Etapa 7: De Burgos a Carrión de los Condes de bicicleta
Xavier Rodríguez PrietoDados técnicos da etapa
- Distância até Santiago: 487 km
- Distância da etapa: 86 km
- Tempo estimado: 6 horas – 6 horas e meia
- Altitude mínima: 773 m
- Altitude máxima: 930 m
- Dificuldade: Média
- Lugares de interesse: Castrojeriz, Frómista, Villalcázar de Sirga, Carrión de los Condes
- Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui

De Burgos a Carrión de los Condes de bicicleta é a sétima etapa do Caminho Francês. Depois da primeira etapa, da segunda etapa, da terceira, da quarta, da quinta e da sexta etapa, atravessamos o resto da campina de Burgos e entramos em Palencia, na chamada “Tierra de Campos”. Seu corpo e sua cabeça vão ter que se acostumar a pedalar por uma paisagem muito mais homogênea que a da etapa anterior, em que o relevo, profundamente aplainado, só é quebrado por colinas que se erguem como estátuas no horizonte e que, em alguns casos, vamos ter que cruzar.
Há quem desdenhe dessa parte do Caminho Francês e queira cruzá-la o mais rápido possível, dizendo que é monótona e sem graça. É verdade que é uma parte dura — especialmente no verão —, mas também é essencial para quem peregrina: a imagem destes campos é uma das mais reconhecíveis do Caminho. Por quilômetros nossos olhos vão acompanhar essa estampa, um traçado em linha reta ladeado por campos dourados em que às vezes se erguem carvalhos estoicos. Muito provavelmente essa imagem vai ficar gravada na sua retina e será fonte de paz e tranquilidade no futuro, lembrando a serenidade da peregrinação e a grande oportunidade que ela oferece para você se voltar para dentro de si mesmo.
Vamos esquecer por um instante o mundo em que predominam a pressa, a inovação e a mudança permanente. Ao contrário, deixe que a harmonia e a quietude da paisagem favoreçam sua introspecção. A peregrinação nos dá tempo para pensar e não simplificar o que é complexo — então lembre-se de Machado, Unamuno ou Fernán González e descubra em Castela um mundo cheio de nuances, paisagens ricas e humanidade.
PERFIL GERAL DA ETAPA E ROTA
Esta etapa de Burgos a Carrión de los Condes corre na maior parte por trilhas de terra firme entre campos e, no final, por estradas comarcais asfaltadas. Em geral o perfil é bem plano e os desníveis são vencidos em distâncias longas, então as descidas são suaves e agradáveis. As subidas não chegam a ser duras.
Só em três pontos podemos ter um pouco mais de complicação com o perfil:
- Na chegada a Hornillos e a Hontanas há duas rampas de descida até o povoado que chamam a atenção, mas que também não têm muita dificuldade técnica. É preciso levar em conta que, especialmente em Hontanas, o desnível é tal que você não vê o povoado até quase ter chegado — o que deixa o trecho psicologicamente duro, porque parece que você pedala e não avança.
- O Alto de Mostelares é outro ponto de complicação, logo na saída de Castrojeriz. Aqui temos que vencer 140 m de subida em pouco mais de 1 km, com uma inclinação média relativa de 11%. A descida também é vertiginosa, em terreno firme com pedras soltas.

Na verdade, as maiores dificuldades dessa etapa são a quilometragem e, sobretudo se você viaja no verão, as longas distâncias sem sombra entre os povoados e serviços. É verdade que é mais longa que as anteriores, mas o terreno plano também ajuda a ganhar velocidade e o piso é favorável.
Para sair de Burgos você tem que atravessar o campus universitário de San Amaro e, depois de cruzar a ponte sobre o Arlanzón, pode usar a ciclovia até a N-120, que vira à esquerda, e o sinal manda cruzar a faixa de pedestres para a rua Benito Pérez Galdós. Nesse ponto temos duas opções: atravessar e seguir pelo caminho original ou pular esse trecho e ir pela N-120 até Tardajos.
Se formos pelo traçado tradicional, pegamos a rua Benito Pérez Galdós. Viramos para uma estrada de terra até chegar ao termo municipal de Villalbilla de Burgos, onde cruzamos primeiro a linha férrea, depois a BU600 por um viaduto superior e em seguida a A-231. Depois a estrada segue paralela à N-120 até Tardajos.
Em Tardajos já perdemos a N-120 e não vamos encontrá-la de novo até Carrión de los Condes. Por isso, para visitar os povoados dessa etapa é preciso ir pelo traçado tradicional. Na maior parte do tempo o piso vai ser de terra, embora em alguns trechos o Caminho de Santiago coincida com pistas asfaltadas ou estradas comarcais.
Tardajos e Rabé de las Calzadas se ligam por uma pista asfaltada de 1,5 km. Depois de atravessar o povoado, é preciso fazer 8 km até Hornillos del Camino por uma trilha entre campos. Começa com uma subida suave mas permanente de 4 km até chegar a uma altitude (917 m) da qual descemos confortavelmente até Hornillos.

Na chegada, faltam 11 km até Hontanas por outra trilha em que o único lugar com serviços é o albergue de San Bol, num desvio à esquerda aos 6 km. Nesse trecho alcançamos o ponto mais alto da etapa (930 m).
A trilha termina em uma rampa de 200 m, em que se descem 50 m de desnível até o centro do povoado de Hontanas (quilômetro 31 da etapa).

De Hontanas são uns 10 km até Castrojeriz. Os primeiros 5 km exigem mais dificuldade técnica, já que a trilha fica na encosta de uma colina e tem pedras soltas. Depois, o Caminho de Santiago nesse trecho coincide com uma estrada comarcal que passa pelas ruínas do Mosteiro de San Antón e termina em Castrojeriz. Pela dificuldade do primeiro trecho, na Tournride recomendamos — especialmente em épocas de muito fluxo de peregrinos — ir pela estrada comarcal a partir de Hontanas, saindo direto do povoado.
Depois de atravessar Castrojeriz seguimos na direção de Itero de la Vega, separados por 11 km. No meio fica o já citado Alto de Mostelares, em que recomendamos compensar a dureza da subida com o desfrute das belas vistas e extrema precaução na descida.

Antes de chegar a Itero de la Vega cruzamos o rio Pisuerga por uma grande ponte de pedra que marca a fronteira entre Burgos e Palencia. O traçado original vira imediatamente à direita, por uma pista de terra, para ir a Itero e dali a Boadilla del Camino; mas, se preferir, você pode seguir em frente pela estrada P-432 até Boadilla (1 km a menos que pela trilha).
Se for pelo caminho tradicional a partir de Itero de la Vega, vai pedalar 8 km entre campos até Boadilla del Camino (quilômetro 60 da etapa): a primeira metade em leve subida e a segunda em descida suave.

De Boadilla del Camino são só 5 km até Frómista, com perfil plano e por uma trilha que segue a margem sul do Canal de Castilla. Atravessamos o canal por uma comporta manual do século XVIII pouco antes de entrar no povoado e chegamos ao centro.

A estrada entre Frómista e Carrión de los Condes corre permanentemente paralela à P-980, na forma de trilha de cascalho, então podemos escolher entre ela ou a estrada. São 20 km em que a cada 3,5 ou 6 km há um povoado: Población de Campos, Revenga de Campos, Villarmentero de Campos e Villalcázar de Sirga. O perfil é levemente ascendente nos primeiros 17 km e em descida suave no final, embora quase não se perceba.
Em Población de Campos, antes de cruzar a ponte sobre o rio Ucieza, há um desvio sinalizado que marca um caminho alternativo até Villarmentero. Segue pela margem norte do rio. Se você não quer ir pela P-980 porque prefere as trilhas, essa pode ser uma boa opção. É mais tranquila e tem menos peregrinos a pé.

Em geral, a etapa 7 de Burgos a Carrión de los Condes é longa e caracteriza-se por trilhas entre campos de cereal, unindo povoados separados por distâncias de entre 5 e 11 km. A exceção é a parte final, entre Frómista e Carrión de los Condes, mais povoada e por estrada comarcal. O perfil da etapa do Caminho de Santiago de bicicleta não tem complicações, exceto na subida e descida do Alto de Mostelares, onde é preciso ter extrema precaução.
DICAS PRÁTICAS
- Burgos é o centro de um bom número de vias de comunicação, então se você começar o seu Caminho aqui não vai ter nenhum problema para chegar. Opções:
- Ônibus: a estação fica aqui e todos os dias há conexões com as principais cidades da Península. Algumas das empresas com rotas diretas para a cidade são Alsa e Autobuses Jiménez.
- Trem: a estação fica aqui e se conecta direta ou indiretamente com as principais cidades espanholas. Para mais informações, consulte o site da Renfe.
- Carro: Burgos tem ótima conexão com todas as capitais vizinhas e, a partir daí, com o resto da Península. Se nenhum conhecido puder te levar, sempre dá para usar plataformas como Blablacar.
Embora haja um aeroporto em Burgos — na verdade, o Caminho de Santiago passa ao lado dele na entrada da cidade, como vimos na etapa anterior —, hoje ele não opera voos comerciais.
Lembre que na Tournride deixamos as bicicletas para o Caminho de Santiago no seu alojamento em Burgos se você começar por aí e podemos levar sua bagagem extra para que ela te espere no fim do Caminho.
- Fique sempre atento às distâncias entre os povoados, especialmente no verão. Onze quilômetros podem ser muito longos se você não conseguir água ou comida suficiente.
- Evite pedalar no verão nas horas centrais do dia, já que há quilômetros sem sombra para se proteger do sol. Use sempre óculos, boné e protetor solar.
ITINERÁRIO DETALHADO E PATRIMÔNIO HISTÓRICO-ARTÍSTICO
Nessa etapa vamos entrar por completo nos campos de Castela. Sua cor dourada vai tingir o caminho entre as visitas a povoados que, muitas vezes, guardam um patrimônio que nos surpreende. Vamos descobrir povoados pequenos e acolhedores como Castrojeriz, Frómista e Carrión de los Condes, que culturalmente têm muito a oferecer.
Além dessas paradas, vamos encontrar no caminho lugares tão impressionantes quanto as ruínas do convento de San Antón ou as vistas oferecidas pelo Alto de Mostelares.

SAÍMOS DE BURGOS E ATRAVESSAMOS OS CAMPOS ATÉ “CAIR” EM HONTANAS
Na Tournride sabemos que a saída das grandes cidades pode ser um pouco confusa para o peregrino de bicicleta, já que às vezes as placas ficam meio escondidas. No mapa do itinerário você tem o percurso marcado, mas aqui vamos detalhar melhor.
Tomando como ponto de partida o albergue municipal, você tem que seguir a rua Fernán González deixando a catedral à sua esquerda. Chegamos ao Arco de San Martín. Esse arco tem forma de ferradura e foi feito com tijolo, porque foi construído no século XIV por arquitetos mudéjares — ou seja, cristãos que viviam em território muçulmano.

Ao cruzar o Arco de San Martín, as flechas indicam descer por uma escada à esquerda, mas para nós é muito melhor seguir reto e virar 60 m depois, evitando a escada. Pegue a rua Emperador, que vira à esquerda para a rua Villalón e nos leva a cruzar o Arlanzón. A ponte de pedra que permite atravessar o rio é chamada “de malatos” (enfermos), porque no passado havia ali um hospital para leprosos.
Depois de atravessá-la entramos no parque do Parral e no campus da universidade. Embora as flechas indiquem o caminho central do parque, para nós é muito mais confortável ir pela ciclovia que corre paralela à N-120. Podemos segui-la por 1,5 km, cruzando três rotatórias em linha reta.
Quando a N-120 vira à esquerda, nos indicam cruzar a faixa de pedestres à direita para seguir pela rua Benito Pérez Galdós. Mesmo que não seja seguir a rota tradicional, saiba que a N-120 te leva direto até Tardajos, o primeiro povoado da etapa. A distância a percorrer é a mesma (7,5 km), mas sem cruzamentos nem desvios.
Se preferir seguir pela rota original, vá pela rua Galdós até ela virar uma pista que alterna terra e asfalto e te leva a cruzar a linha férrea, a BU600 e a autovia. O trecho final coincide com a N-120 e te deixa em Tardajos.
Tardajos e Rabé de las Calzadas se ligam por uma pista asfaltada de apenas 1,5 km. Os dois lugares têm passado romano e, de fato, ficavam em um ponto estratégico em que convergiam diferentes estradas, entre elas a “Quinta Via”, que unia Clunia — no sul de Burgos — com Sahagún. Daí vem o nome de Rabé “de las Calzadas” (das Calçadas).
O rio Urbel corre na vertical entre os dois povoados e na Idade Média costumava transbordar constantemente. Isso deixava todo o trecho entre as duas localidades em más condições, o que afetava a comunicação e acabou virando o ditado: “De Rabé a Tardajos, no te faltarán trabajos; de Tardajos a Rabé, líbranos, Dómine” (“De Rabé a Tardajos, trabalhos não vão te faltar; de Tardajos a Rabé, livra-nos, Senhor”). Não se preocupe: hoje em dia o caminho é muito mais fácil!
Rabé de las Calzadas chegou a ter maior esplendor que Tardajos na Idade Média, ainda que Tardajos também tivesse um hospital para peregrinos. Do castelo e das três igrejas que havia lá hoje resta muito pouco, e o lugar mais notável é o palácio de Villariezo, que se vê na entrada do povoado, do século XVII.

De Rabé a Hornillos são 8 km que temos que fazer por uma trilha de terra entre campos. A primeira metade é em subida permanente e, ao chegar no alto, vamos ver uma rampa de descida até Hornillos, que fica num vale. Para os peregrinos a pé a descida é dura, já que carregar peso se torna longo — este trecho é chamado “Matamulos” —, mas de bicicleta esse trecho do Caminho de Santiago não tem dificuldade.

Chegamos aos nossos 21 quilômetros de etapa, Hornillos del Camino, com um urbanismo jacobeu prototípico. Sua rua principal coincide com o Caminho Francês e corre exatamente de leste a oeste. Hoje o povoado tem todos os serviços e, como é comum nesse tipo de localidade, sua igreja se destaca em altura e tamanho entre as pequenas casas de dois andares. Antigamente havia ali um hospital para peregrinos, fundado no século XII pelo rei. Depois o monarca cedeu o povoado inteiro a um mosteiro beneditino francês.
Saindo de Hornillos temos que pedalar por 11 km em uma trilha entre campos, em leve rampa de subida nos primeiros 4 km e depois praticamente plana ao chegar ao vale de San Bol. Aos 6 km, há um desvio sinalizado à esquerda para o abrigo e albergue de San Bol. Dada a aridez deste páramo, é um ponto importante para os peregrinos a pé, que muitas vezes saem de Burgos e já chegam exaustos aqui, precisando de um lugar para se abrigar.
Hontanas fica num nível mais baixo, então de longe você não consegue ver no horizonte. Quando chegamos, uma rampa de 200 metros nos deixa no centro do povoado. A toponímia da localidade vem das antigas fontes (“fontanas“) que havia no lugar e que viravam um oásis de paz para os peregrinos medievais, depois de cruzar o páramo anterior sem sombra. Hoje tem todos os serviços que o caminhante moderno possa precisar.

Antes de descer ao povoado, à nossa direita vamos ver uma área de piquenique ao lado de uma pequena ermida. O lugar guarda uma imagem de Santa Brígida, uma sueca nascida numa família de alto berço no início do século XIV que tinha visões religiosas desde pequena e que peregrinou a Santiago de Compostela, além de outros destinos como a Terra Santa.
Já no povoado, vamos nos impressionar com a igreja que fica no centro, com uma torre que supera em altura todas as outras construções. O templo é dedicado à Imaculada Conceição e tem origem gótica (século XIV), embora tenha sido reabilitado depois no século XVIII, razão pela qual tem aparência neoclássica. Isso pode ser visto, por exemplo, no uso de elementos clássicos para decorar a torre: arcos semicirculares e frontões (remates triangulares).
PERCEBEMOS A MAGIA DO CONVENTO DE SAN ANTÓN E CHEGAMOS A CASTROJERIZ, O ÚLTIMO BURGALÊS
Na saída de Hontanas as flechas indicam cruzar a estrada para pegar uma trilha que segue pela encosta de uma colina e que em 4 km nos devolve à estrada. Como a trilha é estreita e não tem nenhum tipo de muro de segurança que evite a queda pela colina, recomendamos ignorar as flechas na saída de Hontanas e, em vez de cruzar a estrada, seguir diretamente por ela até Castrojeriz. Claro, com cautela, porque é uma estrada estreita e de duplo sentido que, no final, também precisamos compartilhar com os peregrinos a pé.
Seis quilômetros e meio depois de sair de Hontanas vamos ver as impressionantes ruínas do mosteiro de San Antón. Na Tournride recomendamos que você pare para entrar no mosteiro, porque é um daqueles lugares enigmáticos e espirituais do Caminho Francês.
A primeira coisa que chama atenção é que a própria estrada passa por baixo de um imponente pórtico formado por dois grandes arcos ogivais que emolduram o antigo portal norte da igreja. A portada em fluxo tem 6 arquivoltas cheias de esculturas, que surpreendem pelo bom estado de conservação. À direita, em frente à portada, há dois nichos na parede. Esses buracos eram, na verdade, armários, e os monges os usavam para deixar pão e vinho aos peregrinos, já que este lugar foi, desde a sua fundação, dedicado à atenção ao caminhante.

O convento foi fundado no século XII, embora o que vemos hoje seja gótico (século XIV), daí o uso do arco apontado. Na Península foi um centro muito importante da Ordem de San Antonio até que, no século XVIII, o rei Carlos III delegou sua gestão ao âmbito privado. Desde a desamortização de Mendizábal no século XIX, o lugar foi abandonado e começou seu declínio, embora a boa cantaria com que foi feito tenha evitado que ele desmoronasse por completo. Em 2002 começou um projeto de reabilitação para atenção a peregrinos e hoje é possível dormir lá, mantendo os mesmos princípios que os antoninos seguiam mil anos atrás: gratuidade e austeridade.
Se você contornar o prédio, pode entrar na igreja, hoje sem cobertura, pelo lado sul. Olhando a estrutura dá para identificar a organização que ela tinha em três naves. A parede da abside está bem preservada, com grandes contrafortes ligados às janelas.

Nessa igreja, além da atenção ao peregrino, era praticada uma das atividades que davam sentido à ordem antonina: a cura da doença “Ignis Sacer“. Esse mal também era conhecido como “fogo sagrado” e era uma doença muito difundida na Idade Média: provocava a perda de extremidades depois de dores fortíssimas. Hoje sabe-se que a doença era causada por um fungo que parasitava o centeio — daí ser tão comum, já que era um dos principais alimentos da população. Curiosamente, os monges antoninos foram capazes de descobrir a origem e a cura dessa doença séculos antes que a ciência conseguisse, usando trigo e plantas. Guardavam essa informação em segredo e, por isso, eram os únicos capazes de curá-la. Tanto que o Ignis Sacer passou a ser conhecido como “fogo de Santo Antônio” e, de fato, muitos doentes desse mal peregrinavam a Santiago só para passar por esse mosteiro e se curar.
Depois dessa visita continuamos pela estrada até Castrojeriz, que vamos ver de longe ocupando a parte baixa da encosta, no topo da qual há um velho castelo. Esse é um bom lugar para parar: está quase na metade da etapa (41 km), tem todos os serviços e é um dos lugares mais bonitos que vamos visitar hoje.

Esse povoado é, depois de Burgos, a segunda maior vila burgalesa no Caminho Francês e a última em que vamos estar nessa província. Historicamente teve muita importância e o topo da colina em que ele fica guarda restos arqueológicos que vão desde 1500 a.C. até romanos e visigodos — estes últimos já construíram ali um castelo.
De qualquer forma, quando realmente começou a ganhar importância foi depois da Repovoação. Depois de dois ataques árabes no século VIII e IX que destruíram as fortalezas cristãs dali, o lugar é reconquistado e se torna um ponto estratégico para controlar todo o território até o Douro. Por isso era vital repovoar a área.
Por esse motivo, a Castrojeriz foi concedido um dos foros mais importantes de Castela, que hoje é um documento sociológico interessantíssimo. Na etapa anterior vimos como em Burgos se deu um privilégio pelo qual a pessoa que rompesse a terra primeiro ficava com ela em propriedade — o que dava a categoria de camponês livre. Aqui os camponeses tiveram a oportunidade de virar uma espécie de “segunda nobreza”. Tudo o que tinham que fazer era conseguir um cavalo e ir com ele à guerra, tornando-se cavalheiros. Eram chamados “caballería villana” ou “infanzonía”, e isso significava acesso a uma série de privilégios legais e fiscais.

Em uma sociedade tão hierarquizada quanto a medieval, o fato de que esses privilégios fossem promulgados é um sinal da tensão que devem ter gerado séculos de luta entre cristãos e árabes. Também faz pensar no nível de violência socialmente estabelecido se qualquer camponês que pegasse um cavalo era considerado válido para combater.
Hoje, Castrojeriz é um povoado com muito a oferecer. A primeira coisa que encontramos ao chegar, antes da colina, é uma esplêndida igreja com uma grande rosácea em sua fachada ocidental.
Trata-se da antiga colegiada de Santa María del Manzano. Começou a ser construída no século XIII, românica, mas no XV seus telhados foram substituídos por outros góticos e no XVII o templo foi ampliado. Dentro, há um entalhe gótico da Virgem e a lenda diz que foi achado no tronco de uma grande macieira em Castrojeriz. Havia uma ermida que foi ampliada para se tornar o templo que vemos hoje, e a escultura virou famosa por fazer milagres. Foi tão conhecida que Alfonso X, “o Sábio”, narrou alguns deles em suas “cantigas” (poemas) dedicadas à Virgem.

As ruas em Castrojeriz são paralelas, na encosta da colina, e se ligam perpendicularmente por escadas. Por isso, recomendamos que os ciclistas sigam a grande via pedonal que passa pela maior parte dos prédios relevantes.
Primeiro você vai ver a igreja de Santo Domingo — o templo é gótico, embora não pareça, por sua torre plateresca do século XVI —, depois a longa e porticada Plaza Mayor e, ao final, a igreja de San Juan.

A igreja de San Juan merece uma parada para ver o interior. Esse templo foi desenhado por um dos arquitetos mais importantes do gótico castelhano do século XVI, Rodrigo Gil de Hontañón. Ele também participou, por exemplo, do desenho das catedrais de Salamanca, Segóvia e Plasencia. Se puder, recomendamos entrar na igreja para olhar as impressionantes abóbadas nervuradas que cobrem o espaço na mesma altura nas três naves. As colunas não têm capitel e dos seus fustes saem nervos que se estendem pelo teto como galhos de árvores em perfeita simetria. Uma obra de arte!

A BOADILLA DEL CAMINO: CRUZAMOS O ALTO DE MOSTELARES E ENTRAMOS EM PALENCIA
Com essa linda imagem deixamos Castrojeriz e, na saída, nos deparamos com a visão do Alto de Mostelares. Da saída do povoado até quase alcançar o rio Pisuerga, o piso é de terra, com pedras pequenas soltas em alguns momentos.

Depois de atravessar o rio Odrilla por uma ponte de madeira, começamos a subida. Em média a inclinação é de 12%, somada à ação do vento e ao calor intenso do sol. Intensa, mas curta.
Cruzamos a planície no alto e, quase imediatamente, começa a descida. Aconselhamos cautela, já que em pouco mais de 1,5 km baixam-se uns 115 m; ainda que seja facilitada porque parte dela foi pavimentada recentemente.
Seguimos pela trilha por 3 km, completamente cercados pela campina de Burgos. A trilha termina em uma estrada comarcal e, em cerca de 900 metros, vemos um desvio à nossa esquerda para pegar o caminho que leva à Ponte de Itero.
Antes de chegar à ponte vamos ver uma construção à nossa direita: é um dos albergues mais especiais do Caminho Francês. Trata-se da antiga ermida de San Nicolás de Puente Fitero, que ficou abandonada por mais de dois séculos até que um professor italiano resolveu promover sua reabilitação como albergue. Ali o jantar é comunitário e toda noite há um ritual de lavagem dos pés aos peregrinos que pernoitam. Essa tradição era comum entre monges na Idade Média. Um lugar místico e espiritual, que proporciona uma experiência inesquecível.
A ponte de Itero (ou Puente Fitero) é uma das mais longas do Caminho Francês e, sob seus 11 arcos, corre o Pisuerga, fronteira natural entre Burgos e Palencia. Foi construída no século XI e, no XVII, restaurada respeitando seu formato original, com cantaria de alta qualidade.
Depois de passar a ponte, o caminho vira à direita, rumo a Itero de la Vega. “Itero” vem do latim “petra ficta”, que evoluiu para “marco” ou “limite” (delimitador de estrada). Isso expressa sua posição de fronteira sobre a margem (“vega”) do Pisuerga — e, ao sair do povoado, vamos entrar plenamente em Palencia e em sua região natural chamada “Tierra de Campos”.

Essa região natural Palencia compartilha com Valladolid, Zamora e León. Juntas, produzem um volume de cereais tão alto que são chamadas de “Celeiro da Espanha”. Disso nós vamos dar boa conta, já que até León temos pela frente quilômetros de pedal por trilhas de terra entre hectares cobertos de cereal dourado.

Depois de cruzar 8 km chegamos a Boadilla (quilômetro 60 da etapa). Neste pequeno povoado vamos encontrar todos os serviços de que precisamos. No centro há uma espécie de coluna de pedra que é, na verdade, um rollo jurisdicional.
Essas colunas eram colocadas nos povoados para indicar a categoria administrativa que tinha a localidade e diferenciá-la do resto. Só podiam ser colocadas onde havia um prefeito com poder de condenar à morte. De fato, no rollo os condenados eram amarrados com correntes para serem expostos publicamente antes de serem julgados. Nesse caso, esse rollo é do século XVI e indica a independência do povoado de Castrojeriz.
O rollo jurisdicional de Boadilla del Camino se destaca pela altura e decoração, sendo um dos mais importantes da Espanha. Embora houvesse muitos, poucos foram conservados, porque a Constituição de Cádiz (1812) ordenou destruí-los. Essas colunas eram símbolos políticos e do poder judicial de um senhor em um território, e a nova lei aboliu esses poderes. Por isso, só restam rollos nos lugares que se recusaram a demoli-los.

Atrás do rollo vemos a igreja de Nuestra Señora de la Asunción. Embora a origem do templo seja românica, o que vemos hoje é dos séculos XV e XVI — desse segundo se destaca o altar-mor. Dos primórdios se conserva uma grande pia batismal, profusamente decorada.

O CANAL DE CASTILLA NOS LEVA A FRÓMISTA
Depois de sair de Boadilla del Camino pela rua principal, uma flecha indica virar à esquerda. Em pouco mais de 1 km chegamos à margem do Canal de Castilla, pela qual vamos pedalar 3,2 km em plano até uma comporta pela qual temos que atravessar o canal para entrar em Frómista.
Esse canal foi um dos projetos de engenharia mais importantes realizados na Espanha durante a Ilustração. Foi promovido por Fernando VI (1713-1759), um rei influenciado por essa corrente cultural e intelectual, e levado adiante em conjunto com seu ministro, o Marquês de la Ensenada. A ideia era escoar todo o excedente de cereal que se produzia em Castela, já que as comunicações dessa área com o resto da península eram precárias e se queria revitalizar a economia.

O objetivo era unir Segóvia com o mar Cantábrico em Santander, mas esse foi um sonho ilustrado. Apesar disso, foram feitos 207 km de canal em que barcaças com produtos eram puxadas por cavalos. Virou um motor muito importante para a economia castelhana, sua primeira mostra de industrialização; embora com o surgimento da ferrovia tenha perdido esse uso. Hoje dele se obtém energia hidráulica, é usado para irrigação e também tem uso recreativo (pesca, turismo, etc.).
A estrada vira um passeio agradável que, depois de cruzar a comporta que permitia poupar 14 metros de desnível, vai nos deixar em Frómista. Na comporta tem escadas, então você pode cruzar a ponte da estrada que fica um pouco adiante.
O “Caminho” atravessa Frómista pela parte baixa, então, se quiser visitar algum dos seus monumentos, vai ter que virar à direita ao chegar à sua grande avenida central (avenida Ingeniero Rivera).
Frómista é uma das localidades jacobeias mais conhecidas. Apesar de ter menos de 1000 habitantes, tem um grande patrimônio cultural, histórico e gastronômico. O lugar também é conhecido como “vila do milagre”, em referência a uma lenda de um homem que foi excomungado por não devolver um empréstimo a um judeu. Embora tivesse devolvido o dinheiro, quando anos depois morreu e tentou receber a extrema-unção, o padre não conseguiu, porque o cilindro metálico com o qual iria ungi-lo ficou grudado na patena. Até que o mal-entendido fosse esclarecido, ele não pôde receber o último sacramento.
Mas… o que Frómista oferece para visitar hoje? Primeiro, o monumento mais importante: a igreja de San Martín. A imagem do templo sempre vem à mente quando se fala do estilo românico, já que é um dos expoentes desse estilo. Está datada entre o fim do século XI e o começo do XII. No século XIX foi objeto de uma grande restauração.


Essa igreja transmite muita beleza pela simplicidade e limpeza de suas formas, que jogam com os volumes de maneira muito equilibrada. É de três naves com abside semicircular e abóbada de berço — a forma medieval mais comum —, mas surpreende por sua cúpula octogonal com lanterna e pelas duas torres circulares na fachada ocidental. O normal seria que as torres fossem quadrangulares, por isso ela lembra a arte carolíngia ou alemã.
Além disso, o templo de San Martín conserva uma grande quantidade de escultura decorativa, muito rica em detalhes. Em cada “canecillo” — nos beirais dos telhados — há uma pequena escultura, e as molduras externas marcam todas as alturas dos edifícios. Por dentro, a decoração dos capitéis surpreende.

Além da igreja de San Martín, em Frómista também fica o templo de San Pedro, no bairro de Tuy. Esse não é românico, mas gótico, o que se vê em suas abóbadas nervuradas. A portada é renascentista e parte do templo é ocupada pelo museu paroquial local.
Na mesma grande avenida do povoado está a escultura do padroeiro de Frómista: San Telmo. Esse santo nasceu aqui no século XII e percorreu Astúrias e Galícia pregando, especialmente para pescadores — por isso, nessa escultura em pleno planalto castelhano, ele é representado em um barco.
DE FRÓMISTA A VILLALCÁZAR DE SIRGA E OS ÚLTIMOS QUILÔMETROS ATÉ CARRIÓN
Na saída de Frómista temos que cruzar duas rotatórias na P-980 e depois as indicações são simples: continuar reto pela estrada até Carrión de los Condes. A trilha para os peregrinos a pé corre permanentemente paralela ao asfalto, com dois marcos entre eles a cada centenas de metros.
Ainda que a trilha seja bem larga, é mais confortável descermos pela estrada. São uns 20 km de perfil levemente ascendente, ainda que a sensação seja quase de ir plano.

Como na Tournride sabemos que, depois de todo o esforço já feito hoje, você já vai estar cansado, vamos dar algumas breves notas sobre coisas que podem ser interessantes caso queira parar.
A primeira localidade é, valendo a redundância, Población de Campos. Nela encontramos todos os serviços que possamos precisar. Embora no passado estivesse muito ligada à Ordem de São João, hoje o mais notável são suas duas ermidas e sua igreja paroquial dedicada a Santa Madalena.
Antes de cruzar o rio Ucieza por uma ponte, na saída de Población de Campos há um desvio marcado à direita. É uma rota alternativa que podemos pegar se quisermos ir entre campos até Villovieco. Lá cruzaremos o rio de novo para pegar a P-980. A distância é praticamente a mesma pelos dois caminhos.
Se formos pela P-980 em vez da rota alternativa, vamos passar por Revenga de Campos. Na torre da igreja deste povoado costumam se aninhar cegonhas, pássaro que em Castela encontra um dos seus melhores habitats da Península.
Vamos por onde formos, o caminho passa por Villarmentero de Campos. Destaca-se a igreja de San Martín de Tours. Embora não chame muita atenção por fora, tem um bonito teto mudéjar de madeira: os muçulmanos que viviam nesse território cristão criaram aqui uma bela cobertura de madeira.

Por fim, o caminho passa por Villalcázar de Sirga antes de chegar a Carrión de los Condes. Dos quatro povoados desse último trecho, Villalcázar de Sirga é o que tem um patrimônio mais notável, em grande parte porque abriga a igreja de Santa María la Blanca.
Assim que a vemos de longe, o templo surpreende pelo tamanho e pela robustez, enquanto, por dentro, encanta pela delicadeza. A igreja começou a ser construída no século XII e esteve intimamente ligada à Ordem dos Templários e à Coroa. Aliás, à Virgem Branca que ali se venera Alfonso X, o Sábio, dedicou doze de suas “cantigas”.
Quando a Ordem do Templo foi dissolvida em 1312, o templo foi cedido a uma família de alto berço. A dissolução dessa organização passou à história cheia de lendas, dada a brusquidão com que ocorreu. A verdade é que, desde seu nascimento em 1118, os templários haviam acumulado tanto poder que até Felipe IV, rei da França, lhes devia uma quantia imensa de dinheiro. Por isso, ele mandou prender alguns desses cavaleiros e matá-los depois de torturá-los, além de pressionar o Papa para dissolver a ordem, o que conseguiu em 1312.

Se puder entrar no interior da igreja, dê uma olhada no altar-mor e nos sepulcros polícromos cheios de relevos — você não vai se arrepender!

Depois desta última visita, pedalamos os últimos 7 km de etapa pela P-980 e entramos em Carrión de los Condes pela ponte dos Peregrinos. Agora é só curtir um descanso bem merecido!
UM PASSEIO VESPERTINO POR CARRIÓN DE LOS CONDES
Carrión de los Condes é um desses lugares que, embora não seja de grande tamanho nem concentre muitos habitantes — tem cerca de 2000 —, tem uma longa trajetória histórica esculpida em patrimônio monumental. Perdeu muitos dos seus monumentos durante a Guerra da Independência, mas ainda guarda um montão de tesouros que vale a pena descobrir.
Na Tournride queremos te animar a dar uma volta por essa localidade. O tamanho e a concentração de lugares para visitar permitem que, em apenas 30 minutos, você faça um panorama geral. Para facilitar a experiência, preparamos este mapa do itinerário e te damos algumas pequenas notas sobre o que ver em Carrión de los Condes.
Te animamos a caminhar, você não vai se arrepender!

Carrión de los Condes: de lendas de cavalos de Troia a cidade cultural moderna
Na Tournride achamos que, para apreciar o que visitamos hoje, é preciso entender como tudo isso se formou. Por isso, começamos este passeio com algumas pinceladas sobre onde está Carrión de los Condes e como foi seu desenvolvimento histórico.
Carrión de los Condes fica no centro da província de Palencia. Sua posição privilegiada nas margens do rio Carrión, no árido planalto de Castela, fez com que fosse habitada desde tempos pré-históricos. Ainda assim, acredita-se que o primeiro assentamento urbanizado tenha sido celtibero.
No século I a.C. os romanos chegaram ao lugar e destruíram o que havia, criando um novo assentamento que, quando o império caiu no Ocidente no século V, os visigodos passaram a controlar. Na parte noroeste da margem direita do rio Carrión construíram um castelo, do qual hoje não restam vestígios.
Os árabes se apoderaram dessa fortaleza no século VIII, chamando-a de Monte Argel. Da tentativa de um cavaleiro asturiano da época de Alfonso II “o Casto” de recuperar a cidadela das mãos árabes surge uma das lendas mais famosas do povoado que, apesar de muito engenhosa, não era exatamente “inovadora” historicamente falando.
Na Ilíada, Homero conta como o exército aqueu conseguiu penetrar em Troia depois de anos de cerco. Diz-se que os gregos simularam bater em retirada, deixando um cavalo oco nas portas da cidade, que os troianos tomaram por uma oferenda a Atena e levaram para dentro. À noite, os guerreiros gregos escondidos no cavalo abriram os portões da muralha e o exército grego devastou a cidade.
No nosso caso, diz-se que os cristãos usaram carroças em vez de um cavalo, como em Troia, para recuperar o castelo do Monte Argel. Colocaram armas no carvão e se disfarçaram de carvoeiros, fingindo aos árabes que só queriam entrar no castelo para vender suas mercadorias. Quando entraram, abriram fogo; e, ao fugir do castelo, caíram na emboscada do exército cristão, que os esperava nas portas.

Graças a essa tática engenhosa, o castelo voltou às mãos cristãs e, em torno desse ponto, começou a se desenvolver o núcleo populacional, que veio a ter grande importância na Idade Média. Foi estabelecido como “condado”, ou seja, um território governado por um conde dependente da família real. As visitas reais deram grande importância ao povoado e muitas famílias de alta linhagem ali se concentraram.
Na verdade, o nome “dos Condes” vem porque houve diferentes disputas de poder entre famílias pelo controle do lugar e, no século XV, três famílias de diferentes condes assinaram um pacto para não perder o poder para outra família condal. Carrión será um condado até que a organização territorial mude e ele se converta em município, já na Idade Moderna.
O esplendor da Idade Média se refletiu na construção de uma grande quantidade de edifícios de grande valor artístico, tanto civis como religiosos. Ali concentraram-se muitas ordens religiosas em mosteiros — grande parte das linhagens das famílias de Carrión passou a dirigi-los — e a classe alta construiu casas de pedra com brasões. Além disso, Carrión teve grande importância comercial e foi parada obrigatória no Caminho Francês, então havia um grande fluxo de mercadorias e pessoas. Tanto que chegou a ter 15 hospitais para doentes e peregrinos e, no fim do século XV, tinha 6000 habitantes.
Além disso, desde o século XI Carrión também ganhara fama porque uma família de infantes levou a um mosteiro da localidade relíquias de importantes santos romanos. Entre eles, San Zoilo, que foi mártir decapitado em Córdoba por pregar no século IV, quando o cristianismo ainda era perseguido.
No século XVI o plano da cidade já era semelhante ao que vemos agora, mas uma recessão causada pela peste e pelos impostos excessivos que se aplicavam na localidade, que reduziram o comércio, começou a abrir caminho. Além disso, a peregrinação já não tinha o fluxo dos séculos anteriores. Chegou a cerca de 600 habitantes, mas, graças ao estabelecimento de uma feira semanal “livre” (livre de impostos) por ordem real, o comércio começou a ressurgir e, com ele, a vida em Carrión. No século XVII chegou-se inclusive a comerciar com Flandres ou França, e no século seguinte a situação se manteve estável.
No século XIX acontece um dos episódios mais trágicos do povoado. Com a ocupação napoleônica na Espanha se desencadeia a Guerra da Independência e Carrión de los Condes vira cenário do confronto. O líder da resistência castelhana decide queimar todos os edifícios importantes de Carrión para evitar que os franceses pudessem tomá-los como base e se abrigar neles. Conventos e igrejas foram queimados e, muito importante, todos os arquivos que guardavam documentos históricos de Carrión de los Condes.
Esse incêndio, somado à desamortização — que esvaziou todos os conventos masculinos da cidade —, mudou muito o urbanismo. Alguns dos edifícios queimados ou abandonados foram usados para construir novos, como a prefeitura ou a Praça do Mercado. “Carrión de los Condes” se modernizou nesse século e no seguinte, virando, enfim, a localidade atraente que é hoje.
Começamos a caminhar e, para variar… fazemos de leste a oeste! Do convento de Santa Clara à interessante portada da igreja de Santiago
Saímos da parte sudeste de Carrión, perto de onde entramos pela P-980. Ali fica o Real Monastério de Santa Clara, nossa primeira parada.
Santa Clara era italiana e foi a primeira mulher a escrever uma regra monástica para mulheres, no século XIII. Duas discípulas diretas de Santa Clara fundaram esse convento no ano de 1231, o que o torna um dos mais antigos da Espanha. Além disso, ocupa uma grande extensão de terra e seu funcionamento foi quase ininterrupto.

Arquitetonicamente, pouco resta do edifício original do século XIII. O que vemos hoje é a sobreposição de reformas, sendo a mais importante a do século XVII, que foi quando o mosteiro alcançou seu momento de esplendor, durante a gestão da Madre Luisa de la Ascensión. Essa abadessa conseguiu acumular grande influência. De fato, foi ela quem conseguiu que o rei criasse a feira livre de impostos para voltar a fazer circular mercadorias depois da recessão do século XVI.
Diz-se que o mosteiro sobreviveu em boas condições à Guerra da Independência graças à astúcia das freiras, que fizeram um pacto com os franceses pelo qual os convidavam toda tarde para um chocolate se eles respeitassem o lugar. Verdade ou não, o mosteiro passou a guerra intacto e, de fato, as freiras que vivem ali hoje continuam preparando doces típicos.
O convento hoje abriga um museu, destacando-se entre seu acervo a impressionante coleção de presépios do mundo: figuras representando o nascimento de Jesus trazidas de todos os cantos do planeta. Também vale a pena visitar a igreja, com seu altar-mor presidido por uma escultura de Santa Clara.
No portal norte há um poço. Como muitos caminhantes jacobeus beberam dele, é chamado de poço “dos Peregrinos” ou “da Saúde”. Considerava-se que essa fonte ficava exatamente no meio do Caminho de Santiago a partir da França, embora hoje se pense que esse ponto fica um pouco mais adiante, passando Sahagún.
Seguindo a rua de Santa Clara e cruzando a estrada, passamos pela cabine de informação turística e chegamos à igreja de Santa María del Camino. Nesse templo do século XII, de grandes dimensões para ser românico, todo dia de tarde é celebrada uma missa de bênção aos peregrinos.
Seguindo a rua pedonal, cheia de bares, pousadas e lojas — muitas delas especializadas nas necessidades dos peregrinos —, chegamos à Plaza Mayor. Esse será o lugar onde vamos encerrar nosso passeio, mas antes continuaremos a visita à igreja-museu de Santiago, que fica na mesma via pedonal e faz parte do patrimônio mais importante de Carrión de los Condes. Vamos parar, principalmente, em sua magnífica portada principal.

O que hoje é a igreja de Santiago era antes parte de um complexo monástico construído no século XII, que também tinha um hospital para peregrinos. Embora tenha sido um dos edifícios que mais sofreram com o incêndio de 1811, parte da igreja sobreviveu, e em 1931 foi declarada Monumento Histórico-Artístico e, em 2000, Bem de Interesse Cultural. A sua reconstrução depois do incêndio foi feita em 1849, momento em que também se criaram a Plaza Mayor e a prefeitura em frente — tudo isso com material de antigos conventos.
Além do acervo de museu guardado no interior, a entrada principal do edifício, que é medieval, chama a atenção. Nela, vemos uma porta em forma de arco de meio ponto com um friso horizontal superior que percorre toda a fachada. O arco à direita, que dá acesso ao beco que contorna a igreja, faz parte do antigo mosteiro.

A porta da igreja de Santiago é decorada com uma impressionante arquivolta cheia de figuras que, nesse caso, não representam personagens bíblicos, mas sim os ofícios medievais que existiam em Carrión durante a Idade Média. São 22 figuras humanas e cada uma representa um ofício diferente: ferreiro (representado pelo chapéu judeu), alquimista, sapateiro, menestrel, escriba, monge, harpista, juiz, guerreiro, carpideira, alfaiate… Chama atenção, como curiosidade, a que aparece à direita, que representa um bailarino-contorcionista, em uma postura quase impossível e com roupas insinuantes.
Sob o arco, duas colunas com capitéis esculpidos emolduram a porta. No da esquerda vemos o Bem, na forma de dois protetores que impedem um leão (o demônio) de levar a alma de uma pessoa enquanto a conduzem ao céu. No da direita, por outro lado, está representado o oposto: o Mal como a tortura de um homem nu a quem alguns cães mordem permanentemente sem nunca matá-lo.

Sobre a porta vemos um friso que pode nos lembrar o que vimos antes em Villalcázar de Sirga, com um Cristo Pantocrator no meio. Ele está cercado pelos quatro evangelistas representados pelos seus símbolos: Mateus é um anjo, Marcos um leão, Lucas um touro e João uma águia. Dos lados, os apóstolos estão representados em grupos de seis.

De fato, toda a parede da igreja tem um significado global. Em cima está Cristo como juiz, cercado por seus amigos mais próximos, que por seus méritos em vida já ganharam um lugar junto a Ele no Paraíso. O livro das leis está fechado porque o Juízo Final ainda não chegou. Embaixo estamos nós, a sociedade — naquele momento medieval — realizando nossas atividades mundanas. Se “fizermos o certo” iremos à direita de Deus (o Bem) e, se não, à sua esquerda.
Embora para nós hoje isso pareça muito difícil de decifrar, as pessoas medievais entendiam na hora. Era um simbolismo ao qual estavam acostumadas e isso era usado para advertir e orientar em nível popular. Seriam, em uma analogia contemporânea, nossos atuais sinais de trânsito — que entendemos, mas que um medieval nunca entenderia.
Continuamos até a igreja de San Andrés e cruzamos a ponte rumo a San Zoilo
Seguimos pela rua pedonal até ter trânsito de novo e, na rua Hortaleza, viramos à direita para visitar a igreja de San Andrés, chamada de “Catedral de Carrión de los Condes”. Embora ali houvesse uma igreja românica, no século XVI ela foi substituída pela que vemos hoje, segundo um projeto de R. Gil de Hontañón — um mestre de quem já falamos hoje, pelo seu desenho de San Juan em Castrojeriz. O interior é amplo e iluminado.
Saindo da igreja, seguimos pela rua Hortaleza inteira até a Puente Mayor. Essa ponte é uma reconstrução do século XVI. A primeira ponte ali foi a do século XI, feita para unir o mosteiro de San Zoilo com o povoado de Carrión — embora na época os dois territórios funcionassem independentemente. A ponte primitiva tinha portas nas extremidades e nelas era cobrada a passagem, tanto de mercadores quanto de peregrinos. Por isso, algumas pessoas deixavam em testamento dinheiro para pagar esse pedágio de um determinado número de pobres ou peregrinos, como caridade.

Depois de atravessar a ponte vamos ver à nossa frente, a apenas uns 200 metros, a fachada barroca do Mosteiro de San Zoilo, que hoje funciona como hotel. Esse mosteiro era conhecido entre os peregrinos medievais porque, assim como hoje em Irache nos dão vinho, aqui eles davam todo o pão e vinho que o peregrino quisesse. Além de peregrinos, por ali passavam reis e, de fato, aqui se casou Fernando III, o Santo, no século XIII.

Do edifício original resta pouco e, do conjunto, destaca-se especialmente o claustro do século XVI. Os escultores que participaram decoraram colunas e capitéis profusamente, bem como a abóbada que percorre todo o pórtico.

Voltamos à margem leste do rio Carrión: visita a edifícios civis e merecido banquete nos arredores da Plaza Mayor
Depois dessa visita cruzamos a ponte de novo e viramos à direita, seguindo a margem do rio. Na rua Ruiz Girón, que cruza alguns metros depois, podemos dar uma olhada em uma das poucas casas de grandes famílias aristocráticas que se conservam hoje, já que a maioria foi destruída no incêndio de 1811. A Casa Girón é do século XVIII e em sua fachada vemos os brasões da família, assim como as belas grades das janelas.
Voltamos à rua Adolfo Suárez e viramos à esquerda, chegando em menos de 100 metros à Plaza Mayor. Ali podemos ver a prefeitura, construída em 1868 depois do incêndio da anterior. É um edifício de grande solidez, com base de pedra vinda de abadias e conventos desaparecidos.

Perto da praça, o coração de Carrión de los Condes, há um grande número de restaurantes nos quais podemos desfrutar do melhor da gastronomia palentina: assados, cordeiro, caranguejos do Pisuerga, etc. Se você gosta de doce, saiba que o lugar tem grande tradição doceira pela sua herança monástica. Em Carrión de los Condes são especialmente conhecidas as “garrapiñadas” (amêndoas caramelizadas) e o folhado.
Fechando com chave de ouro essa longa etapa com uma visita tão completa como essa, só nos resta encarar a etapa de amanhã no melhor estado mental e físico. Amanhã vamos entrar em León, que será a etapa com mais quilometragem, ainda que o perfil seja favorável. Passando Sahagún já teremos cruzado metade do itinerário até Santiago.
Pronto para passar o equador do seu Caminho?