ETAPA 5: DE LOGROÑO A SANTO DOMINGO DE LA CALZADA

Xavier Rodríguez Prieto

A Etapa 5 é a primeira em que o Caminho Francês se instala completamente em La Rioja: pedala entre vinhedos e campos de cereais, com o perfil mais suave desde os Pirineus e a sensação de que o percurso encontrou o seu ritmo. Os 47 quilômetros de Logroño até Santo Domingo de la Calzada acumulam apenas 350 metros de desnível positivo, mas escondem uma profundidade histórica que a paisagem plana não sugere. Quem fundou este trecho não era um militar nem um nobre: era um camponês riojano do século XI que decidiu, por iniciativa própria, construir uma ponte, uma calçada e um hospital para que os peregrinos pudessem atravessar melhor o rio Oja. Santo Domingo de la Calzada é o patrono dos engenheiros de estradas espanhóis. A etapa que leva o seu nome merece ser lida antes de ser pedalada.

Distância Desnível acumulado Tempo estimado Dificuldade Distância até Santiago
47 km +350 m acumulados 3–4 horas pedalando 🟡 Baixa–Média ~620 km

Paradas principais: Navarrete (km 14) · Nájera (km 27) · Azofra (km 34) · Santo Domingo de la Calzada (km 47)
Desvio opcional: San Millán de la Cogolla (+21 km de Azofra — Patrimônio da Humanidade UNESCO 1997, berço do castelhano escrito)

Perfil e marcos principais

Saída de Logroño: ciclovia e barragem de La Grajera (km 0–8)

A etapa começa bem: Logroño tem um dos trechos urbanos mais confortáveis do Caminho Francês, com uma ciclovia que sai da cidade ladeada pela barragem de La Grajera, construída em 1883 para abastecer a capital riojana. Hoje é zona de especial proteção para aves, com um espelho de água, margens arborizadas e um silêncio incomum para estar a poucos quilômetros do centro. É uma partida agradável antes de o caminho se abrir pelos vinhedos.

Navarrete: o portal do cemitério e o capitel de Rolando (km 14)

Navarrete ergue-se sobre o cerro Tedeón e a sua história começa muito antes do Caminho: a zona tem olaria documentada desde a época romana, quando aqui se fabricava terra sigillata, a louça fina de luxo do Império. A tradição oleira sobreviveu até hoje. A Igreja da Assunção, com a sua mistura de estilos barroco e renascentista, merece uma paragem.

O mais singular de Navarrete não está dentro da aldeia mas à saída: o cemitério municipal incorpora como portal principal o portal tardo-românico do antigo Hospital de São João de Acre, desmontado pedra a pedra no século XIX quando o edifício original foi demolido e recomposto aqui com toda a sua iconografia intacta. Um dos seus capitéis mostra a luta entre Rolando e o gigante Ferragut — o combate que, segundo a lenda épica, se travou precisamente nestas terras. Junto ao portal há uma placa em memória de Alice Craemer, peregrina alemã falecida perto de Navarrete em 1986, uma das primeiras mortes no Caminho contemporâneo.

O Poyo de Rolando: o gigante sírio e o seu ponto fraco (km 17)

Entre Navarrete e Nájera, um montículo junto ao caminho marca o Poyo de Rolando. A lenda medieval situa aqui a batalha entre Rolando — o cavaleiro de Carlos Magno — e Ferragut, um gigante de origem síria com a força de quarenta homens e a pele tão dura que nenhuma arma podia atravessá-la. Segundo o relato do Codex Calixtinus, Rolando e Ferragut combateram durante dias sem que nenhum pudesse vencer o outro. Uma noite, enquanto descansavam, Rolando perguntou ao gigante se tinha algum ponto fraco. Ferragut, ingenuamente, confessou-lhe que o seu único ponto vulnerável era o umbigo. Na manhã seguinte, Rolando enterrou-lhe ali a sua espada. A luta foi interpretada como metáfora da Reconquista: o cavaleiro cristão que com astúcia e inteligência derrota um inimigo fisicamente superior.

Nájera: o panteão dos reis e o mosteiro de Santa María la Real (km 27)

Nájera merece tempo. A cidade assenta onde o rio Najerilla — com as suas características paredes de rocha vermelha — desce da serra, e era capital do Reino de Navarra antes de Logroño assumir esse papel. A ponte de São João de Ortega sobre o Najerilla é a entrada visual para a cidade.

O protagonista é o Mosteiro de Santa María la Real, fundado em 1052 por García Sánchez III de Navarra. A lenda da sua fundação é jacobeia na estrutura: o rei saiu à caça, o seu falcão perseguiu uma pomba até ao interior de uma gruta, e lá dentro encontrou uma imagem da Virgem com um sino e um vaso de lírios aos pés. O rei mandou construir o mosteiro sobre a própria gruta, que hoje é a capela do Santo Sepulcro dentro do templo.

O que torna único Santa María la Real é o seu panteão real: doze sepulcros de reis, rainhas e infantes dos séculos X–XII, entre os quais os últimos monarcas do reino independente de Navarra antes da sua união com Castela. É uma das coleções de escultura funerária românica mais importantes de Espanha. O claustro gótico, especialmente a sua galeria de trifórios do século XVI, é outro dos pontos fortes. Entrada aproximada: 4 €; encerrado às segundas.

Azofra e a bifurcação para San Millán (km 34)

Azofra é uma pequena localidade de passagem com o necessário para reabastecer. Aqui coloca-se a decisão do dia: continuar diretamente para Santo Domingo ou fazer o desvio para San Millán de la Cogolla.

O desvio soma cerca de 21 km e afasta-se do Caminho oficial, mas o destino justifica-o: os Mosteiros de San Millán são Patrimônio da Humanidade UNESCO desde 1997, em parte pela sua arquitetura e em parte porque aqui foram escritas as primeiras palavras documentadas em castelhano. O Mosteiro de Suso é pré-românico, com elementos visigóticos, mozárabes e românicos sobrepostos até ao século IX; o Mosteiro de Yuso, beneditino, data de 1100 e conserva uma biblioteca excepcional e marfins do século XI esculpidos com cenas da vida do santo. Ambos fechados às segundas. Se tiver um dia de margem ou chegar a Azofra com tempo, a Tournride recomenda fazer este desvio: poucas horas de pedalada adicional para ver o lugar onde nasceu a língua em que lê esta frase.

Variante por Cirueña (km 36–44)

Depois de Azofra, o Caminho oficial passa por Cirueña antes de descer a Santo Domingo. Existe uma variante alternativa que adiciona cerca de 2 km mas percorre pistas mais agradáveis e com melhores vistas. Para bicicleta de estrada, o traçado principal é mais confortável; para gravel ou MTB, a variante de Cirueña merece ser considerada.

Quando você chega: Santo Domingo de la Calzada

Santo Domingo de la Calzada é uma das poucas cidades do Caminho Francês fundada especificamente para o Caminho. Não havia aqui uma cidade romana, nem um castelo estratégico, nem uma rota comercial prévia: havia um monge recusado pelos mosteiros da zona — por falta de formação, segundo as crónicas — que decidiu dedicar a sua vida a facilitar a passagem dos peregrinos por um trecho particularmente difícil do rio Oja.

Domingo García: o engenheiro de estradas do século XI

Domingo García (c. 1019–1109) chegou a estas terras na segunda metade do século XI e começou a trabalhar sozinho: abateu o bosque que bloqueava a passagem do Caminho, construiu uma ponte de madeira sobre o rio Oja — depois substituída por uma de pedra que ainda subsiste —, traçou uma calçada empedrada e ergueu uma igreja e um hospital para peregrinos. Quando morreu, em 1109, havia transformado um cruzamento intransitável numa etapa segura e frequentada. A cidade cresceu em redor das suas obras. A igreja que ele construiu tornou-se catedral. Foi canonizado em 1254, e a Igreja Católica celebra-o a 12 de maio. Os engenheiros de estradas espanhóis adotaram-no como patrono no século XX.

O galo e a galinha: o milagre que vive na catedral

Santo Domingo de la Calzada é a única catedral em Espanha — provavelmente no mundo — que alberga animais vivos dentro do templo de forma permanente. Num galinheiro de pedra adossado à parede, junto à entrada, há sempre um galo e uma galinha brancos vivos. O motivo é um milagre do século XIV, o mais famoso de todos os associados ao santo.

Segundo a hagiografia: uma família alemã peregrina hospedou-se na cidade. A filha da estalagem apaixonou-se pelo filho da família, ele rejeitou-a, e ela denunciou-o falsamente por roubo. O jovem foi enforcado. Os seus pais, no regresso, passaram novamente por Santo Domingo e encontraram o filho ainda vivo na forca — sustentado milagrosamente pelo próprio santo. Correram ao corregedor a contar-lhe o sucedido. O corregedor, que estava a jantar um galo e uma galinha assados, respondeu cético: «Esse rapaz está tão vivo como este galo e esta galinha». Nesse momento, as aves assadas levantaram-se do prato e começaram a cantar. O juiz ordenou a libertação imediata do jovem. Desde então, na catedral mantêm-se sempre um galo e uma galinha vivos como testemunho do milagre. O popular ditado riojano «Santo Domingo de la Calzada, donde cantó la gallina después de asada» — Santo Domingo da Calçada, onde cantou a galinha depois de assada — deriva diretamente deste episódio.

A catedral: a Torre Separada e os capitéis da abside

A catedral de Santo Domingo é um edifício complexo, construído em várias fases entre os séculos XII e XVIII. O seu elemento mais visível de longe é a Torre Separada, a mais alta de La Rioja, cuja particularidade construtiva é surpreendente: os arqueólogos encontraram nas suas fundações ossos de animais — principalmente bois — misturados na argamassa. A interpretação mais aceite é que se tratava de uma prática supersticiosa ou ritual para assegurar a solidez da construção, habitual em algumas zonas da Península na Idade Média.

Dentro da catedral, os capitéis da abside são dos melhores exemplos do românico tardio em La Rioja: figuras humanas, bestas, cenas bíblicas e ornamentos vegetais esculpidos com uma precisão que contrasta com a escala do edifício. O sepulcro do santo, no interior, recebe visitas de peregrinos há nove séculos. A planta do templo reproduz o esquema de igreja de peregrinação: nave central, duas naves laterais, girola para circular em torno do altar-mor sem interromper as celebrações.

O Parador e as muralhas

O edifício que hoje é o Parador de Turismo foi o hospital de peregrinos original fundado por Santo Domingo, ampliado e reformado ao longo dos séculos. É um dos paradores mais diretamente ligados à história jacobeia: dormir aqui é fazê-lo no mesmo solar onde o próprio Domingo García assistia os caminhantes doentes. O abade Bernardo de Fresneda, confessor de Carlos V e Filipe II, também teve relação com este edifício no século XVI.

As muralhas medievais de Santo Domingo conservam-se num trecho notável: 1,5 quilômetros de cinto com 38 torreões, construídas no século XIV para proteger a cidade e os seus peregrinos. São fáceis de percorrer a pé e dão perspectiva sobre a escala que chegou a alcançar esta cidade fundada por um só homem com uma enxada.

Em frente à catedral, o Mosteiro da Anunciação, cisterciense, tem entrada gratuita e guarda uma tranquilidade que contrasta com o movimento da praça.

Notas práticas para a Etapa 5

Água e abastecimento

Navarrete (km 14) e Nájera (km 27) têm tudo o necessário: bares, supermercados, farmácias. Azofra (km 34) é pequena mas tem bar e fonte. Entre Logroño e Navarrete há trechos sem serviços, por isso convém abastecer na capital riojana antes de partir.

Superfície e tipo de bicicleta

A etapa mistura trechos de estrada asfaltada, pistas de gravilha compactada e alguns caminhos de terra entre vinhedos. Uma gravel ou MTB roda confortavelmente em todo o percurso. Uma bicicleta de estrada também funciona bem se se evitarem as variantes de terra. A e-bike é confortável dado o desnível reduzido, embora não seja necessária para ciclistas com alguma forma física.

Partir de Logroño

Logroño tem frequentes ligações de comboio e autocarro com Madrid, Bilbau, Pamplona e Saragoça. A Tournride entrega a bicicleta no seu alojamento em Logroño na tarde anterior à partida.

Perguntas frequentes sobre a Etapa 5

Quantos quilômetros tem a Etapa 5 do Caminho Francês de bicicleta?

47 quilômetros de Logroño até Santo Domingo de la Calzada, com um desnível acumulado de aproximadamente 350 metros. É uma das etapas mais acessíveis do Caminho Francês de bicicleta: perfil suave, superfície variada e boas opções de abastecimento a cada 10–15 km. O tempo estimado é de 3 a 4 horas de pedalada efetiva.

Vale a pena o desvio para San Millán de la Cogolla?

Sim, se tiver tempo. Os Mosteiros de Suso e Yuso são Patrimônio da Humanidade UNESCO desde 1997 e o lugar onde foram escritas as primeiras glosas em castelhano. O desvio de Azofra soma cerca de 21 km ao total, pelo que a Tournride recomenda fazê-lo partindo cedo nesse dia ou como excursão de Nájera ou Santo Domingo se pernoitar lá.

O que são o galo e a galinha da catedral de Santo Domingo?

Um galo e uma galinha brancos vivos que se mantêm de forma permanente num galinheiro de pedra dentro da catedral. São o testemunho vivo de um milagre medieval do século XIV em que duas aves assadas ressuscitaram para provar a inocência de um peregrino condenado injustamente. A tradição de manter aves na catedral não se interrompeu desde então.

Quem foi Santo Domingo de la Calzada?

Domingo García (c. 1019–1109), um camponês riojano que dedicou a sua vida adulta a melhorar a passagem dos peregrinos pelo rio Oja: construiu uma ponte, uma calçada empedrada, uma igreja e um hospital. A cidade cresceu em redor das suas obras. Foi canonizado em 1254 e é o patrono dos engenheiros de estradas espanhóis.

Pode-se alugar uma bicicleta em Logroño para fazer o Caminho Francês?

Sim. A Tournride entrega a bicicleta no seu alojamento em Logroño na tarde anterior e recolhe-a em Santiago de Compostela ao terminar. Oferecemos também transporte de bagagem entre etapas. Consulte modelos e disponibilidade aqui.