Etapa 10: De Astorga a Ponferrada de bicicleta
Xavier Rodríguez PrietoDados técnicos da etapa
- Distância até Santiago: 256 km
- Distância da etapa: 54 km
- Tempo estimado: 5 – 6 horas
- Altitude mínima: 510 m
- Altitude máxima: 1052 m
- Dificuldade: Alta
- Lugares de interesse: Castrillo de los Polvazares, Rabanal del Camino, Cruz de Ferro, Molinaseca, Ponferrada
- Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui

De Astorga a Ponferrada de bicicleta é a décima etapa do Caminho Francês, e tem uma dificuldade maior do que as anteriores. Em compensação, você atravessa paisagens espetaculares e visita um dos marcos mais icônicos do Caminho: a Cruz de Ferro (1502 m). A LE-142 é a nossa espinha dorsal durante praticamente toda a jornada, com trilhas pedonais paralelas em muitos trechos. Como em alguns pontos esses caminhos ficam perigosos, recomendamos evitar as setas jacobeias e seguir pela rodovia. A gente analisa cada trecho em detalhe mais abaixo.
Na saída de Astorga a subida é contínua, mas suave, sobretudo nos primeiros 20 km. Ao chegar em Rabanal del Camino, a rampa fica mais firme até a Cruz de Ferro. São cerca de 8,6 km com inclinações médias entre 4 e 5,5%.
De Astorga a Manjarín, as trilhas pedonais ainda são razoáveis para ciclistas, embora em alguns pontos seja necessário descer da bike. De Manjarín a Molinaseca, recomendamos fortemente ir pela rodovia, especialmente nos trechos antes de El Acebo de San Miguel e em Molinaseca — ali as trilhas ficam muito perigosas.
Pela rodovia, você curte vistas incríveis e só precisa prestar atenção ao trânsito, porque aparecem algumas curvas e o tráfego é de mão dupla. A descida é forte, entre 3,5 e 14%.
Se você seguir as instruções certas, não tem motivo para começar esta etapa com medo do que vem pela frente. É uma das jornadas mais especiais do Caminho, porque leva a ambientes naturais espetaculares — e basta pegar os itinerários alternativos em alguns pontos específicos.
Abaixo damos mais detalhes do percurso. E, como sempre, na Tournride a gente deseja o melhor do Caminho a você.

Perfil e rotas principais da etapa
Saímos de Astorga pela rua San Pedro, que leva a uma rotatória onde atravessamos a N-VI e pegamos a rodovia que vai nos acompanhar durante toda a etapa: a LE-142. Pelo acostamento ou pela pista de concreto paralela, cruzamos a A-6 por uma passagem superior em 1,7 km e, em mais cerca de 1,5 km, chegamos a Murias de Rechivaldo.
Na entrada de Murias de Rechivaldo, o caminho jacobeu vira à esquerda e abandona a LE-142. Como a trilha é larga e de piso firme, dá para ir por qualquer dos dois lados. Se você seguir só pela estrada, passa por Castrillo de los Polvazares, um povoado-rua curioso declarado Conjunto Histórico-Artístico em 1980 e considerado um dos lugares mais bonitos da Maragatería.
Do cruzamento da LE-142 com o caminho de saída de Murias de Rechivaldo até Rabanal del Camino, dá para ir por uma estrada local estreita ou pela trilha de saibro paralela a ela. O perfil continua muito simples, com uma descida quase imperceptível — a inclinação normal não passa de 3%.
Na saída de Rabanal, a trilha jacobeia deixa a LE-142 pela esquerda e cruza a rodovia de novo 1 km depois. Recomendamos fazer esse trecho pela estrada, porque no final aparecem degraus e o piso é muito pedregoso.
Daqui em diante, a rampa endurece com média de 5%. Seguindo pela rodovia, chegamos primeiro a Foncebadón (km 26). Ao ver a placa de entrada da vila, as setas jacobeias mandam sair da estrada para atravessar o povoado. Nesse caso, as trilhas que cruzam Foncebadón e percorrem 1,2 km cercadas de montanhas são largas e dá para pedalar perfeitamente.
Voltando para a rodovia, seguimos subindo por mais 600 m até chegar à mítica Cruz de Ferro, onde — seguindo a tradição jacobeia — cada peregrino deixa aos pés dela uma pedra que carregou durante toda a peregrinação.

Da Cruz de Ferro a Manjarín, onde fica a Encomienda Templaria de Tomás — um dos personagens mais famosos do Caminho Francês —, são apenas 2,3 km pelo acostamento ou pela trilha de terra à direita.
Depois de Manjarín começa uma das descidas mais intensas de todo o Caminho Francês. São cerca de 17,5 km até Molinaseca. A trilha pedonal acompanha a LE-142, mas em alguns pontos se afasta por caminhos largos onde dá para se perder entre as montanhas. Há ciclistas que insistem em seguir pelos traçados jacobeus, mas na Tournride recomendamos fortemente fazer esta parte da etapa pela rodovia. Mesmo para ciclistas experientes e com boa técnica, em certos momentos a gente divide a trilha com caminhantes, o que pode gerar acidentes. Algumas trilhas são estreitas, com piso pedregoso, rampa forte e, muitas vezes, beirando precipícios. Um combinado arriscado.
A LE-142 atravessa El Acebo de San Miguel e continua descendo com média próxima de 9% negativos, passando pelo norte de Riego de Ambrós até chegar a Molinaseca (km 45,7 da etapa). Fazer esse trecho pela rodovia pode ser uma experiência incrível, porque as vistas são espetaculares.

Ao chegar a Molinaseca, atravessamos o rio Meruelo pela bela ponte de pedra do povoado e seguimos pela rodovia ou pela trilha paralela até Ponferrada. Na entrada de Ponferrada, a trilha pedonal segue por uma calçada bem larga.
Chegar ao centro de Ponferrada é muito simples: o caminho leva direto à grande avenida do Castelo e, quando a gente vê a ponte cruzando o rio Sil, vira à direita para passar junto ao majestoso castelo da cidade e desembocar na Plaza del Ayuntamiento.
No geral, a etapa é complicada, mas é também uma das mais lembradas pelos peregrinos de bicicleta. Só recomendamos extremo cuidado na descida de Manjarín a Molinaseca e levar equipamentos refletivos e de iluminação se o tempo piorar, para não ter sustos com carros na LE-142.

Dicas práticas
Se você começa a sua jornada em Astorga, na Tournride ajudamos você a chegar:
- De ônibus: Astorga é o centro de um bom entroncamento de estradas (A-6, AP-71, N-VI). A Alsa conecta com todo o Norte da península e também com as capitais do Leste e do Sul.
- De trem: Astorga tem conexões diretas com a Galícia (Ferrol, A Coruña e Vigo), Madri, Barcelona, País Basco (Bilbao, Irún) e outras cidades de Castela e Leão pelos regionais. Para mais informações, veja o site da Renfe.
Lembre que na Tournride deixamos as bicicletas no seu alojamento em León ou Astorga se você começar por aí, e podemos levar sua bagagem extra para que ela espere você no fim do Caminho.
Para pegar a credencial em Astorga, o mais fácil é ir ao albergue da Asociación del Camino de Santiago de Astorga, que fornece a credencial e fica bem perto da Plaza Mayor.
- Sobre o itinerário, na Tournride recomendamos escolher a rodovia de Rabanal a Foncebadón e também o trecho entre Manjarín e Molinaseca. No resto do percurso, vá pela opção que você preferir.
- Cuidado com o tempo ruim. Recomendamos consultar a previsão do tempo antes de pedalar. O trecho entre Rabanal del Camino e Manjarín é famoso pelo clima frio de montanha, com muita neve, vento e tempestades fortes.
- Há muitos povoados com todos os serviços, então você não precisa carregar tantos mantimentos — a não ser no verão, quando o calor é forte.
- Hoje, mais do que nunca, é importante levar o alforje bem ajustado para manter a bicicleta estável.
- Em menos de 5 km a partir de Astorga chegamos a Castrillo de los Polvazares. A rodovia principal não passa por lá, mas é só um desvio simples e curto. É um povoado ideal para tomar o café da manhã — dá para demorar bastante no caminho, tem todos os serviços e um charme especial.
Roteiro detalhado e patrimônio histórico-artístico
A etapa de hoje é de transição. Saímos da capital da Maragatería e seguimos em perfil plano até Rabanal del Camino, passando por pequenos povoados antigos de tropeiros onde a arquitetura popular está bem preservada. Dali em diante, tudo muda: o perfil endurece, as paisagens ficam verdes, e a gente percebe que entrou em El Bierzo. Os páramos áridos de León ficam para trás!
Pedalando pelos montes de León, passamos por um dos pontos mais reconhecíveis do Caminho Francês: a Cruz de Ferro. Começa aí uma descida vertiginosa, em que as vistas espetaculares do entorno fazem companhia, e passamos por povoados pequenos e encantadores como El Acebo de San Miguel.
Depois de cruzar a magnífica ponte medieval de Molinaseca, estamos a um passo do fim da etapa: Ponferrada, onde recomendamos um passeio tranquilo para aproveitar a capital do Bierzo.
Bom caminho!

Saímos de Astorga com perfil tranquilo (por enquanto) rumo a Rabanal del Camino
A saída de Astorga é bem mais simples do que as das cidades anteriores, como Pamplona, Burgos ou León. Da catedral, pegamos a rua Portería, que sai bem em frente. Virando na primeira à direita, seguimos pela rua San Pedro até uma curva à esquerda que nos leva a atravessar a N-VI por uma passagem pedonal. Do outro lado vemos a LE-142, por onde deixamos Astorga.
Antes de cruzar a A-6 por uma passagem superior, passamos perto do desvio para Valdeviejas. Logo depois aparece a capela do Ecce Homo. Esse monumento tem uma placa na porta que diz “La Fe, fuente de salud” (A fé, fonte de saúde), em várias línguas. A frase faz referência a uma lenda antiga que se passa na própria capela.
Dentro da capela havia antigamente um poço onde os peregrinos saciavam a sede. Conta-se que o filho de uma peregrina caiu nele; ao ver que a água subia cada vez mais, ela suplicou ao Ecce Homo até que a criança saísse. Por causa do milagre, mudaram a dedicação do templo, que antes era a San Roque.
O Ecce Homo é o Jesus sofrente, submetido a diferentes torturas antes da crucificação. Quando Pôncio Pilatos o mostrou à multidão depois de torturá-lo, alguns textos dizem que ele exclamou “¡Ecce Homo!” (“Eis o homem!”). Quando se quer destacar a humanidade de Deus, é assim que ele costuma ser representado: como um homem que sofre.

Depois de cruzar a A-6 por uma passagem elevada, seguimos pelo acostamento da rodovia ou pela trilha paralela e chegamos a Murias de Rechivaldo (km 3,5).
Saindo da capital da Maragatería, passamos agora por diferentes povoados da região a caminho de Foncebadón. Murias de Rechivaldo, assim como Castrillo de los Polvazares (que dá para visitar se continuarmos pela LE-142 para o norte em menos de 2 km), é um antigo povoado de tropeiros. Aqui moravam os comerciantes que transportavam mercadorias dos portos da península até o interior. Boa parte dessa arquitetura ainda está bem preservada, em especial em Castrillo — declarado Conjunto Histórico-Artístico e considerado o povoado de maior charme da Maragatería. O calçamento de pedra do século XVII continua em bom estado dentro do núcleo, feito na época justamente para facilitar a passagem dos tropeiros.
As construções de Murias e Castrillo seguem o mesmo padrão das casas populares da Maragatería. São feitas de alvenaria de pedra, com marcos de portas e janelas pintados e grandes portões de duas folhas, pensados para os tropeiros guardarem as carroças com segurança.

Na Tournride incentivamos você a visitar Castrillo de los Polvazares, um povoado cheio de charme que fica a um pulo de bicicleta. Já em Murias de Rechivaldo, o mais impressionante é a igreja de San Esteban, com uma espadana em forma de pórtico com escadas onde, muitas vezes, as cegonhas fazem ninho.
Se formos por Castrillo de los Polvazares, é preciso voltar à LE-142 e, em cerca de 1,3 km, virar à direita para pegar a LE-6304. Aparecem então três traçados paralelos: a estrada LE-6304 (mão dupla), uma trilha de saibro (pedonal para peregrinos) e uma trilha agrícola de terra avermelhada. Dá para ir por qualquer uma, em perfil quase plano, até Santa Catalina de Somoza, em apenas 2 km.
Santa Catalina de Somoza é outro povoado antigo de tropeiros, com arquitetura popular semelhante. Além disso, tem uma grande tradição jacobeia, refletida na sua configuração urbana — o Caminho é a rua principal e funciona como espinha dorsal da vila.
Um dos personagens mais queridos e especialistas no Caminho Francês é natural de Santa Catalina de Somoza: Bienvenido Merino. Há cerca de 30 anos ele esculpe em madeira souvenirs artesanais para peregrinos enquanto conversa com quem chega, contando histórias jacobeias. Conheceu alguns dos peregrinos mais famosos, como Paulo Coelho, a quem convidou para tomar algo dentro de casa. Meses depois, quando o escritor brasileiro publicou o seu romance “O Peregrino de Compostela”, Bienvenido recebeu um exemplar pelo correio. E, em algumas edições do livro, a foto da capa é a porta azul da casa de Bienvenido, com as conchas de vieira que ele vende penduradas na porta.

Seguindo pela LE-6304, em 4 km chegamos a El Ganso, pequeno povoado da Maragatería. Depois de atravessá-lo, em mais ou menos 4 km cruzamos um desvio para Rabanal Viejo. A poucos metros dali ficava uma das árvores mais conhecidas do Caminho Francês, o “Roble del Peregrino” (o Carvalho do Peregrino), que resistiu por décadas até uma tempestade arrancá-lo em 2013. A gente não está brincando quando avisa, nas dicas da etapa, que o tempo pode ser duro aqui!
Logo depois, à esquerda da estrada, aparece a capela de la Vera Cruz, do século XVIII, que hoje fica ao lado do cemitério. Passando perto dela, chegamos a Rabanal del Camino (km 20).
Como o próprio nome sugere, Rabanal del Camino é passagem de peregrinos há séculos e, hoje, com o renascimento do Caminho Francês, foi restaurado e se tornou um lugar muito acolhedor. A arquitetura popular segue os padrões da Maragatería e alguns alojamentos ocupam essas antigas casas com grandes pátios centrais.
Os Templários tiveram muita presença em Rabanal del Camino, usando o povoado como base prévia ao seu centro nevrálgico em Ponferrada. Tentavam proteger melhor os peregrinos, porque no alto dos montes de León havia muitos ladrões e animais selvagens. A igreja paroquial da vila é testemunha dessa presença templária: dedicada a Nuestra Señora de la Asunción, foi promovida pela ordem no século XII e é um dos poucos templos românicos que sobreviveram em León.
Por causa da localização e dos serviços, Rabanal virou um centro jacobeu importante na Idade Média. Aymeric Picaud o usou como parada de pernoite na sua nona etapa, como menciona no Codex Calixtinus; conta-se também que Filipe II passou a noite em uma das casas da “Calle Real” (daí o nome da rua) quando foi em peregrinação a Compostela.
Para ver a parte antiga de Rabanal del Camino é preciso sair da LE-142, porque a rodovia contorna o povoado pelo sul, em cota mais baixa. O primeiro caminho leva direto à Calle Real.

Coroamos o Monte Irago na Cruz de Ferro e começamos a descida a Manjarín
Na saída de Rabanal del Camino, paisagem e perfil mudam: a primeira fica mais verde e o segundo mais íngreme. Ainda assim, a subida não é muito dura — a não ser que esteja ventando forte ou chovendo.
A trilha pedonal vai da direita à esquerda da rodovia, em cotas diferentes. O melhor aqui é usar o acostamento direito da LE-142, porque a trilha pode ficar bem estreita e o piso não é dos melhores.
Para entrar em Foncebadón, a gente precisa virar à esquerda por uma trilha de saibro que aparece depois da placa de boas-vindas; caso contrário, dá para contornar o povoado pelo norte. O caminho de saída que reconecta com a rodovia não é recomendável, mesmo que seja possível pedalar por ele.

Ainda hoje, quando visitamos Foncebadón, dá para perceber como este núcleo urbano está tentando renascer das cinzas, como uma verdadeira fênix. O povoado surgiu no século XI, quando um eremita chamado Gaucelmo se instalou ali e construiu um hospital de peregrinos e uma igreja. A região era perigosa, pelo clima duro e pela insegurança da estrada. Em troca da ajuda que oferecia aos caminhantes, Afonso VI lhe concedeu a posse dessas terras. Com o passar dos séculos, o núcleo cresceu graças ao comércio dos tropeiros e ao fluxo jacobeu, mas com a industrialização e o declínio das peregrinações ficou muito difícil continuar vivendo em um lugar como Foncebadón. Por isso, nos anos 60 todo mundo saiu e a vila ficou desabitada.
Os peregrinos que fizeram o Caminho nos anos 70 e 80 contam que não era um lugar agradável para pernoitar, porque havia cães abrigados nas casas ainda de pé que atacavam os peregrinos para tomar a comida. Agora dá para entender bem por que os peregrinos medievais levavam o cajado como ferramenta inseparável! Hoje, com o renascimento do Caminho Francês, há casas restauradas e Foncebadón volta a ter vida oferecendo serviços para peregrinos, tornando-se mais acolhedora a cada ano.
Deixando Foncebadón para trás, subimos pela LE-142 por 2 km com inclinação média de 4% até chegar à Cruz de Ferro, um dos marcos mais emblemáticos do Caminho Francês, no alto do Monte Irago. Dali se descortinam vistas impressionantes do entorno.
Diz-se que a Cruz de Ferro foi colocada ali no século XI por Gaucelmo, o eremita de Foncebadón, que a fixou sobre um grande mastro de madeira para que fosse vista de longe e guiasse os peregrinos na última parte da subida aos Montes de León. Hoje, a cruz original está no Museo de los Caminos de Astorga, sediado no Palácio Gaudí, do qual falamos na etapa anterior. A que vemos hoje no alto é uma cópia exata, sobre um mastro de 5 m cercado por milhares de pedras que os peregrinos trazem de todos os cantos do mundo desde o início do Caminho só para deixá-las ali.

Na verdade, a Cruz de Ferro é um cruzeiro — cruceiro, em galego: um monumento que vamos ver em cada percurso a partir da entrada na Galícia. A tradição de erguer cruceiros tem raízes celtas — acreditava-se que as almas dos mortos vagavam pelos caminhos e, por isso, as famílias deixavam oferendas para eles ali. Muitas vezes as oferendas eram pedras; os lugares onde se acumulavam muitas eram chamados milladoiros. Com a conquista romana essa tradição sobreviveu — na Galícia e nas Astúrias aparecem muitos miliários com inscrições aos Lares Viales (deuses dos caminhos, como Mercúrio). Quando o cristianismo se tornou oficial, esses ritos dos cruzamentos continuaram e, para tirar a conotação pagã, foram erguidas cruzes latinas nos mesmos pontos.
A Cruz de Ferro pode ser considerada, então, um cruceiro com um enorme milladoiro ao redor — e, por causa das pedras acumuladas, é também uma prova de como os caminhos jacobeus podem ser concorridos. A força transmitida pela imagem de tantas pedras e esperanças deixadas ali ao longo dos séculos faz deste marco um lugar muito especial.
Depois da Cruz de Ferro, a gente prefere continuar pela rodovia, em leve descida, até Manjarín. No passado ali existia um povoado com hospital de peregrinos, mas hoje só restam as fundações das casas, visíveis dos dois lados da estrada.
Em pé segue apenas um dos albergues mais inconfundíveis do Caminho: a Encomienda Templaria de Manjarín, tocada por Tomás Rodríguez. Sentindo-se parte da tradição templária, ele está instalado ali há anos, oferecendo apoio em troca de um leite com biscoito e água. Até poucos anos atrás o lugar não tinha luz nem água encanada, mesmo depois da instalação de dois painéis solares.

Mergulhamos em El Bierzo, um paraíso natural, até descer a Molinaseca
Depois de Manjarín começa uma das descidas mais duras do Caminho, que a gente precisa fazer pela rodovia. Estamos oficialmente em El Bierzo, e as vistas impressionantes do entorno nos acompanham durante toda a jornada. Quem imaginaria que, apenas 30 km atrás, a gente cruzava as estepes e páramos de León!
A chegada a El Acebo de San Miguel é especialmente íngreme. Este pequeno povoado, com um charme enorme, é o primeiro que vamos visitar.
El Acebo fica na encosta da montanha, com a rodovia como rua principal. Pequenas casas de pedra com telhado escuro oferecem vistas espetaculares e nos recebem com piscinas, bares e restaurantes.
Na saída de El Acebo há um monumento de ferro no formato de uma bicicleta unida a um cajado. É uma homenagem a Heinrich Krause, um peregrino alemão que, em 1988, caiu de um penhasco com a sua bicicleta exatamente neste ponto quando seguia para Santiago pelas trilhas jacobeias tradicionais.
Os caminhantes acompanham pelo acostamento esquerdo da estrada até que o caminho pedonal cruza a LE-142, primeiro pela direita e depois pela esquerda. Deixamos as setas para trás e seguimos pelo asfalto até chegar a Riego de Ambrós. A rodovia contorna o povoado pelo norte e em cota mais alta.
Em Riego de Ambrós dá para visitar a capela de San Sebastián, com a sua fonte ao lado, e a paróquia de Santa María Magdalena, que tem um belo retábulo do século XVIII. Os peregrinos a pé saem do povoado por um caminho de pedras e lascas de ardósia. Esse trecho é impraticável para ciclistas, então, se você entrar em Riego de Ambrós, o melhor é voltar à LE-142 para seguir pela rodovia habitual.

Depois de 5 km descendo chegamos a Molinaseca, cujo monumento mais famoso é a Ponte de Pedra sobre o rio Meruelo. Muitos caminhantes, depois da descida pesada das montanhas do Bierzo, encontram nessa água refrescante o alívio de que os pés cansados precisavam.
Logo depois da entrada de Molinaseca, à beira da estrada, vemos a capela de Nuestra Señora de las Angustias. Conta-se que já havia uma capela ali no século XI, embora o que vemos hoje tenha sido construído entre os séculos XVI e XX. A sua cabeceira se apoia tão bem na montanha que, de fato, faz parte dela. A espadana alta no centro da fachada oeste precisou ser construída em 1931 como contrapeso, porque a força da montanha podia destruir o templo.
Seguindo pela estrada chegamos à Ponte de Pedra, conhecida como “Puente de los Peregrinos”. Acredita-se que a origem seja romana, embora isso não esteja comprovado. Há fontes medievais que registram a sua existência desde o século XII. Hoje ela tem sete arcos de épocas e estilos diferentes, fruto de várias ampliações.
Uma vez do outro lado da ponte, a gente se joga na vida da Calle Real de Molinaseca, onde estão todos os serviços que você pode precisar. As ruas desembocam de novo na LE-142. Estamos quase chegando em Ponferrada, mas, para quem prefere parar em povoados pequenos e curtir a paz do campo, Molinaseca pode ser uma ótima opção.

Últimos quilômetros até Ponferrada
Saindo de Molinaseca seguimos pela LE-142, com perfil muito mais simples, quase plano. Em 5 km cruzamos a ponte sobre o rio Boeza e, logo depois, as setas jacobeias indicam um desvio à esquerda para pegar um caminho que desemboca na avenida del Castillo, já no centro urbano de Ponferrada. A mesma avenida também é alcançada seguindo direto pela rodovia sem fazer o desvio — é questão de gosto (a estrada está perfeitamente adequada para ciclistas).
Continuando pela avenida del Castillo chegamos à ponte sobre o rio Sil e, à direita, surge diante da gente o monumental Castillo Templario de Ponferrada.
Se cruzarmos a ponte, entramos na parte mais moderna da cidade; se ficarmos deste lado, dá para contemplar o castelo e a Plaza del Ayuntamiento.
Bem-vindo(a) a Ponferrada!

Ponferrada é uma cidade dividida em duas pelo majestoso rio Sil
Na margem leste fica a zona monumental, com a maior parte do patrimônio medieval da cidade e os diferentes museus. Na margem oeste está a parte mais moderna, organizada como área de expansão urbana, onde ficam o setor industrial, hotéis e escritórios.
O tamanho e o caráter monumental dos pontos de interesse transformam a capital de El Bierzo num fim perfeito para a etapa. Propomos um passeio a pé de 12 minutos, em menos de 1 km, em que você vai encontrar todas as pistas para conhecer este enclave e entender como chegou ao que é hoje. Aqui você pode ver o mapa do passeio.
Mal podemos esperar para você curtir a capital do Bierzo, uma região natural à beira do rio Sil, onde tudo o que está ligado à sua denominação de origem é sinônimo de qualidade e bom ofício.
Quer conhecer melhor Ponferrada?

Tudo começou com a “pons-ferrata“, uma ponte de ferro para peregrinos jacobeus.
Ainda que existam indícios de que houve algum tipo de assentamento às margens do Sil nos Tempos do Ferro e no período romano, não há documento nem fonte que confirme isso.
Há, porém, documentos que mostram claramente como, em 1082, o bispo de Astorga mandou construir uma ponte sobre o rio Sil para facilitar a travessia dos peregrinos. Na ponte foram colocadas correntes de ferro que impediam a passagem de quem não pagasse o pedágio; daí o nome “pons-ferrata” (ponte de ferro). Outros pesquisadores acreditam que o nome vem, na verdade, do reforço de ferro colocado na estrutura. Na margem oeste, depois de atravessar a ponte, formou-se no século seguinte um pequeno povoado ao redor de uma igreja dedicada a San Pedro.
A outra margem do rio ficou desabitada até que Fernando II, na segunda metade do século XII, construiu uma pequena fortaleza sobre um promontório, junto à margem do Sil. Nos seus arredores começou a crescer outro povoado e, em 1178, o rei entregou essa parte do território à Ordem do Templo.
Como já contamos, as travessias pelos montes de León eram uma parte perigosa do Caminho, pelo clima duro, pelo relevo variado e pelos muitos ladrões escondidos na vegetação fechada. Os templários, responsáveis por proteger os peregrinos, ampliaram a fortaleza para ter controle total da área. Em 1211, o sucessor de Fernando II, Afonso IX, cedeu a cidade ao Mestre da Ordem do Templo em Ponferrada, que passou a deter o poder completo.
Como tudo o que envolve os templários, o mandato deles em pons-ferrata está cheio de lendas milagrosas e feitos impossíveis. Atribuem a eles, por exemplo, a descoberta da escultura da Virgen del Bierzo (a “morenica”) no tronco de um carvalho.
Nos séculos seguintes foram erguidas muralhas ao redor da cidade e os templários construíram um poder importante naquela região. Mas, como já vimos nas etapas anteriores, a supremacia templária acabou em desgraça. Vistos pela monarquia e pela Igreja de Roma como uma ameaça à autoridade, uma enrascada entre reis e papas terminou com a abolição da Ordem do Templo em 1312, a golpes de assassinatos e expropriações.
Com os cavaleiros templários fora de cena, os maiores beneficiados em Ponferrada foram as grandes famílias aristocráticas da região: Castela e Galícia. Na área de León, os Osorio, que, como vimos na etapa anterior, detinham o poder de Astorga, assumiram por um curto período o controle da fortaleza de Ponferrada. Na Galícia, a família dos Condes de Lemos, instalada em Monforte, também controlou o castelo em algumas fases dos séculos XV e XVI.
As várias disputas de poder entre o Conde de Lemos e o seu filho, no início do século XVI, acabaram numa grande batalha dentro do castelo. Os Reis Católicos aproveitaram a instabilidade e declararam a fortaleza como propriedade real. Colocaram um corregedor em Ponferrada para governar em nome deles, e assim a cidade se manteve organizada até o século XIX, quando cresceu muito dentro e fora das muralhas.
Já no século XX, a cidade se transformou completamente graças à chegada da industrialização. As minas próximas de carvão e ferro foram exploradas com maquinário pesado e, em 1949, foi inaugurada uma usina térmica.
Atualmente, cerca de 64 mil pessoas vivem em Ponferrada, que todos os dias recebe — como já faz há séculos — peregrinos que cruzam o Sil para seguir o Caminho a Compostela.
Agora que você conhece a história de Ponferrada… quer descobrir os seus monumentos mais importantes?

Começamos pelo centro nevrálgico: o Castelo Templário
Como resultado das várias ampliações históricas, o castelo que dá para visitar hoje em Ponferrada ocupa uma área equivalente a oito campos de futebol. Dá para passar um bom tempo lá dentro! Além do tamanho, o que mais impressiona é o excepcional estado de conservação.
Explicamos como chegar, porque é impossível passar por Ponferrada sem visitá-lo. São mais de 8.000 m², com muralhas defensivas duplas e triplas, torres de diferentes formatos, barbacãs e muralhas gigantes, tudo em volta de um enorme pátio interno.
Na verdade, o castelo é a união de dois grandes projetos. O primeiro castelo tem base na construção templária do século XIII, apoiada no que Fernando II já havia levantado antes. Quando a Ordem do Templo foi abolida, Osorio construiu o chamado “Castillo Viejo” (Castelo Velho) em uma parte disponível; depois, o Conde de Lemos ampliou o conjunto e criou uma fortaleza-palácio chamada “Castillo Nuevo” (Castelo Novo). A parte norte, portanto, é a única que sobrou das construções originais do século XII.
Todo o conjunto poligonal do castelo estava cercado por um fosso, exceto no lado voltado para o rio. Depois de passar pela porta principal, de alvenaria e ladeada por duas grandes torres fortificadas, entramos no pátio e, dali, dá para admirar a enorme Torre de Homenagem, estrutura principal do castelo.

A partir da segunda metade do século XIX, o monumento se deteriorou — chegaram a usar pedras dele para construir outros imóveis e o pátio virou área de pastagem. Em 1924, foi declarado Monumento Histórico-Artístico Nacional e, desde então, está especialmente protegido. Começou aí um processo de restauração que terminou com a transformação do edifício em museu. Para horários, preços e informações atualizadas, veja a ficha da Wikipédia sobre o Castelo de Ponferrada.
Fazemos um tour pelos museus e conhecemos a padroeira do Bierzo
Em frente à entrada do castelo de Ponferrada fica a igreja de San Andrés. É relativamente nova (séc. XVII) e guarda, lá dentro, uma imagem de Cristo que antes ficava em uma das capelas do castelo — daí o nome Cristo de la Fortaleza. Tem uma única nave e, na cabeceira, um retábulo barroco com seis nichos de figuras, além da imagem do Cristo.
Seguindo pela rua pedonal Gil y Carrasco, que contorna o castelo, à nossa esquerda vemos o posto de turismo de Ponferrada e, à direita, o Museu da Rádio. A presença de um museu temático tão específico aqui se explica porque a cidade é o berço de Luis del Olmo, um dos locutores de maior carreira da Espanha, que apresentou o programa mais longevo da história do rádio espanhol — Protagonistas, com mais de 12.000 emissões. Neste antigo edifício do século XVII, conhecido como “Casa de los Escudos”, a coleção de receptores dele é exposta junto a uma retrospectiva dos usos e modas do rádio ao longo da história. Para horários e preços, veja o site do museu.

Continuamos subindo pela rua Gil y Carrasco, que começa em frente à fachada do museu. Entramos então na praça de la Virgen de la Encina, onde fica a igreja de mesmo nome.
A Virgen de la Encina é a padroeira da região de El Bierzo desde 1908. Há várias lendas sobre como a imagem foi encontrada; a maioria remete aos templários. Uma delas diz que a imagem da Virgem foi trazida por San Toribio no século V, quando ele foi em peregrinação a Jerusalém (contamos a história dele na etapa anterior). Quando virou bispo de Astorga, guardou a imagem na cidade; no século IX, diante da ameaça muçulmana, o bispo da época a tirou dali e escondeu no tronco de um carvalho em alguma floresta. Seis séculos depois, os templários decidiram ampliar o castelo e precisavam de muita madeira. Em 8 de setembro, dia da Virgem, saíram à procura e, ao cortar o tronco de uma azinheira, a imagem apareceu inteira diante deles, sem nenhum arranhão.
A imagem da Virgem é exposta na cabeceira da basílica, num nicho diante do retábulo-mor. A escultura que vemos é do século XVI, o mesmo século em que o templo foi construído. Antes havia uma igreja do fim do século XII, mas, por ser pequena, decidiram demoli-la para erguer esta nova. A construção foi conturbada — precisou parar várias vezes por epidemias e problemas administrativos — e levou quase dois séculos para terminar, por isso o conjunto, ainda que harmônico, traz influências do gótico tardio, do renascimento inicial, do classicismo e até um toque de barroco galego.

Subimos a rua del Reloj e paramos no Museo del Bierzo e na Torre del Reloj
Saímos da plaza de la Virgen de la Encina pelo norte e entramos na rua del Reloj. Quase no final dela, antes da Plaza del Ayuntamiento, à direita fica o Museo del Bierzo.
Mesmo tendo sido projetado em 1966, a obra só começou em 1984 e foi concluída 12 anos depois. O edifício em que fica abrigava, no século XVI, a casa do corregedor da cidade, autoridade nomeada pelo rei. O principal objetivo do museu é expor a história de Ponferrada e, em termos mais amplos, a história da região de El Bierzo. Há peças desde o período paleolítico até o século XX. À tarde, abre só das 16h às 18h; então, se você não tiver tempo à tarde, pode entrar no dia seguinte a partir das 10h da manhã.
Depois do museu, passamos sob um arco sobre o qual se ergue a Torre del Reloj. Esse arco é a única porta que sobrou das muralhas medievais que cercavam Ponferrada. Sobre ele foram erguidos, a partir do século XVI, dois corpos: o primeiro com o escudo de Filipe II e, em cima, o corpo com o relógio na parte superior. O terceiro corpo, com um sino, é do século seguinte.

No Museo del Bierzo fica guardado o mecanismo original do relógio, do século XVI. Infelizmente, não dá para subir na torre — de onde, imaginamos, as vistas devem ser fantásticas.
Depois de atravessar a antiga porta da muralha medieval chegamos à Plaza del Ayuntamiento. Ali mesmo, ou nas ruas em volta, dá para encontrar muitos restaurantes onde provar o melhor da gastronomia do Bierzo: pimentões assados, vinho, castanhas, cerejas e por aí vai. Como prato principal, não dá para perder o botillo, um embutido de porco temperado, recheado e defumado, servido cozido com batata, legumes ou hortaliças. Uma delícia perfeita para repor a energia!
Se você não estiver com tanta fome e preferir caminhar mais um pouco, na Tournride sugerimos descer ao bairro da ponte para um passeio pela margem do rio Sil. Para chegar lá, saia da Plaza del Ayuntamiento pela rua Sta. Beatriz de Silva e desça pela rua la Calzada. Chega-se direto à ponte, local onde se supõe que ficava a pons-ferrata que deu nome à cidade. Depois de cruzá-la, aparece a Plaza de San Pedro, onde ficava a igreja do primeiro assentamento medieval da área, alguns séculos atrás.
Recomendamos voltar pela margem leste do rio Sil, cruzando a ponte del Castillo, para terminar no ponto de partida do passeio.
Amanhã a gente vai dar um passo importante na peregrinação… entraremos na Galícia! Estamos cada vez mais perto do fim. Na Tournride, esperamos que você aproveite ao máximo a experiência — e vamos continuar guiando você no seu Caminho Francês de bicicleta.
Bom caminho, peregrinos!