visita curiosa, seguimos o nosso caminho por uma pista asfaltada que leva a Rente em menos de 1 km e, poucos metros depois, cruza a LU-5709 em Mercado da Serra, onde há uma taverna à beira da estrada. O nome do povoado vem de uma grande feira comercial que se fazia no mesmo lugar na Idade Média, que, dizem, atraía até os hoteleiros de Santiago para comprar e vender produtos.
Depois de cruzar a estrada, seguimos por um caminho de terra entre árvores e, depois de virar à esquerda, encontramos um cruzamento precário de riacho. Foram colocadas lajes para que os caminhantes pudessem passar por cima da água, mas é difícil atravessar sem se molhar, mais ainda na época de chuva, quando o terreno fica barrento!
Em meio quilômetro cruzamos outra estrada, dessa vez a LU-633, e por uma pista asfaltada que segue reta passamos por A Pena (km 8,5) e depois por Peruscallo (km 9,2). Nesta região há muitos hórreos construídos ao lado da pista, uma construção que costuma chamar muito a atenção dos estrangeiros.
O hórreo é uma estrutura de armazenamento elevada do chão, pensada para guardar o grão. Na Galícia eles começaram a ganhar muita importância a partir da conquista da América, quando chegaram dois alimentos que revolucionaram a vida dos camponeses: a batata e o milho. Esses alimentos podem durar bastante tempo até serem consumidos, mas precisam ficar num lugar adequado, sem umidade excessiva, ventilado e protegido de animais ou roedores. As casas rurais galegas não tinham esse espaço e, por isso, foram construídos os hórreos.

Os hórreos sempre têm três partes. Os pés (pés em galego) erguem uma caixa superior onde a comida fica guardada, para evitar a umidade do solo. A caixa não é fechada: costuma ter grades para o ar circular e ventilar o interior. A peça redonda que fica entre as pernas e a caixa, como um grande disco de pedra, se chama tornarrato. Traduzido, vira “afugenta-rato”, um nome que explica bem a sua função. Para subir à caixa e pegar a comida, usava-se ou uma escada auxiliar ou uma escada sem fim, para impedir os ratos de chegar aos alimentos.
A construção dos hórreos foi ganhando cada vez mais importância a partir do século XVI e acabou desenvolvendo todo um simbolismo social ao seu redor. O raciocínio é simples: se existe um lugar que serve para guardar comida, quanto maior e mais bonito, mais fácil fica para as pessoas perceberem que alguém é rico e tem grandes reservas alimentares — com a sutileza de que o próprio rico não precisa dizer nada, você já tira essa conclusão sozinho. O mesmo valia para as chaminés, cujo número na casa indicava quantos cômodos eram aquecidos — e por isso elas eram ameiadas e decoradas no topo, para chamar atenção. Os hórreos, por sua vez, deixaram de ser feitos de madeira para passarem a ser de sillar de granito, decorados com a cruz cristã e, em muitos casos, tornando-se enormes. Em geral, os maiores pertenciam a nobres ou a mosteiros. Na Galícia existem alguns que têm mais de 35 metros de comprimento!

Além disso, de acordo com a cultura e a climatologia das diferentes zonas da Galícia, os hórreos ganharam formatos distintos. Na região dos Ancares e do Courel são redondos, de madeira e com telhado de colmo, como as pallozas. No resto da Galícia há modelos em forma de L, que misturam pedra e madeira, com pares ou trios de pés, etc. Pelo nosso caminho a gente vai ver muitos formatos diferentes de hórreo, então, na Tournride, recomendamos abrir os olhos para descobrir essa curiosa arquitetura popular galega. Nas Astúrias e em partes do norte de Portugal também há hórreos, mas o lugar onde se concentram mais é, sem dúvida, a Galícia.
Ao sair de Peruscallo, entramos numa corredoira que, em poucos metros, se estreita e vira uma trilha que acompanha um riacho. Em alguns trechos o piso tem muitas pedras e, em outros, é de terra, mas, em geral, é bem estreita. Em momentos de muita afluência de peregrinos, atravessar por aqui pode virar uma eternidade, porque a gente vai ter que pedir licença para passar ou parar o tempo todo. Por isso, na Tournride propomos uma alternativa no nosso mapa da etapa: dá para desviar à esquerda antes de entrar em Peruscallo e fazer todo esse trecho por uma pista asfaltada e de terra um pouco mais ao sul, voltando à rota jacobea em A Brea. Se você for por aqui, também dá para visitar dois templos românicos bem preservados: a igreja de Santa María de Belante e a igreja de San Miguel de Biville.

Se você for pela própria rota jacobea, vai passar por Lavandeira e continuar alternando trechos de corredoiras com calçadas paralelas ao riacho até chegar a A Brea. Nesse povoado a gente vai ver um marco indicando que faltam só 100 km para Santiago, mas esse marco é falso. O marco real dos 100 km aparece um pouco depois, numa pista asfaltada entre A Brea e Morgade. Esse lugar é simbolicamente importante porque, a partir dele, a Igreja considera que um caminhante ou ciclista já peregrinou como tal até Santiago e pode obter a Compostela.
Atravessamos o município de Paradela: bebemos de fontes demoníacas, conhecemos o vinho da Ribeira Sacra e entendemos a paisagem rural galega
Depois desse trecho de pista a gente chega a Morgade (km 12), onde há um bar bacana que serve refeições. Uma pintura branca com o Pelegrín — mascote do Xacobeo 1993 — avisa que a gente precisa deixar a localidade por uma trilha, ao lado da qual fica uma fonte. Dizem que essa Fonte do Diabo ou Fonte do Demo deixava de jorrar água se alguém livre de pecado tentasse beber, porque era dominada pelo diabo, e o diabo só matava a sede dos pecadores.
A corredoira por onde saímos de Morgade se estreita e, em algumas partes, é invadida por um riacho, polvilhado com lajes de pedra para ajudar a passagem. Tudo bem precário para nós, ciclistas, então é preciso ter paciência e, se necessário, descer da bike.
Esse trecho difícil é curto, cerca de 800 metros, depois dos quais chegamos a Ferreiros (km 13,1). O povoado se chama assim porque, antigamente, havia muitas ferrerías (ferrarias) onde artesãos jacobeus arrumavam as ferraduras dos cavalos e também consertavam o calçado dos peregrinos. A localidade é uma espécie de fronteira entre o município de Sarria e o de Paradela.
O município de Paradela se estende pela margem leste do Miño. Vamos seguir por uns 9 km nessa direção oeste, até chegar à beira do rio e atravessá-lo entrando no município de Chantada por Portomarín.
Essas duas regiões na beira do Miño fazem parte da Ribeira Sacra (“margem sagrada”), aquela área em que a gente contou que se estabeleceram comunidades de monges e onde está a maior concentração de românico de toda a Europa. Quando chegaram ali, os monges começaram a produzir vinho em socalcos nas encostas dos cânions do rio, como os romanos tinham feito antes. Esse vinho ainda é produzido hoje sob a D.O. Ribeira Sacra, e seus produtores são conhecidos como os “vinicultores heroicos” pela dureza do cultivo e da colheita em terrenos com inclinações de mais de 60%.

Vamos ter a chance de ver esses cânions em Portomarín, mas, por enquanto, precisamos deixar Ferreiros descendo uma rampa forte por uma pista asfaltada de 300 m. Chegamos à igreja de Santa María de Ferreiros, um templo românico simples mas muito bem preservado, que foi movido pedra por pedra desde um ponto próximo para ser reposicionado à beira do Caminho Francês, porque queriam que ele funcionasse como hospital para peregrinos. O campanário de espadana é barroco.
Para chegar à igreja a gente precisa cruzar um caminho que passa pelo cemitério local. Na Galícia, a união da igreja com o cemitério é o mais normal no meio rural. Essa configuração é um legado da Idade Média, quando a igreja era o ponto de encontro social mais importante e, depois da missa, as pessoas ficavam nos arredores do templo, honrando seus mortos e cuidando dos enterros. Depois apareceram as tabernas e os costumes mudaram um pouco!

Depois de passar pela igreja, as setas amarelas indicam um desvio para uma trilha de terra com rochas que desce um pouco abruptamente e depois volta a subir no final até A Pena. Pela pista asfaltada por onde a gente passa também dá para chegar ao povoado, e o piso é mais favorável.
Uma vez em A Pena (km 14), continuamos por uma pista asfaltada até As Rozas (km 14,5), onde a pista se perde ao sul e alguns marcos com setas amarelas indicam que estamos numa corredoira entre as árvores.
A corredoira de 1,5 km que vai de As Rozas a Moimentos é impraticável na época de chuva. O solo vira um atoleiro com grandes pedras cravadas. Os caminhantes evitam passando por um prado mais alto, mas para a gente fica mais difícil de evitar. Por isso, na Tournride sugerimos que, se choveu, você continue reto pela pista asfaltada e pegue o primeiro desvio à direita para chegar a Moimentos pela LU-4203.
De Moimentos (km 16) a Vilachá vamos por caminhos que alternam piso de terra, cascalho ou asfalto num perfil de descida suave, com alguns “pulos”. Vamos passar por Mercadoiro (km 16,8), A Parrocha (km 18,7) e, finalmente, por Vilachá (km 20).
Pedalando nesse trecho, dá para perceber a grande quantidade de pequenas fincas por onde passamos, muitas de floresta, outras de pasto e algumas cultivadas como horta. Elas são divididas por muros baixos de pedra ou, às vezes, apenas delimitadas por paus fincados no chão, que na Galícia se chamam marcos — embora esse método seja o menos usado, porque, tradicionalmente, era alvo de disputas entre vizinhos: os paus, misteriosamente, se deslocavam “sozinhos” durante a noite, e de repente um proprietário perdia terreno em favor do vizinho. Nada a ver, essas pequenas parcelas, com as enormes fazendas de cereais que encontramos em Castilla ou com as grandes plantações de vegetais e vinho de Navarra e La Rioja.
Essa divisão da terra indica outra das características sociais galegas: o minifundismo agrário. Tradicionalmente, na Galícia existia — e ainda existe — um grande apego à propriedade da terra, que era dividida entre todos os filhos após a morte do proprietário, em vez de ser herdada pelo primogênito, como acontecia em outras partes da Espanha. Se a gente soma a dispersão populacional, refletida no número de povoados por onde passamos, entende esse mosaico de pequenas parcelas diante dos olhos.
Essa fragmentação complica a mecanização da atividade agrária, impedindo a industrialização, mas também favorece um tipo de agricultura muito mais sustentável, do ponto de vista ambiental e social. O solo é muito mais cuidado e o produto fica menos exposto a contaminantes.

Mesmo assim, a gente também vai perceber que, por aqui, o que mais se vê não são hortas, e sim fazendas ocupadas por vacas tranquilas que observam a gente passar desde seus pastos calmos. Antigamente a pecuária era um complemento da agricultura — as vacas eram usadas para puxar carros ou para fornecer esterco —, mas aos poucos virou uma atividade mais rentável e acabou deslocando a agricultura. As duas raças que a gente mais vê são a preta e branca, chamada “Frisona”, que dá leite, e a “Rubia gallega”, cuja carne é comercializada sob a Indicação Geográfica Protegida “Ternera Gallega”.
Neste ponto, estamos em Vilachá (km 20), de onde começamos uma descida bem abrupta por asfalto que nos deixa na margem do rio Miño. Uma ponte se ergue acima do seu grande volume e, na margem oposta, a gente vê o povoado de Portomarín, situado num ponto mais elevado, junto aos cânions do rio galego mais conhecido.

De Portomarín a Castromaior, ou o mesmo que dizer: de grandes obras de engenharia do século XX a arquitetura castreja do século VI a.C.
O rio Miño é o mais longo da Galícia e, desde a sua união com o Sil até sua foz no Oceano Atlântico, também é o mais caudaloso. A grande quantidade de quilômetros que ele percorre fez com que, desde o nascimento da peregrinação, fosse preciso atravessá-lo.
Essa necessidade de vencer o curso do rio levou os romanos, no século II d.C., a decidirem construir uma ponte primitiva no ponto onde estamos agora. Quando a peregrinação a Santiago surgiu, Dona Urraca mandou construir, no século XI, uma ponte maior no mesmo lugar, para ajudar os caminhantes jacobeus.
Essa ponte sobreviveu à passagem dos séculos até que, um dia, em 1963, Franco mandou construir o que ainda é hoje a maior represa da Galícia: a represa de Belesar, de onde se obtém uma grande quantidade de energia hidroelétrica. Um muro de concreto com 135 metros de altura e 350 metros de comprimento represou o rio Miño 32 km ao sul de Portomarín, criando um reservatório gigantesco que inundou tudo que estava nas margens do rio. Castros de cultura pré-romana, vinhedos, moinhos, adegas e povoados inteiros agora jazem sob as águas do Miño.

Em Portomarín, que na época era um povoado com um importante patrimônio medieval na beira do rio, os vizinhos decidiram se mudar para uma elevação maior, na margem oeste, levando com eles — pedra por pedra, marcada com paciência — os seus monumentos mais importantes. É esse o Portomarín que vemos hoje, que depois de cruzarmos a ponte moderna nos recebe com um arco em cujas laterais foram instaladas escadas — nada mais que um trecho da antiga ponte medieval. Mas, em alguns dias, a gente também consegue ver o velho Portomarín, em forma de estruturas de pedra que brotam da água reivindicando o espaço natural que lhes foi tirado.

Na parte alta do povoado encontramos a igreja de San Nicolás, um templo românico promovido pela ordem de San Juan, cavaleiros armados que protegiam os peregrinos. É um dos monumentos românicos mais importantes da Galícia, com uma configuração bem especial pela altura dos seus muros grossos com ameias na parte superior — uma robustez que contrasta com a delicadeza da escultura nas suas portas e com sua imponente rosácea.
No começo, o templo ficava perto da antiga ponte, na primeira Portomarín. Daí vem a aparência de forte militar — era ponto de encontro de uma ordem que defendia a ponte e os peregrinos. Quando o povoado foi inundado pela construção da represa, as pedras foram marcadas com tinta vermelha, uma a uma, e transferidas para o topo do povoado, com uma restauração da igreja também em curso. Ainda hoje dá para ver as marcas vermelhas nas pedras, junto às marcas dos canteiros que esculpiram os sillares no século XII.

Depois da visita a Portomarín, saímos do povoado pela mesma Avenida Chantada pela qual entramos. A estrada se desvia à direita, mas uma placa jacobea vertical indica que a gente cruza a ponte sobre o rio para entrar numa trilha que volta a cruzar a rodovia em 2 km. Neste trecho o piso é muito irregular, com muitos “pulos” e pedras soltas, então vale a pena considerar seguir direto pela LU-633 sem cruzar o rio.
Do ponto em que a trilha encontra a estrada — 2 km depois de deixar Portomarín — até Hospital da Cruz (km 34), a trilha pedonal corre paralela à LU-633 em forma de pista de terra. Depois de avançar 3 km chegamos a Toxibó (km 27) e, em mais três, a Gonzar (km 30), onde dá para ver a igreja de Santa María de Gonzar, em estilo barroco. No altar-mor da igreja está o túmulo de uma mulher que, segundo a lenda local, passou cerca de 30 anos sem comer nada.
Depois de Gonzar, o Caminho jacobeu se afasta da beira da estrada em direção a Castromaior. A gente recomenda seguir pela trilha pedonal, porque depois de passar pelo povoado vamos atravessar um lugar muito especial do Caminho Francês, um dos castros mais bem preservados da Galícia.
Por uma pista asfaltada e um solo escuro começamos a ganhar inclinação e, em 600 metros, coroamos a colina de Castromaior. À nossa direita, a vista do entorno é de tirar o fôlego e, à nossa esquerda, um dos sítios arqueológicos mais importantes da península, que foi habitado do século VI a.C. ao século I d.C. Tinha uma configuração urbana complexa, com um recinto circular amuralhado no topo da colina. Ao redor, em plataformas delimitadas por muros e fossos, havia outros assentamentos. Como nada foi construído nesse lugar desde o seu abandono, tudo ficou enterrado sob a colina num bom estado de conservação.

Embora, por muitos séculos, se tenha achado que a chegada dos romanos à Galícia tinha acabado de forma violenta e fulminante com a cultura de raízes celtas que vivia neste território — cuja expressão máxima dessa opressão seria a mítica batalha do Monte Medulio, com o suicídio dos últimos guerreiros galegos antes da necessidade de se render ao conquistador —, a realidade arqueológica mostra que, quando os romanos chegaram no século II a.C., houve uma sinergia cultural, além de um sincretismo religioso. Este assentamento continuou habitado por mais de dois séculos após a conquista, e havia outros que foram povoados até o século III ou IV d.C., então o modo de vida anterior à invasão romana foi mantido.
A descida da colina nos deixa novamente no trajeto da LU-633 e, em apenas 1,5 km, chegamos a Hospital da Cruz. Chamado assim porque um dia abrigou um lugar de atendimento ao peregrino, hoje fica no cruzamento com a N-540, que a gente precisa atravessar por um viaduto.
Entendemos o significado oculto dos cruceiros e chegamos a Palas de Rei
Durante os próximos 11 km, de Hospital da Cruz a A Brea, onde cruzamos a N-547, a gente vai pedalar o tempo todo por uma estrada asfaltada com pouco tráfego, na qual os peregrinos a pé têm espaço próprio no acostamento. O perfil segue em subida, como vinha fazendo desde Portomarín, até Vendas de Narón. De lá será descida com “pulos”.
Depois de cruzar a N-540 enfrentamos uma última rampa asfaltada e chegamos a Vendas de Narón (km 35,3), de onde começamos a descer até alcançar A Prebisa (km 37,3). Depois de passar por A Prebisa a gente vê, no lado esquerdo da estrada, um muro com degraus e, no alto, o cruceiro mais famoso do Caminho Francês: o Cruceiro de Lameiro.

O cruceiro é, junto com o hórreo, uma das manifestações mais típicas da arquitetura popular da Galícia. Sua origem vem de tempos pré-romanos, daquela cultura castreja politeísta que vivia em povoados como o que acabamos de ver em Castromaior. Para a cultura castreja, os caminhos e seus cruzamentos eram lugares muito importantes. Acreditavam que, depois da morte, a alma vagava pelos caminhos e que, nos cruzamentos, existia uma série de deuses que podiam “comprá-la”. Por isso, os familiares do falecido faziam nos cruzamentos uma série de rituais, deixando também oferendas aos deuses. Às vezes, essas oferendas eram pedras, o que deu origem aos chamados milladoiros — acúmulos de pedras —, como o que vimos na Cruz de Ferro de Foncebadón.
Quando os romanos conquistaram este território, houve um sincretismo que fundiu os deuses das duas culturas. Os rituais nos cruzamentos continuaram a ser feitos, mas, em vez de pedir proteção a Lugh (celta), falava-se com Mercúrio (romano). Além disso, os romanos viam os cruzamentos de caminhos como representações entre o ordenado (logos) e a natureza como caos, por isso eram simbolicamente muito importantes. É por isso que em muitos moinhos romanos encontrados no que era a Gallaecia há inscrições dedicadas a esses deuses dos caminhos, chamados viais. Na verdade, entre os 36 moinhos encontrados com epigrafia de lares viais em todo o território do Império Romano, 28 foram encontrados aqui. São quase 77%!

Quando o cristianismo foi estabelecido como religião oficial, as tradições que tinham se perpetuado por séculos não mudaram da noite para o dia — a história mostra que a tradição popular não muda por decreto! Para desespero da Igreja, o povo continuava indo às cruzes para fazer seus rituais “pagãos”. Só havia duas opções: proibir e punir ou, como se acabou fazendo, adotar uma solução que hoje pode lembrar a formulação contrária da catástrofe política: “Se queremos que tudo mude, precisamos que tudo continue como está”. Os pontos pagãos foram cristianizados com uma cruz e os rituais continuaram sendo permitidos, mas, pouco a pouco, as pessoas deixaram de se dedicar ou aos seus filhos a Mercúrio, e passaram a rezar para a Virgem ou Jesus.
Hoje se estima que na Galícia existam mais de 12.000 cruceiros. Em geral eles são formados por uma base, uma coluna e uma cruz no topo. Na maior parte das vezes está esculpido Jesus na cruz. Em povoados pesqueiros, a Virgem também costuma ser colocada no lado da cruz olhando para o mar, porque é a protetora dos marinheiros.
Embora a maioria dos cruceiros seja dos séculos XVIII ao XX, há alguns que pertencem ao século XIV e outros que são verdadeiras obras de arte, com múltiplas representações. O cruceiro de Lameiros, que vemos ao lado de A Prebisa, data de 1670 e mostra Jesus crucificado no topo. O desgaste da pedra apagou grande parte do detalhe escultórico, mas, do outro lado da cruz, com certeza havia a Virgem ou uma representação da maternidade. Na base, foram esculpidos elementos da Paixão de Cristo: alicates, pregos, uma escada, a coroa de espinhos e, por fim, uma caveira com ossos representando o triunfo eterno sobre a morte. Ao lado do cruceiro há um antigo cemitério de peregrinos.
Depois de passar pela cruz chegamos a Ligonde (km 38,5), que é uma povoação maior do que as anteriores. Em seguida, a pista asfaltada faz uma curva dupla um pouco abrupta e as setas amarelas indicam um atalho por uma trilha interna. Esse atalho é uma rampa íngreme de 100 m e o piso é meio irregular. Na Tournride recomendamos descer pela estrada se choveu.
Depois da curva, cruzamos um riacho e chegamos a Airexe (km 39,4) e, pela mesma pista, a Portos (km 41). Entramos no município de Palas de Rei, onde vamos seguir por Lestedo (km 42), Os Valos (km 42,6) e A Brea (km 44). Em A Brea a gente cruza a N-547, que passa por Palas de Rei. O Caminho jacobeu segue por pouco mais de 1 km por uma trilha no acostamento esquerdo da estrada e, depois, desvia para entrar em Palas mais ao sul, por uma pista incômoda com muitas pedras para ciclistas, que depois vira cascalho.
Uma vez em Palas de Rei (km 47), dá para decidir fazer uma última parada antes de começar os últimos 13 km até Melide. Esta localidade foi a última parada que Aymeric Picaud registrou no seu Codex Calixtino antes de chegar a Santiago, e dizem que o nome vem da época visigoda, porque o “palácio” do rei visigodo Witiza ficava aqui. Com a chegada da peregrinação jacobea, a vila começou a ganhar importância e se tornou, durante a Idade Média e a Idade Moderna, um lugar relevante para a nobreza, que construiu grandes fortalezas e pazos (palácios) na região.

Na verdade, perto de Palas de Rei está o Castelo de Pambre, um dos poucos castelos que sobreviveram à Revolta Irmandiña de 1467, quando os camponeses galegos se ergueram contra seus senhores e destruíram seus castelos. Foi construído no século XIV e uma das suas funções era servir como ponto de preservação da segurança no Caminho de Santiago. Tem uma enorme torre de três andares, cercada por um muro grosso com quatro torres nas laterais. Embora estivesse quase virando ruínas, nos últimos anos um grande investimento foi feito para restaurá-lo e, hoje, dá para visitá-lo — embora o horário de visita varie conforme a época. De bike, a gente chega em meia hora (8,5 km) até o castelo, por um caminho favorável. No mapa da etapa a gente marca onde fica o castelo.
Em Palas também há outro grande exemplo de arquitetura românica, que se soma à longa lista dos que vimos hoje: a igreja de Vilar de Donas. Dizem que ela pode ter feito parte de um grupo monástico fundado por mulheres e, depois, mais ligado à Ordem de Santiago. Alguns dos seus cavaleiros mais importantes estão enterrados aqui.

Saímos de Palas por uma pista incômoda, com muitas pedras, que pode nos obrigar a levantar da selim para preservar a integridade das nossas nádegas. Depois de cruzar a N-547 por uma faixa de pedestres, seguimos por uma pista asfaltada perto da estrada, que volta a encontrar a rodovia depois de poucos metros. Daí a trilha pedonal segue por uma calçada ou por alguma pista asfaltada perto da estrada, que logo desvia para entrar no povoado de Carballal. Na saída, as placas jacobeias indicam o cruzamento da estrada nacional para passar a uma trilha de cascalho no acostamento esquerdo, que, depois de poucos metros, abandona a rodovia para entrar no bosque.
Se de Carballal você seguir pela N-547, vai direto a O Coto (km 55,5), o limite provincial entre Lugo e A Coruña. No caso de ter chovido, a gente evita um trecho que pode ser bem chato pelo piso barrento ou de pedra natural (bem escorregadia), mas que é um dos mais bonitos desta etapa.

As trilhas levam primeiro a San Xulián do Camiño (km 50), onde dá para ver uma igreja românica de nave única e grande ábside semicircular sem divisões. Pelo asfalto, cruzamos o rio Pambre e, em seguida, entramos em Pontecampaña (km 51), de onde começa um trecho bacana em que seguimos por caminhos entre árvores e por trechos de rochas naturais, que temos que enfrentar com paciência, porque talvez seja preciso descer da bike para evitar quedas.
A gente chega a Casanova (km 52) e, pouco depois, a Porto de Bois, de onde a trilha se junta à pequena estrada LU-4001 para seguir até O Coto, por onde também passa a N-547. Neste ponto mudamos de província para entrar naquela que vai ser a última que vamos visitar no Caminho de Santiago, A Coruña.
A trilha pedonal volta a se afastar da estrada nacional para passar por O Leboreiro, um povoado mencionado no Codex Calixtino com o nome de Campus Leporarius (“Morro das lebres”). Tem uma grande tradição jacobea e, no século XII, tinha um hospital para peregrinos. Do núcleo, chamam a atenção a sua igreja e o cabazo que se conserva em frente a ela.
Um cabazo é um hórreo — dependendo da região da Galícia, os hórreos recebem nomes diferentes, como piorno, cabana ou paneira — menos elaborado. Como são feitos de vime e palha, não restam muitos antigos hoje em dia, e esse é uma exceção — ainda que reabilitada.

A igreja de Santa María de O Leboreiro é de transição românico-gótica. Na porta principal há uma talha da Virgem segurando o Menino, que está relacionada a uma lenda da localidade. Dizem que a escultura da Virgem guardada dentro do templo foi encontrada por milagre em uma fonte próxima, motivo pelo qual esta igreja foi construída para abrigá-la. Toda noite a escultura se deslocava para outros lugares e voltava para a fonte onde tinha sido encontrada, até que um escultor local gravou essa imagem no tímpano da porta e a escultura da Virgem ficou para sempre em seu lugar. Se você tiver a chance de entrar na igreja, na Tournride recomendamos, porque, além da talha, dá para ver os murais coloridos impressionantes que se preservam no muro norte.
Depois de deixar O Leboreiro, passamos por Disicabo e entramos num parque industrial que pertence a Melide, onde se tentou tornar o percurso mais agradável aos peregrinos, construindo um parque com árvores em sua homenagem — embora a imagem ainda não seja totalmente inspiradora.
Depois de cruzar o parque industrial, a estrada e a trilha pedonal se separam de novo para visitar o último povoado desta etapa, a pitoresca aldeia de Furelos (km 58,5), nas margens do rio homônimo. O caminho até lá é pelo monte, que, como em trechos anteriores, vai virar um grande atoleiro se tiver chovido naquele dia.
A entrada em Furelos é feita por uma ponte medieval dromedária, com quatro grandes arcos. É a maior e mais bem preservada da Idade Média no Caminho Francês na Galícia. Depois de cruzá-la, atravessamos o povoado pela sua rua principal empedrada, que passa ao lado de uma igreja dedicada a San Juan. Embora a origem seja medieval, fica claro que ela tem várias adições posteriores.
Depois de passar por Furelos falta muito pouco para chegar ao fim da etapa. É só seguir por uma pista que intercala cascalho e asfalto para chegar a Melide, onde dá para curtir uma boa porção de pulpo á feira e descansar para a grande emoção que nos espera amanhã: a chegada a Santiago de Compostela.

Etapas do Caminho Francês de bicicleta
- De Saint Jean Pied de Port a Roncesvalles de bicicleta
- De Roncesvalles a Pamplona de bicicleta
- De Pamplona a Estella de bicicleta
- De Estella a Logroño de bicicleta
- De Logroño a Santo Domingo de la Calzada de bicicleta
- De Santo Domingo de la Calzada a Burgos de bicicleta
- De Burgos a Carrión de los Condes de bicicleta
- De Carrión de los Condes a León de bicicleta
- De León a Astorga de bicicleta
- De Astorga a Ponferrada de bicicleta
- De Ponferrada a O Cebreiro de bicicleta
- De O Cebreiro a Sarria de bicicleta
- De Sarria a Melide de bicicleta