Etapa 3: De Pamplona a Estella de bicicleta
Xavier Rodríguez PrietoDados técnicos da etapa
- Distância até Santiago: 705 km
- Distância da etapa: 44 km
- Tempo estimado: 4 horas – 4 horas e meia
- Altitude mínima: 397 m
- Altitude máxima: 780 m
- Dificuldade: Média
- Lugares de interesse: Alto del Perdón, Igreja de Santa María de Eunate, Puente la Reina, Cirauqui, Estella.
- Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui

De Pamplona a Estella de bicicleta é a terceira etapa do Caminho Francês. Depois da primeira etapa e da segunda etapa, encaramos 44 km marcados por uma subida contínua desde Pamplona durante os primeiros 12 km até chegar ao Alto del Perdón (780 m), ponto mais alto do percurso. Dali descemos uns 4 km por uma ladeira íngreme até Uterga. Recomendamos cautela para evitar quedas. Mas, como sempre, “depois da tempestade vem a bonança”. Por isso, um perfil muito mais suave vai nos levar ao fim de etapa: Estella.
Além disso, hoje se juntam a nós os peregrinos que saíram de Somport e percorreram o chamado Caminho Aragonês. Perto de Puente la Reina, no meio da etapa, vamos encontrá-los e a partir daí seguimos juntos até Santiago de Compostela.
Ao longo do caminho, hoje veremos um monumento curioso dedicado aos peregrinos no Alto del Perdón. Também passaremos por uma das localidades mais emblemáticas do Caminho Francês: Puente la Reina, protótipo urbano de povoado nascido em torno da rota de peregrinação. Perto de Muruzábal dá para desviar um pouco para visitar a igreja de Santa María de Eunate, um dos templos mais mágicos do Caminho.
Vilarejos medievais e pitorescos vão pontilhar nosso trajeto, que percorre caminhos agrícolas ou antigas calçadas romanas entre grandes extensões de campos de cereais e vinhedos.
Bem-vindo ao campo navarro, um oásis de paz! Pedalando de Pamplona a Estella de bicicleta você vai combinar técnica na subida e descida do Alto del Perdón com quilômetros tranquilos entre vinhedos e trigais.
PERFIL GERAL DA ETAPA E ROTA

Como já comentamos, o perfil desta etapa é bem menos quebrado, mas exige um esforço inicial para subir ao Alto del Perdón. De lá dá para ver à esquerda a estrada que vem de Pamplona e, à direita, o vale que ainda temos pela frente. A partir de Puente la Reina só tem uma rampa que realmente faz suar. São 1,5 km que nos tiram da margem do Arga, saindo de Puente la Reina rumo a Mañeru. O resto da estrada até Estella segue por caminhos entre campos de cereais e vinhedos, cruzando várias vezes a A-12 por passagens subterrâneas.
Saindo de Pamplona pela universidade vamos pegar uma estrada tranquila que atravessa um parque fluvial e, numa leve rampa, chegamos a Cizur Menor. Deixamos o núcleo residencial e começamos a subir rumo ao Alto del Perdón por uma primeira pista de terra e depois uma trilha de grama, com uma inclinação média de 2%. No fim da trilha de grama, um pouco antes do oitavo quilômetro da nossa etapa, fica Guenduláin à esquerda, hoje desabitada. A partir daí a inclinação vai ficando cada vez mais forte. De Guenduláin a Zariquiegui a inclinação média da subida gira em torno de 5%. Chegando a Zariquiegui estaremos ao pé do pico do Monte del Perdón (1034 m) e veremos à nossa frente a rampa que nos levará ao ponto mais alto do percurso, a 780 m de altitude.

Para chegar ao Alto del Perdón a partir de Zariquiegui vencemos um desnível de 125 m em menos de 2,5 km, por uma rampa que chega a 15% de inclinação em vários pontos. Essa subida pode ficar bem mais dura se tiver muito vento, o que não é raro. Na verdade, o som dos moinhos girando com o ar vai nos acompanhar ao longo do caminho.
Ao chegar ao Alto del Perdón dá para parar para descansar e admirar a vista. À nossa direita veremos o vale que cruzaremos até Estella, todo um quadro de campos de cereais pontilhados por pequenos povoados.

Na descida do Alto del Perdón é preciso muito cuidado, sobretudo se chover. É complicada porque pode ter até 12,5% de inclinação (embora a média seja de 7%) e o piso é instável. Há pedras soltas o bastante e o vento pode apertar, o que não ajuda no equilíbrio. Se você não tem muita experiência em descidas complicadas e sentir que a roda começa a derrapar, não hesite em descer da bicicleta e levá-la ao lado, usando os freios. A descida tem uns 3,5 km, então você não vai perder muito tempo. Se quiser abolir todo esse trecho, pegue antes do Alto del Perdón a N-111 e contorne a montanha.

A descida nos leva direto a Uterga. Depois de cruzar o vilarejo seguimos para Muruzábal, onde chegamos no km 18 do percurso. Lá é preciso pegar uma pista de terra que segue à direita do povoado. Apenas 2 km depois, por esse caminho plano, chegamos a Obanos.
Entre Muruzábal e Obanos há uma parada que não podemos perder: a igreja de Santa María de Eunate. É um templo românico muito particular, num lugar desabitado, que vale bem a pena acrescentar uns quilômetros à etapa. Para chegar lá temos que desviar em Muruzábal, pegando uma estrada diferente no centro do povoado e percorrendo 2 km. Não está muito bem sinalizado, então recomendamos perguntar aos moradores. Eles estarão mais do que acostumados a ver peregrinos com dúvidas!

Depois de uns dois quilômetros chegamos à igreja. Perto desse ponto veremos como também chegam os peregrinos que percorreram o Caminho Aragonês, que começa em Somport.
Da igreja devemos pegar o caminho em direção oeste, para chegar a Obanos, onde nos reencontramos com quem foi direto de Muruzábal sem visitar a igreja de Santa María de Eunate. Para sair de Obanos precisamos atravessar um arco de pedra, e falta pouco para Puente la Reina, por uma pista de terra de leve inclinação. É uma caminhada bem agradável.
Chegamos ao Equador do nosso percurso em Puente la Reina (22 km), uma das localidades mais emblemáticas do Caminho. Atravessamos o vilarejo e saímos por sua famosa ponte medieval, passando sobre o mesmo rio que cruzamos no início da etapa: o rio Arga.

De Puente la Reina até Estella o perfil é bem mais plano. Só vamos encontrar dois momentos de rampa mais puxada: ao sair de Puente la Reina rumo a Mañeru e ao cruzar a cidadezinha de Cirauqui, de ruas medievais íngremes.
Depois de sair de Puente la Reina subimos a rampa de 1,5 km entre pinheiros por uma pista de terra e chegamos a Mañeru. Atravessamos o povoado e de lá temos uns 2,5 km de perfil quase plano até Cirauqui. Esse trecho é muito bonito, segue entre campos agrícolas num ambiente muito tranquilo.
Chegando a Cirauqui já teremos percorrido 29 km desta etapa. Esse povoado de origem medieval tem ruas muito íngremes. Depois de atravessá-lo, subindo até o prédio da prefeitura e depois descendo de novo, precisamos pedalar 5,5 km até chegar a Lorca.

O trecho Cirauqui-Lorca é muito tranquilo: perfil com inclinações suaves, por pistas de terra e asfalto, cruzando a A-12 por diferentes passagens. Já em Lorca ficamos a apenas 8,7 km de Estella.
A paisagem segue parecida, com grandes plantações de cereais e vinhedos delimitados por trilhas agrícolas e estradas nacionais. Primeiro precisamos passar por Villatuerta, a 4,5 km de Lorca. Dá para ir pela estrada (NA 1110, antes parte da N-111) ou pegá-la para sair de Lorca e depois seguir por uma pista de terra que nos faz cruzar uma ponte e uma passagem subterrânea até terminar em Villatuerta.
De Villatuerta encaramos os últimos 4 km, que vamos pedalar numa leve inclinação, então o fim da etapa fica agradável. Com a mesma dinâmica, seguimos por trilhas agrícolas e ainda vamos passar por uma última ponte e uma passagem subterrânea. E enfim, Estella.

Resumindo, embora esta etapa de Pamplona a Estella de bicicleta possa ser feita inteira por estrada local, o traçado original é bastante acessível e por isso a Tournride recomenda segui-lo. Só precisamos ter cuidado entre os quilômetros 10 e 16 do percurso, quando o Alto del Perdón sobe e desce. Se não se sentir seguro, dá para contornar a montanha pela estrada ou descer da bicicleta e empurrar em alguns momentos.
DICAS PRÁTICAS
- Pamplona e Puente la Reina são lugares onde muita gente começa a jornada. Se for o seu caso, te damos opções para chegar lá:
- Como chegar a Pamplona:
Esta cidade moderna tem uma estação de ônibus, estações de trem e aeroporto. Entre todos esses meios de transporte seguros você vai achar alguns que te levam até a cidade.
2. Como chegar a Puente la Reina:
A melhor opção de transporte é o ônibus. A empresa com mais conexões é a La Estellesa com saídas de Irún (2h 45min), Pamplona (30min), Logroño (1h 30min) e San Sebastián (1h15min). Conda e Avanza saem de Pamplona.
Você também pode ir de táxi; existem serviços especiais para peregrinos. Um táxi de 7 lugares desde Pamplona sai por uns € 30.
** Lembre que na Tournride temos serviço de transporte de bagagem do início ao fim do Caminho. Diga pra gente onde você começa a pedalar e onde termina: deixamos a bicicleta na sua hospedagem e levamos o excesso de bagagem, que vai te esperar no lugar que você escolher. Se tiver dúvidas, dá para consultar nossa seção de FAQ ou entrar em contato.
- Muitos dos povoados da etapa têm albergues, caso você esteja cansado e não aguente chegar até Estella. Há albergues em Muruzábal, Mañeru, Cirauqui e Lorca e, claro, em Puente la Reina. Como nessa localidade o nosso Caminho se une ao Aragonês, pode ter muitos peregrinos. Caminhantes têm preferência sobre ciclistas nos albergues. Então, se você ver que tudo está cheio mas quer parar, saiba que há um camping-albergue depois da ponte. Também dá para seguir até Mañeru (5,2 km), embora seja preciso vencer uma rampa de 1,5 km.
- Como propomos Estella como fim de etapa, te redirecionamos aqui para conseguir informações sobre os 5 albergues dessa cidade. Você tem à disposição um albergue municipal, um albergue de juventude (não apenas para peregrinos), dois albergues religiosos (o dos Capuchinhos e o da paróquia de San Miguel) e o da Associação de Navarra em favor de Pessoas com deficiência intelectual.
- Nesta etapa passamos por muitos povoados e é uma área muito percorrida por peregrinos, então tem muitos serviços. Você não vai ter problemas para conseguir provisões e no caminho vai poder acessar postos médicos se for necessário.
ITINERÁRIO DETALHADO E PATRIMÔNIO HISTÓRICO-ARTÍSTICO
Hoje nos despedimos de uma das grandes cidades que cruzaremos em nossa aventura ciclística, mas fazemos isso para descobrir coisas maravilhosas: povoados medievais tão emblemáticos como Puente la Reina, ou a especial igreja românica de Santa María de Eunate. Nosso caminho vai continuar pontilhado por pontes de épocas diferentes e vai correr entre grandes campos de cereais e vinhedos.
DE PAMPLONA A ZARIQUIEGUI: ATRAVESSAMOS O CAMPO NAVARRO

Para sair de Pamplona precisamos atravessar o campus universitário da cidade. Saímos pela Calle Mayor, que nos leva ao Parque da Taconera, o zoológico em miniatura dos “pamplonicos”. Deixamos ele à direita e seguimos pela Avenida Pío XII até a Avenida Sancho el Fuerte, onde viramos à esquerda e depois na primeira à direita, pela rua Fuente de Hierro. Descendo essa rua chegamos agora ao campus universitário de Pamplona.
Seguimos reto e descemos a rua Universidad, ao longo da ciclovia do campus. Quando chegamos à rotatória onde os carros cruzam o rio Arga, seguimos pela ciclovia que desvia à direita na primeira saída da rotatória. Cruzamos a faixa de pedestres um pouco mais adiante e, agora sim, passamos por cima do rio Arga.

Para cruzar o rio Arga passamos pela ponte de pedra de Acella Landa. Essa ponte, de três metros de largura, tem um único arco de cerca de oito metros de altura. Faz parte do parque fluvial de Pamplona.
Ao atravessá-la entramos diretamente no município de Cizur Menor. Depois de seguir a estrada por menos de 2 km, passando sobre a autopista, chegamos ao núcleo populacional. Pela proximidade com Pamplona, esse povoado é bem urbanizado e funciona como área residencial da cidade. Apesar disso, também tem patrimônio bem antigo, como a igreja românica de San Miguel Arcángel.

Atravessamos de nordeste a sudoeste, por uma grande urbanização. Depois, setas amarelas pintadas em balizadores e um marco com a vieira na rua Zelaia indicam o traçado do Caminho Francês.
Seguimos pela estrada, vendo à esquerda grandes extensões de campos de cereais e, à direita, a área urbanizada de Cizur Mayor. Quase 5 km de rampa que vai endurecendo progressivamente nos leva entre campos agrícolas e nos faz deixar para trás Guenduláin para chegar a Zariquiegui.
Ao entrar em Zariquiegui, encontramos à esquerda a igreja de San Andrés. De estilo românico, destaca-se pela sua grande portada com várias arquivoltas e pela decoração vegetal de seus capitéis. No tímpano, como vimos na igreja de Santiago de Roncesvalles, há uma talha de um crismón. Como lá, é um pictograma que representa Cristo como o princípio e o fim de todas as coisas, através da primeira e da última letra do alfabeto grego.
COM O VENTO EMPURRANDO ATÉ O ALTO DEL PERDÓN, LUGAR EMBLEMÁTICO DO CAMINHO FRANCÊS

A solidez deste templo, que recebe peregrinos desde o século XIII, nos dá força para encarar a subida ao Alto del Perdón. É uma rampa de pouco mais de 2 km que não é especialmente cansativa, mas pode endurecer se ventar muito e, como já dissemos, não é raro que isso aconteça.
Na verdade, ao chegar ao cume do Alto del Perdón (780 m) vamos ver como em uma das figuras da escultura que está lá dá para ler: “onde o caminho do vento cruza com o das estrelas“. Essa escultura foi desenhada pelo artista Vicente Galbete em 1996. O fato de se referir ao Caminho de Santiago como o “caminho das estrelas” está ligado à lenda da descoberta dos restos do apóstolo. Conta-se que o eremita que os descobriu só o fez porque viu estrelas chovendo sobre um vale. Daí o nome da cidade e do Caminho: Santiago de Compostela seria Santiago do campus stellae, ou seja, campo das estrelas.
Nesse caso, a menção ao “caminho das estrelas” também se refere ao que a própria escultura representa. Formada por diferentes placas, dá para ver um grupo de peregrinos de épocas distintas seguindo rumo a Santiago, guiados pela Via Láctea.
No Alto del Perdón também dá para ver um marco com as distâncias até diferentes capitais mundiais e uma parede com um nicho vazio. Os restos de pedra nos lembram que antigamente havia um complexo formado por uma ermida e um hospital de peregrinos, dedicado à Virgem do Perdão. A escultura da Virgem hoje está na igreja de Astrain. Foi levada para lá no século XIX, quando o exército de Napoleão profanou a ermida durante a Guerra da Independência.

Mas o que torna o Alto del Perdón realmente especial é a vista que oferece da paisagem navarra. Atrás de nós fica a bacia de Pamplona e, à frente, vemos o Vale de Valdizarbe e suas colinas, atrás das quais está Puente la Reina.
Este é um dos pontos mais emblemáticos do Caminho Francês. Seu nome lembra o perdão integral dos pecados obtido pela peregrinação, que foi um incentivo para a realização do Caminho desde a Idade Média. Certamente em referência a esse sentido de luta contra os pecados surgiu uma lenda situada neste lugar.
Diz-se que o diabo tentou comprar a vontade de um peregrino sedento oferecendo água de uma fonte dessa serra. Pediu que, em troca da água, ele renunciasse a Deus, à Virgem e a Santiago. Mas o caminhante não caiu na armadilha e, no fim, o próprio apóstolo apareceu milagrosamente para expulsar Satanás.
DESCENDO COM CUIDADO AO VALE DE VALDIZARBE. PRIMEIRAS PARADAS: UTERGA E MURUZÁBAL
Se seguirmos pelo caminho a partir do Alto del Perdón, descemos da serra por uma ladeira íngreme. É uma descida complicada. Alternativa: ir pela estrada, não é um grande desvio.
Para ir pela estrada pegamos a NA 6056 que passa pelo Alto del Perdón e fazemos a curva final para entrar na NA 1110. Em menos de dois quilômetros viramos à esquerda para conectar com a NA 6016 que leva direto a Uterga.

Vista de Uterga desde a estrada (foto cedida no Flickr por Hans-Jakob Weinz sob as seguintes condições)
De todo jeito, todos os caminhos nos levam a Uterga! Entramos pela rua Asuncion, onde fica a igreja que leva o mesmo nome. Sua solidez lembra a de Zariquiegui, mas este templo é posterior, do século XVI. A torre e o pórtico, os dois elementos mais característicos, são do XVII e do XIX respectivamente. O pórtico é de tijolo avermelhado e à frente dele há uma oliveira preciosa e bancos para sentar. Outro bom lugar para dar uma pausa curta.
Saímos do povoado pela rua de las Eras e em menos de 2,5 km, por uma pista agrícola em perfil de leve inclinação, descemos até Muruzábal. A partir desse ponto vamos ver como os campos de cereais dão espaço também aos vinhedos.
Em sintonia com a entrada do vinhedo na paisagem, encontramos em Muruzábal uma vinícola que pode ser visitada. Fica no Palácio de Muruzábal, um grande edifício barroco erguido como residência de uma importante família navarra. Hoje engarrafam seu próprio vinho e, junto com a igreja de San Esteban, é um dos grandes atrativos da cidade.
VAMOS FAZER UM DESVIO… TUDO PELA PAZ QUE SANTA MARÍA DE EUNATE TRANSMITE

Sendo você grande fã da arte românica ou não, na Tournride recomendamos visitar a igreja de Santa María de Eunate. É um daqueles lugares mágicos do Caminho Francês, uma construção especial e maravilhosa no meio de hectares de campo agrícola.
Na verdade, o desvio não aumenta tanto a distância. Se você for direto de Muruzábal a Obanos, cruza uma trilha de 2 km. Se, em vez disso, sair de Muruzábal em direção sudeste para chegar à igreja e depois for a Obanos, acrescenta apenas um quilômetro ao seu percurso. Vale a pena!
Há muitas crenças e lendas que cercam este templo de forma tão característica. Santa María de Eunate é especial, sobretudo, por três motivos:

- Sua localização. Além de estar ainda hoje “no meio do nada”, está situada exatamente no que, segundo nosso mapa político atual, é o centro de Navarra. Dizem os especialistas no assunto que está erguida num lugar onde diferentes fluxos de energia se encontram.
- A falta de documentação sobre a igreja. Embora a maioria dos especialistas a date no séc. XII e afirme que faz parte do Caminho de Santiago, quase não é mencionada em praticamente nenhum texto histórico. Estranho, né?
- Sua forma. A igreja é românica e octogonal, o que por si só já é raro. Mas, além disso, não é um octógono perfeito e sabe-se que, pela qualidade construtiva do edifício, poderiam tê-lo feito bem se quisessem. Somado a isso, um pórtico isolado de 33 arcos repete essa mesma forma ao redor, sem que jamais tenha havido uma cobertura que o unisse ao edifício, já que não há marcas de fixação na pedra. Por que construir esses arcos então? Por que não dar uma forma perfeita ao templo?

Muitas perguntas e poucas respostas. Como a igreja lembra em sua forma o Santo Sepulcro, chegou-se a dizer que poderia ter relação com a Ordem dos Templários. Mas, historicamente, isso não faz muito sentido. O que se acredita é que pode ser da Ordem dos Cavaleiros de San Juan, que atendiam e protegiam os peregrinos. Pensa-se isso porque sabe-se que essa área teve influência deles e já foram encontrados restos de antigos enterros com vieiras ao redor da igreja. Por isso uma das hipóteses é que nesse lugar a ordem tivesse um hospital para peregrinos.
Se fosse assim, também poderia ser que a torre central da igreja funcionasse como um farol. Acendendo um fogo nela, dava para vê-lo de longe, e assim os peregrinos não se perderiam no caminho.
DEPOIS DE UMA PARADA MÁGICA, LEMBRAMOS LENDAS JACOBEIAS EM OBANOS E SEGUIMOS PARA PUENTE LA REINA
Da igreja de Santa María, pegamos um caminho de terra em direção oeste que em poucos metros termina na estrada que leva a Puente la Reina. Mas, antes de chegar lá, vamos deixar Obanos à nossa direita.
Para quem decide não ir ver a igreja de Eunate e, portanto, passa por este povoado, ou também para os curiosos que decidem parar ali para conhecê-la, deixamos aqui um pouco de informação sobre o lugar.
Obanos é um povoado com grande tradição jacobeia. Na verdade, a festa mais importante do povoado acontece a cada dois anos e consiste numa representação teatral na qual mais de 600 pessoas participam e em que é encenada uma lenda do Caminho de Santiago. Segundo o chamado “Misterio de Obanos”, um duque peregrinava com sua esposa quando passaram pelo povoado e ela decidiu ficar ali para ajudar no hospital de peregrinos. O marido ficou tão bravo com a decisão dela que acabou matando-a e chorando por isso o resto da vida. Depois voltou ao povoado e se recolheu até morrer na ermida de Arnotegui, que ainda existe hoje e fica nos arredores do vilarejo.

Arquitetonicamente, Obanos caracteriza-se pelas suas ruas de paralelepípedos e pela beleza de algumas de suas casas e edifícios civis, com grandes arcos de pedra. Os mais conhecidos são Casa Muzqui, Tximonco ou Cildoz.
Aqui convergem as duas variantes do Caminho Francês (a que começa em Somport e a de Roncesvalles). Às vezes se diz que as duas rotas se encontram em Puente la Reina, já que muitos peregrinos passam por Obanos contornando o povoado e por isso se juntam ao restante na próxima parada.
A igreja de San Juan Bautista é de 1912, de estilo neogótico. Sua assimetria se deve ao fato de reutilizarem algumas partes da antiga igreja gótica, por isso só tem uma torre. A portada também é do século XIV. Por dentro, uma grande nave coberta de azulejos brancos recebe os visitantes, com um retábulo no ábside, do século XVII.
Ao sair do povoado, não vamos nos perder graças à pouca originalidade dos nomes das ruas: tanto pegando a rua Peregrinos de Compostela quanto a do Camino de Santiago vamos acabar na NA-6064, que depois de virar à esquerda para pegar a NA-1110 nos leva direto a Puente la Reina.
EQUADOR DA ROTA… A EMBLEMÁTICA PUENTE LA REINA!
Na entrada de Puente la Reina nos recebe um monumento ao peregrino. Desde 1965 dá as boas-vindas a todos os visitantes com uma base em que se pode ler: “E daqui todos os caminhos a Santiago se tornam um só“. Embora já saibamos que, sendo estritos, não é aqui que convergem, mas no povoado de Obanos que já visitamos.

Já passamos por outros povoados com boa parte de sua história ligada ao Caminho de Santiago. Mas, nunca melhor dizendo, dá para afirmar que este é a “rainha” de todos: nascido pelos e para os peregrinos. Outros povoados pelos quais passamos surgiram por conta da proximidade de um hospital de peregrinos ou de um mosteiro, mas Puente la Reina é uma cidade cuja coluna vertebral principal é o próprio Caminho e que, além disso, preserva o traçado urbano original de “povoado-rua”.
Por isso, reflete em seu desenho urbano sua própria história. Suas ruas principais são paralelas à Calle Mayor, o Caminho para Santiago. No meio dela está a Plaza Mayor. E as ruas que hoje são o “enclave novo” e o “enclave velho”, que fecham a área antiga, eram antigamente a própria muralha. Tudo se fecha formando um retângulo quase perfeito.

Na verdade, seus habitantes originais eram os “francos”, aqueles estrangeiros que entravam pela França na península e sobre os quais já falamos antes. O rei Alfonso I lhes deu uma “carta puebla” para promover a fundação da cidade, isto é, concedeu-lhes uma série de benefícios comerciais e tributários em troca de se instalarem nesse lugar.
O motivo disso é que no século XII os árabes estavam perdendo território, e uma maneira de assegurá-lo era criar assentamentos em territórios que voltavam a ser da Coroa. Onde hoje está Puente la Reina, poucos anos antes a rainha Doña Mayor tinha mandado construir uma grande ponte de pedra para que os peregrinos pudessem atravessar o rio Arga. Às margens do Caminho, junto a essa ponte e no vale tranquilo de Valdizarbe, o rei Alfonso I encontrou um bom lugar para um novo assentamento.
O povoado foi criado tendo como eixo o Caminho e durante os dois séculos seguintes a peregrinação a Santiago foi um grande “fenômeno de massas” medieval, e esta localidade cresceu ao redor dessa rua principal: igrejas, hospitais de peregrinos e comércios para os caminhantes. Até mesmo o monge Aymeric Picaud, criador do primeiro “guia” do mundo ocidental, menciona o lugar no Codex Calixtino como ponto de convergência do Caminho Aragonês com os três que vinham por Saint Jean Pied de Port.
Hoje, toda essa sobreposição de história em pedra está em um estado de conservação excepcional para os peregrinos que, quase mil anos depois, seguem visitando.
Logo depois de entrar no povoado, seguindo a sinalização jacobeia que desde a estrada aponta à esquerda, encontramos uma lembrança pétrea da antiguidade do lugar: a igreja românica del Crucifijo. Do final do século XII, nasceu como parte do conjunto do antigo hospital de peregrinos (hoje uma escola) e deve seu nome à antiga Cofradía del Crucifijo, que desde o século XV administrava o hospital.

Além disso, dentro da igreja há um grande crucifixo gótico do início do século XIV, impressionante tanto pelo tamanho quanto pela originalidade. Em vez de ter a forma de “T”, Cristo está fixado sobre um grande “Y” esculpido de maneira que a cruz parece formada por troncos grandes e naturais. A escultura de Jesus dá uma boa ideia das mudanças do Românico ao Gótico: é um Cristo realista e naturalista, que transmite patetismo e está coberto por grandes panejamentos muito dinâmicos. Apesar do seu grande tamanho há correção nas proporções e, além disso, a delicadeza no talhe de cada traço nos transmite sensação de dor e sofrimento. Uma das grandes obras da imaginária gótica.
Há diferentes especulações sobre a origem desse Cristo crucificado. Alguns o relacionam com a Ordem dos Templários e outros dizem que foi um presente de alguns alemães que carregaram a talha por toda a peregrinação e que acabaram entregando-a como presente ao hospital de peregrinos.
A rua del Crucifijo nos leva direto à Calle Mayor. Nela vamos ver toda uma vida girando em torno dos peregrinos, em forma de comércios em grandes casarões baixos de pedra, com sacadas de ferro forjado e grandes portas em arco. Ao passar por lá você encontra três pontos que valem a visita: a igreja de Santiago, a Plaza Mayor e a igreja de San Pedro.

A igreja de Santiago foi construída quase na mesma época que a del Crucifijo, mas hoje é muito maior por conta das reformas sucessivas que passou. Também por isso podemos encontrar nela uma mistura de estilos diferentes: do Românico ao Gótico Tardio e Renascentista.
Por dentro, as abóbadas da nave principal criam complicadas formas estreladas com seus nervos. São sustentadas por enormes pilares renascentistas. Além disso, dentro deste templo podemos ver uma das talhas mais famosas do Caminho, da qual já tivemos um aperitivo em forma de cópia na nossa visita a Roncesvalles: a escultura de Santiago “Beltza” ou Santiago “Negro”. Embora em todo o Caminho Francês seja possível ver mais de 300 talhas do apóstolo, esta é uma das mais conhecidas e admiradas. É chamada de “negra” (beltza em euskera) porque, antes de ser restaurada, tinha essa cor.
Saindo da igreja, seguimos pela rua principal e chegamos à praça central do povoado. Um bom lugar para fazer uma parada se precisarmos, abrigando-nos sob sua galeria em pórtico. Enfeitam o local os belos edifícios que lhe dão forma, especialmente a chamada “Casa de la Vajilla”.
Continuamos pela Calle Mayor e, antes de sair do povoado, passamos pela igreja de San Pedro. Esta é bem mais moderna que as outras duas, do século XVI, embora tenha uma capela de origem gótica junto com outras três barrocas. O destaque deste templo é um retábulo e uma talha da Virgem. A escultura costumava estar em um nicho da ponte medieval que dá para o povoado, e se chama Virgem do Txori (“pássaro pequeno” em euskera) porque, segundo a lenda, um passarinho lavava seu rosto todos os dias com água que ele trazia do rio no bico.
Depois de deixar para trás a Calle Mayor, chegamos à grande ponte medieval que nos despede de Puente la Reina e dá a largada para a segunda metade da nossa etapa.

Essa maravilhosa construção medieval foi encomendada no século XI pela rainha Doña Mayor, esposa do rei de Navarra. Embora a maioria dos estudiosos afirme que o nome do povoado se deve a esse fato, há outros que acreditam que, como o rio Arga era chamado “rune” em basco, poderia derivar de “pons rune” (ponte sobre o Arga).
A ponte de pedra tem 5 grandes pilares com molestas que sustentam 6 arcos de volta redonda. O arco central é maior e o oriental não é visível hoje porque foi soterrado. Antigamente, a ponte tinha três torres e em uma delas ficava o nicho onde estava a Virgem do txori, a quem, segundo a lenda, um passarinho lavava com água que trazia no bico.
ATÉ MAÑERU E CIRAUQUI POR TRILHAS AGRÍCOLAS: “FOTOS DE POSTAL” PARA O NOSSO CAMINHO
Saímos de Puente la Reina atravessando sua ponte medieval e depois viramos à esquerda. Cruzamos uma faixa de pedestres que nos leva ao bairro de Zubiurrutia, o chamado “barrio de las monjas” (Bairro das Freiras), porque tem um convento de agostinhas desde o século XIII. O rio Arga nos acompanha paralelo à esquerda e seguimos reto até passar pela estação de tratamento. Um grande pinheiral em terreno íngreme ocupa o espaço entre o rio e a autopista A-12, a Autovía del Camino.

Para chegar a Mañeru, que fica ao lado da autopista, vamos ter que subir aquela rampa entre pinheiros. Não é uma ladeira muito longa e também é o último grande esforço desta etapa, mas ainda temos mais de 20 km pela frente, então, se estiver cansado, não hesite em subir empurrando a bicicleta.
Chegamos a Mañeru, delimitado ao norte pela A-12. Atravessamos o povoado por uma das laterais e, ao sair da vila, se abre diante de nós uma das vistas mais queridas do Caminho. Toda uma trilha de terra, entre campos de cereais e vinhedos e, ao fundo, Cirauqui.
Mañeru é um pitoresco povoado medieval de menos de 500 habitantes. Assim como nossa próxima parada, Cirauqui, também conserva seu traçado medieval instalado em uma colina. Este povoado tem grande tradição vinícola, embora hoje o cultivo destinado aos vinhedos tenha perdido terreno para o cereal. Mesmo assim, ainda se produz um vinho chamado “Belardi”, feito de forma cooperativa.

Durante a Idade Média o povoado esteve sob controle da Ordem de San Juan, e logo passou a depender de Puente la Reina, ligado ao mosteiro del Crucifijo. Também foi cenário da primeira Guerra Carlista. Hoje podemos encontrar em Mañeru todos os serviços necessários.

Depois de atravessar o povoado por suas ruas estreitas e passar pela grande praça dos Fueros, vamos pela área do cemitério rumo a Cirauqui. Para chegar lá, cruzamos 2,5 km de trilha agrícola entre grandes campos.
Ao chegar a Cirauqui, temos que encarar a última grande rampa do dia, já que atravessar o povoado significa cruzar suas ruas íngremes, entrando pelo que restou da antiga muralha até chegar à prefeitura. Antes de chegar à prefeitura, na Tournride recomendamos descer da bicicleta por alguns minutos para visitar a igreja de San Román.

Esta igreja foi construída no século XII e pertencia ao mosteiro de San Millán de la Cogolla (como todo o povoado). Embora tenha passado por muitas ampliações e reformas, conserva sua porta sul intacta. Essa portada é muito interessante porque é amostra da mistura de três influências diferentes que podiam ser encontradas no fim do século XII na Península Ibérica: tem elementos da escultura românica, o modo de fazer portadas da ordem cisterciense e, também, decorações que lembram o mundo árabe. Toda uma conjunção de correntes.
Há ainda uma possibilidade de itinerário sinalizado na entrada de Cirauqui que contorna o povoado em vez de atravessá-lo. Justamente, foi pensado para ciclistas que queiram evitar as rampas da localidade.
DE CIRAUQUI A LORCA É TUDO SOBRE ENGENHARIA: DE CALÇADAS ROMANAS A PONTES MEDIEVAIS E AQUEDUTOS MODERNOS
O caminho que pegamos ao sair de Cirauqui faz parte de uma antiga calçada romana e nos leva direto a uma ponte do século XVIII, construída sobre outra anterior que também era romana. Rolando por essa estrada tão antiga, em poucos metros chegamos a um viaduto sobre uma das rodovias mais modernas de Navarra, a A-12 ou “Del Camino”.
Cruzamos a passagem e seguimos a estrada por quase três quilômetros, sempre com a autopista à esquerda. Depois precisamos cruzar de novo a rodovia por uma passagem subterrânea. Chegamos a uma rotatória onde viramos à direita para pegar a NA-7171, que cruza a A-12 por baixo. Depois de pedalar uns 500 metros veremos uma grande estrutura que atravessa a NA-7171 acima de nós: é o viaduto de Alloz.

O viaduto de Alloz foi projetado por Eduardo Torroja em 1939. Muita gente talvez não conheça o nome dele, mas sim o da neta: Ana Torroja, cantora do extinto grupo Mecano. Ainda assim, não podemos esquecer esse grande engenheiro espanhol, considerado um dos mestres e artistas do concreto armado no século XX. Projetou essa grande estrutura para levar a água da represa de Mañeru e hoje segue de pé, cumprindo sua função, e já virou um atrativo a mais para fazer o Caminho de Santiago por Navarra.
Poucos metros depois do viaduto, uma estrada de terra sai da estrada. Ao pegá-la chegamos direto a outra obra de engenharia, desta vez medieval, que é a ponte que cruza o rio Salado.
Essa ponte está apoiada sobre dois arcos e é mencionada no Codex Calixtino. Aymeric Picaud avisa a todos os peregrinos em seu livro para terem cuidado, porque diz que ali os bandidos costumavam assaltar os caminhantes. Parados à beira do rio afiando suas facas, diziam aos peregrinos para darem de beber aos seus cavalos na água do rio, que pela salinidade os matava. Depois, sacrificavam os cavalos e levavam os pertences dos donos.
ÚLTIMOS 10 KM… FALTA POUCO PARA CHEGAR A ESTELLA! Passamos por Lorca e Villatuerta
Depois de atravessar a ponte, viramos à esquerda e seguimos por uma pista de terra até passar por um túnel que cruza, de novo, a A-12. Ao sair da passagem subterrânea, veremos uma pista asfaltada que nos leva direto a Lorca (quilômetro 36 do percurso), que vamos atravessar de leste a oeste pela Calle Mayor.
Como muitos dos povoados da área, essa localidade, onde hoje vivem menos de 100 pessoas, tem sua história intimamente ligada ao Caminho de Santiago. Há mais de 900 anos tinha um hospital para peregrinos e hoje conta com dois albergues privados.

Saímos da rua principal de Lorca para encarar os últimos 9,5 km até Estella. Mas antes precisamos percorrer cerca de 4,5 km até Villatuerta. Temos duas opções de itinerário:
- Ir pela estrada NA-1110.
- Pegar uma pista de terra que aparece à esquerda ao sair de Lorca e seguir entre trilhas de cultivos e vinhedos. Depois de cruzar outra passagem sob a autopista, chegamos a Villatuerta.
Se você pegar a segunda opção, vai ver que há uma área de descanso logo antes de passar pelo túnel que atravessa a autopista. Ali foi instalado um monumento em honra a uma canadense que morreu em 2002 enquanto peregrinava para Santiago.
CHEGAMOS A VILLATUERTA E ENCARAMOS OS ÚLTIMOS PASSOS ATÉ ESTELLA
Villatuerta é dividida em duas pelo rio Irantzu e, para cruzá-la, temos que seguir as ruas até chegar a uma ponte de pedra de origem medieval. Como a de Puente la Reina, é mais alta no centro do que nas extremidades. Essa é a chamada ponte “tipo dromedário”. Embora, claro, esta seja bem menor.

O outro monumento é o templo da Asunción. Antigamente havia outra igreja tardo-romana no lugar, mas pegou fogo no século XIV, por isso foi construído o templo gótico que vemos hoje. Destaca-se, sobretudo, o interior. É muito decorado, com inclusive restos de murais.
Saímos do povoado pelo noroeste, pelo “Camino de Estella”. Cruzamos uma faixa de pedestres e chegamos a uma pista de terra. Quando vemos a estrada (NA 1110) viramos à esquerda para, por um trecho curto, chegar à ermida de San Miguel.
Este templo é visita quase obrigatória para quem faz o Caminho Francês. Ergue-se como um forte, uma enorme massa de pedra cercada por campos. É o primeiro templo pré-românico que vamos ver na nossa rota e, por dentro, muitos peregrinos deixam papéis com desejos e descansam um pouco, desfrutando da paz que o lugar transmite e se maravilhando com seu esplêndido retábulo de cobre com pedras semipreciosas. Uma joia medieval.
Além de ser uma parada tradicional dos peregrinos, o templo também está ligado a ritos de fertilidade ou de cura de dores. Mulheres que queriam engravidar se sentavam em uma pedra e assistiam à missa. Na capela central há um pequeno buraco e as pessoas colocam a cabeça para curar dores crônicas.
Deixamos esta igreja tão especial e voltamos à estrada, agora sim, falta pouquinho! Para voltar à rota temos que dar um passinho para trás, retomando o caminho curto que nos levou à ermida. De volta à estrada, precisamos cruzar uma última passagem subterrânea na A-12 para chegar a Estella.
Na passagem, seguimos e vemos uma ponte que cruza o rio Ega e, no final, entramos pela rua Curtidores, vindo do sudeste, em Estella.
UM PASSEIO POR ESTELLA
Como sempre, na Tournride propomos um passeio à tarde, para que você saiba o que ver e o que fazer em Estella, seu fim de etapa. Dá para ver o itinerário do passeio aqui. São apenas 35 minutos caminhando, e você pode conhecer muitos monumentos da cidade!
Primeiro, um pouco de história sobre a conhecida como “Toledo del Norte”
O fato de o Caminho de Santiago passar por Estella se deve a uma decisão do rei Sancho Ramírez. No ano de 1090 decidiu que a rota seria desviada até o rio Ega, que atravessa a cidade, e deu uma Jurisdição aos francos para que desenvolvessem ali suas atividades. Com o grande fenômeno em que a peregrinação se transformou nos séculos seguintes, grandes construções se ergueram em Estella.
O desenvolvimento urbano fez surgir diferentes bairros, sendo também muito importante a comunidade judaica do lugar (até a expulsão dos judeus da Espanha em 1492). Além disso, cabe notar que todo o movimento da peregrinação envolveu a expansão de correntes artísticas, que se refletiram nas localidades do Caminho. O resultado monumental de tudo isso em Estella faz com que muitas vezes seja chamada de “Toledo do Norte”.

Vamos dar uma volta — tem muito o que admirar em apenas meia hora!
Ao entrar em Estella, seja pela NA-1110 ou pela trilha original, você vai acabar na rua Curtidores. Nela vai encontrar um albergue municipal para descansar, mas se estiver cheio você pode sempre tentar achar lugar nos outros quatro albergues do povoado (veja mais sobre hospedagem nas dicas práticas da etapa).

Nas imediações da rua Curtidores, encontramos um ponto com vários monumentos interessantes: a igreja do Santo Sepulcro, o convento de Santo Domingo, a igreja de Santa María Jus del Castillo e, seguindo a rua junto ao rio, o Palácio dos Reis de Navarra.
A igreja do Santo Sepulcro é a primeira coisa que veremos ao entrar em Estella. Durante a Idade Média foi o templo principal de alguns dos bairros que compunham a localidade. Hoje dá para ver as diferentes influências que marcaram sua estrutura desde o século XII. Só uma das naves é desse século e a maior parte do que resta é do XIV (Gótico). Uma nota particular é a portada principal, com 12 arquivoltas formando uma enorme porta em derrame. Tem bastante decoração, destacando-se uma figura de Santiago vestido como peregrino.

Lado a lado ficam o convento de Santo Domingo e a igreja de Santa María Jus del Castillo. Para ir de um ao outro voltamos à rua Curtidores e vemos a ponte Picudo sobre o rio Ega, outro exemplo de ponte “tipo dromedário”.
O convento de Santo Domingo reflete a importância da relação entre a Igreja e a Coroa na Idade Média. Foi o rei de Navarra quem ordenou e pagou a construção, mas os dominicanos, que iam ocupá-lo, davam benefícios aos fiéis e ajudavam a mantê-lo. Pela crueldade da Guerra da Independência frente a Napoleão, os monges fugiram do convento e, embora tenha sido habitado depois de forma intermitente, com o confisco de 1939 foi abandonado e permanece em desuso, até que em meados do século só restaram os muros. Nos anos 60 e 70 foi reabilitado e agora funciona como casa de repouso, então não pode ser visitado por dentro.

Quase colada ao atual lar de idosos está a igreja de Santa María Jus del Castillo. Antigamente, no lugar em que está, havia uma sinagoga. No século XII, o local é ocupado e se constrói este templo cristão, que mantém sua função de igreja até o século XVII. Embora inicialmente se chamasse igreja da Santa Maria e Todos os Santos, com a construção do castelo de Zalatambor em um ponto alto próximo, passou a ser conhecida como igreja “sob o castelo” (“jus” del Castillo, em euskera). Depois começa um processo de deterioração que se encerra quando, no fim do século XX, decide-se usar esse espaço artística e historicamente valioso como centro de Interpretação do Românico e do Caminho de Santiago.
Se voltarmos à rua Curtidores, chegaremos ao Museu do Carlismo, que fica ao lado do albergue de peregrinos já mencionado. Ocupa o espaço do antigo palácio do Governador de Navarra, do século XVII. Se você tem interesse em História Contemporânea, com certeza vai encontrar aqui um lugar para aprender, já que, além de impulsionar pesquisas sobre o Carlismo, o museu tem uma abordagem didática e pedagógica bem clara.

O Carlismo foi um movimento político que surgiu no século XIX em oposição ao liberalismo. Enquanto a nova corrente política liberal queria tirar os Bourbons do poder e mudar o sistema político e econômico, os carlistas apostavam em um sistema mais parecido com o Antigo Regime, no qual a Igreja e a Coroa tinham muita presença. Basicamente, sua essência se resume no lema “Deus, Pátria, Rei”. O curioso desse movimento é que se estendeu e evoluiu muito com o tempo, a ponto de persistir até o fim da ditadura de Franco. Além disso, durante o século XIX as diferentes tentativas de tomar o poder de seus seguidores levaram a três guerras civis diferentes.
Muitas das áreas que hoje são parte do Caminho de Santiago em Navarra foram cenário de batalhas durante essas três guerras carlistas, e é por isso que este espaço foi dedicado ao estudo e à pesquisa desse movimento político.

Voltando à rua Curtidores, seguimos caminhando para o oeste e chegamos à Praça San Martín. Nela há uma bela fonte renascentista do século XVI, com árvores e bancos onde descansar admirando os dois monumentos que nos cercam: o Palácio dos Reis de Navarra, na própria praça, e, do outro lado, a igreja de San Pedro.

O Palácio dos Reis de Navarra é muito importante porque é o único exemplar que resta em Navarra de arquitetura civil românica. Como vimos até agora, a maior parte do que se conserva desse movimento dos séculos XI e XIII se reduz a edifícios religiosos. Mas, neste caso, podemos ver como ele se aplica em uma construção civil, embora a função original do espaço não seja clara. Há estudiosos que acreditam que ali ficavam os francos com poder que governavam os diferentes bairros da antiga Estella. Outros pensam que podia ser uma grande adega e celeiro com uma sala para o governador do reino.
Independentemente de sua função original, o edifício se destaca pela sua conservação. Sua fachada atual está dividida em três corpos horizontais com duas torres. O corpo intermediário, com grandes janelas, apoia-se sobre uma grande galeria em pórtico. A parte superior é uma ampliação do século XVII. Hoje abriga o museu do artista Gustavo de Maeztu.
Em frente a essa praça, num nível mais elevado (há escadas e um elevador para chegar lá), você vai encontrar a maior igreja da cidade e um dos principais atrativos do lugar: a igreja de San Pedro de la Rúa.

Este templo ocupava o que era o centro da cidade medieval de Estella e se destaca especialmente pelo seu claustro, muito decorado. Ficava ao lado do antigo castelo, daí sua posição elevada na encosta, com finalidade defensiva. De fato, a torre ao pé da igreja dá ao conjunto todo um aspecto militar. Seus restos mais antigos são do século XII e funcionou durante a Idade Média como cemitério de peregrinos.
Além dos restos do claustro, destaca-se sua portada de entrada. Como já vimos na igreja de San Román de Cirauqui, as formas polilobuladas desta nos lembram a influência da arte árabe que durante o século XIII predominou no sul da Península Ibérica.
A subida até a igreja vale a pena não só para ver o conjunto em si, mas também pelas vistas que oferece de Estella. Recomendamos que você se posicione na escada que desce até a praça e aproveite um belo pôr do sol com a paisagem navarra ao fundo.
Reponha as forças com boa gastronomia e lugares para descansar
Depois de tanta etapa e turismo, temos certeza de que você quer descansar e comer algo gostoso. Estella é um bom lugar para isso, não à toa já no século XII o monge Aymeric avisava em seu guia do Caminho que era um lugar de “bom pão, excelente vinho, muita carne e peixe e todo tipo de felicidade”.
Se você é fã de peixe, não pode ir embora sem provar o bacalhau al ajoarriero, com legumes e tomate. Também dá para encontrar truta preparada de várias maneiras. Os carnívoros vão achar nos assados seu grande aliado, especialmente de leitão (procure o “gorrín” nos cardápios dos restaurantes) ou todo tipo de caça. Além disso, como toda a Comunidade de Navarra, destaca-se pela boa qualidade de seus legumes e verduras.
Os gulosos devem saber que há várias lojas com grande tradição de confeitaria no povoado. São famosos, sobretudo, os folhados de Estella (“alpargatas”) e os bombons de chocolate.
Se você prefere uma opção mais econômica, dá para comprar algo para comer e aproveitar fazendo um piquenique no Parque Los Llanos, às margens do rio Ega. Também há piscinas onde tomar banho e quem diz que suas águas são medicinais e têm propriedades curativas.
Mas não se esqueça de descansar bem depois deste dia cheio de descobertas pedalando de Pamplona a Estella de bicicleta… Amanhã mudamos de comunidade e fazemos imersão no vinho de La Rioja!