Etapa 5: De Logroño a Santo Domingo de la Calzada de bicicleta

Xavier Rodríguez Prieto

Dados técnicos da etapa

  • Distância até Santiago: 612 km
  • Distância da etapa: 50 km
  • Tempo estimado: 4 horas – 4 horas e meia
  • Altitude mínima: 380 m
  • Altitude máxima: 740 m
  • Dificuldade: Média-baixa
  • Lugares de interesse: Navarrete, Nájera, Santo Domingo de la Calzada. Desvio opcional para San Millán de la Cogolla para visitar os mosteiros de Yuso e Suso.
  • Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui
Mapa Da Etapa De Logroño A Santo Domingo De La Calzada Pelo Caminho Francês De Bicicleta

De Logroño a Santo Domingo de la Calzada de bicicleta é a quinta etapa do Caminho Francês. Depois da primeira etapa, da segunda etapa, da terceira etapa e da quarta etapa, encaramos 50 km que percorrem inteiramente La Rioja, com um desnível total de cerca de 350 m vencido de forma bem gradual.

Nesta etapa de Logroño a Santo Domingo de la Calzada você vai sair pela ciclovia da cidade, margear o açude da Grajera, cruzar Navarrete (pousado no topo da colina do Tedeón), Nájera com seu impressionante Mosteiro de Santa María la Real e, depois de Azofra, escolher entre o desvio por Cirueña ou o traçado mais curto pela margem da A-12. O fim de etapa é Santo Domingo de la Calzada, povoado medieval fundado no século XI por Domingo García, hoje padroeiro dos engenheiros.

É uma etapa simples, de perfil suave e firme em boas condições. Muitos dos caminhos que você vai pegar hoje são perfeitos para ciclistas — uma etapa para aproveitar!

PERFIL GERAL DA ETAPA E ROTA

Ao sair de Logroño pela zona industrial você chega a uma ciclovia que, numa rampa muito leve (em torno de 1,5%), nos leva até a margem do açude da Grajera em menos de 2,5 km.

Açude Da Grajera Com Logroño Ao Fundo No Caminho Francês De Bicicleta
Açude da Grajera com Logroño ao fundo (foto cedida no Flickr por Giovanni Riccardi sob as seguintes condições)

Margeamos o açude pela direita, por uma trilha inclinada que termina numa rampa estreita. Precisamos vencê-la por 1 km até chegar à borda da autoestrada A-12.

Seguimos por essa pista asfaltada com a autoestrada à nossa direita por pouco mais de 1 km, quando nos juntamos à N-120 só por 200 m, já que precisamos pegar uma saída sinalizada à direita que nos leva a cruzar a AP-68 por um viaduto superior. Todo esse trecho, do açude até a AP-68, fazemos em leve subida por pistas asfaltadas ou de cascalho bem confortáveis. Cuidado apenas ao cruzar a N-120.

Depois de cruzarmos a AP-68 pelo viaduto superior, o perfil segue em rampa leve até chegar ao Alto de San Antón (quilômetro 20 da etapa). Quer dizer: nos próximos 9 km vencemos um desnível de 230 m, alternando pistas de cascalho com outras asfaltadas entre campos e vinhedos.

Navarrete fica no alto de uma espécie de colina. Depois de atravessá-la, saímos pela N-120, que seguimos por 1,5 km até uma pista de cascalho à esquerda, marcada com um marco e a flecha amarela.

Vista De Navarrete A Partir Da Estrada No Trecho De Logroño A Santo Domingo De La Calzada De Bicicleta
Vista de Navarrete a partir da estrada (foto cedida no Flickr por Hans-Jakob Weinz sob as seguintes condições)

Por 1,5 km precisamos seguir essa trilha de terra em leve rampa até virar à direita e nos aproximar de novo da N-120, continuando paralelos a ela até ver uma bifurcação à esquerda. Uma placa indica que, se pegarmos esse caminho à esquerda, vamos passar por Ventosa; você tem que decidir se quer cruzar esse povoado ou não.

Se passarmos pelo povoado, percorremos 1,3 km até chegar lá por uma trilha de cascalho, em leve rampa de menos de 2% que alterna com trechos planos. Depois da visita, voltamos para a trilha e andamos pouco mais de um quilômetro até virar à esquerda e alcançar o Alto de San Antón.

Se você não quiser passar por Ventosa, faz pouco menos de 3 km em linha reta, com a A-12 à direita, até chegar ao Alto de San Antón.

Seguindo o mesmo caminho de terra entre campos agrícolas, cruzamos a A-12 por uma passagem subterrânea e seguimos com a estrada à esquerda. Em leve descida chegamos a Nájera em menos de 6 km, entrando pela zona industrial.

Rio Najerilla E Nájera Nas Suas Margens
O rio Najerilla e Nájera nas suas margens (foto cedida no Flickr por Jose Antonio Gil Martínez sob as seguintes condições)

Saímos de Nájera pelo leste pela Rua Costanilla, asfaltada e em subida. Depois de 800 metros o piso passa a ser de cascalho e assim segue até chegarmos a um cruzamento sinalizado, onde voltamos à estrada pavimentada. O perfil, em geral, vai ser bem suave.

Caminhada agradável entre campos, onde cruzamos Azofra (quilômetro 34 do percurso) e voltamos à beira da A-12. Depois de seguir paralelos a ela por 1 km, chegamos a uma rotatória que atravessamos.

Depois de cruzar a LR-207 nessa rotatória para pegar um caminho de terra, a estrada se bifurca, marcada com um sinal amarelo e uma flecha.

Se pegarmos à esquerda, seguimos por um caminho de terra em rampa entre campos até chegar a Cirueña, onde podemos visitar a ermida da Virgen de los Remedios. É um desnível de cerca de 150 m em uns 5 km. Depois de Cirueña saímos por outro caminho de terra, mas em leve descida e com perfil suave. Em uns 5 km chegamos a Santo Domingo de la Calzada.

Se, depois de passar a LR-207, continuarmos reto em vez de ir para Cirueña, vamos ter que percorrer pouco mais de 9 km perto da beira da A-12 por uma trilha de cascalho. Nos primeiros 4 km teremos mais trancos, mas depois o perfil fica bem suave até entrar em Santo Domingo de la Calzada, fim da etapa.

Resumindo, nesta etapa de Logroño a Santo Domingo de la Calzada vencemos um desnível de cerca de 350 m, mas de forma gradual. Há dois pontos em que o perfil fica um pouco mais íngreme: na chegada ao Alto de San Antón depois de passar por Ventosa, e na passagem por Cirueña, antes de entrar em Santo Domingo de la Calzada.

Além disso, há três variações de percurso que você pode fazer:

  • Escolher se quer ou não passar por Ventosa, perto do quilômetro 17 do percurso.
  • Escolher se passa ou não por Cirueña no quilômetro 38 do percurso. Se optar por ir por esse povoado, a diferença de quilometragem da etapa não muda muito, mas exige alcançar um ponto um pouco mais alto.
  • Ir visitar o Mosteiro de San Millán de la Cogolla a partir de Azofra para voltar por Cirueña a Santo Domingo de la Calzada. São 33 km em vez de 14 km de Azofra ao fim da etapa, mas a visita vale muito a pena.

Em geral, esta etapa é simples. Piso bom, diferenças de altura que vencemos em rampas leves e contínuas. Muitos dos caminhos que pegamos hoje são perfeitos para ciclistas. Uma etapa para aproveitar!

DICAS PRÁTICAS

  • Se você começar em Logroño, na Tournride ajudamos você a chegar lá. Logroño é uma cidade muito bem conectada, com aeroporto, estação de trem e ônibus.

De ônibus: aqui você pode ver as conexões de ônibus com o resto da Espanha e as empresas que fazem cada rota (algumas delas são Alsa, Bilman Bus e PLM).

De trem: a estação de trem fica aqui e para conhecer as conexões o melhor é visitar a página da Renfe, já que com baldeações você chega de quase qualquer lugar.

De avião: o aeroporto fica aqui, a 9 km de Logroño, e você tem que ir de táxi ou de carro. Só tem conexões regulares com Madri. A outra opção é voar para Pamplona e pegar um ônibus de lá.

Lembre que na Tournride também transportamos sua bagagem para que ela te espere no fim do Caminho.

  • De Navarrete a Nájera são mais de 13 km sem lugar para se abastecer, a não ser que você passe por Ventosa no meio do caminho. Se não quiser parar em Ventosa, pegue suprimentos em Navarrete.

ITINERÁRIO DETALHADO E PATRIMÔNIO HISTÓRICO-ARTÍSTICO

Esta etapa de Logroño a Santo Domingo de la Calzada, que percorremos inteira em La Rioja, permite visitar ambientes naturais impressionantes, como o rio Najerilla, e conhecer alguns dos pontos mais emblemáticos do Caminho.

Começamos o dia por uma agradável via verde que, cruzando a paisagem riojana, vai nos levar a Navarrete, onde dá para ver os impressionantes restos tardo-românicos de San Juan de Acre. Passando por lugares cheios de lendas, como o Poyo de Roldán, chegamos a Nájera, onde aproveitamos o patrimônio natural e o entorno único e conhecemos outras lendas e aparições milagrosas. O caminho segue até Santo Domingo de la Calzada, um dos povoados mais míticos da região, fundado pelo hoje Santo Domingo García no século XI, que dedicou sua vida a construir infraestrutura para facilitar a peregrinação a Santiago.

Você também pode se desviar para visitar o mosteiro de San Millán de la Cogolla, considerado o berço da língua espanhola.

Dá pra pedir mais?

SAÍMOS DE LOGROÑO PELO AÇUDE E VISITAMOS NAVARRETE

Saímos de Logroño pela zona industrial e, a partir da Avenida de Burgos, chegamos a uma rotatória onde se vê o parque de San Miguel atrás. Dali pegamos uma passagem subterrânea que cruza a LO-20 e nos tira de Logroño.

Saímos por uma agradável via verde que nos leva pelo parque da Grajera até chegar ao açude. Depois margeamos o açude pelo mesmo caminho.

O açude da Grajera foi criado em 1883 para irrigar os pomares perto da cidade e foi sendo aos poucos transformado em parque. Se você fizer esse percurso num dia quente e bater vontade de dar um mergulho ao ver a água, nem pense nisso! É uma área ambiental protegida e o ecossistema aquático é estudado, então não é permitida interação humana com ele.

Açude Da Grajera No Caminho Francês
Açude da Grajera (foto cedida no Flickr por Total13 sob as seguintes condições)

Subimos a rampa do açude até chegar à cerca que marca a beira da A-12, onde os peregrinos penduraram muitas cruzes de madeira. Ao longo do caminho vamos ver que há mais lugares em que essa tradição se repete.

Seguimos pela estrada até cruzar a AP-68 por um viaduto superior e vermos à esquerda os restos da igreja do Hospital de San Juan de Acre. Depois da escavação, os restos mais interessantes foram levados para o cemitério de Navarrete, que vamos ver na saída da cidade.

CHEGAMOS A NAVARRETE, NA COLINA DO TEDEÓN

Navarrete fica no alto da colina do Tedeón. Essa posição estratégica fez com que, até o século XVI, tivesse um caráter muito defensivo, com um castelo no topo cercado por muralhas. Pouco a pouco todos esses elementos foram derrubados até assumir a forma que tem hoje, com duas ruas principais paralelas na encosta da colina e com o Caminho de Santiago cruzando o povoado de leste a oeste.

Igreja Da Assunção Da Virgem Em Navarrete
Igreja da Assunção da Virgem em Navarrete (foto cedida no Flickr por Carmelo Peciña sob as seguintes condições)

No centro está o monumento principal do povoado, a igreja da Assunção da Virgem. Por fora, suas linhas renascentistas são simples, mas se você tiver oportunidade, vale entrar para dar uma olhada no maravilhoso altar e no retábulo em estilo barroco, completamente coberto de talhas em ouro.

As inúmeras referências e lojas de cerâmica no povoado com certeza vão chamar sua atenção: Navarrete é um dos mais importantes centros oleiros tradicionais da península. Sua tradição oleira remonta à época romana, quando, com o barro do rio Najerilla, eram fabricadas peças da chamada “terra sigillata”, um tipo de cerâmica romana vermelha.

Saímos do povoado pela N-120 e encontramos à esquerda o cemitério local, onde, como já dissemos, veremos os restos da igreja de San Juan de Acre.

Restos Da Igreja De San Juan De Acre No Cemitério De Navarrete
Restos da igreja de San Juan de Acre no cemitério de Navarrete (foto cedida no Flickr por Carmelo Peciña sob as seguintes condições)

Pedra por pedra, os restos foram movidos do seu local original até esse ponto, onde ainda impressionam a espessura e a qualidade das paredes e da cantaria. A porta do cemitério é a antiga porta norte da igreja e é flanqueada por duas grandes janelas que ficavam na cabeceira do templo.

Na Tournride recomendamos que você chegue perto para ver os detalhes decorativos do conjunto, em estilo tardo-românico. Há numerosas representações de lendas (como a de Roldán e do gigante Ferragut, que explicaremos mais adiante), passagens bíblicas como São Jorge e o dragão e outras mais ternas, como anjos se abraçando.

Ali também se vê uma placa em memória de Alice Craemer, que morreu em 1986 atropelada por um caminhão enquanto fazia o Caminho.

DE NAVARRETE A NÁJERA: DECIDIMOS VISITAR VENTOSA E CONHECEMOS LENDAS DE LUTAS CONTRA GIGANTES

Seguimos o caminho e, depois de uns 4 km, passando por baixo de uma passagem superior da A-12 e sempre com a autoestrada à direita, vamos ver uma placa indicando o desvio para Ventosa. Se passarmos por esse povoado, acrescentamos cerca de 1 km ao percurso.

Tenha em conta que, se não formos por Ventosa, temos 9,5 km até chegar a Nájera, então, se você quiser comer ou estiver com pouca água, não é má ideia parar para reabastecer. Em Ventosa também tem um albergue com local fechado para guardar as bicicletas.

Passando por Ventosa ou não, chegamos ao Alto de San Antón (675 m de altitude), de onde veremos Nájera pela primeira vez ao longe (485 m de altitude). Não vamos tirar os olhos dela nos próximos 7,5 km, que faremos em leve descida até chegar lá.

Paisagem Entre Navarrete E Nájera No Caminho Francês De Bicicleta
Paisagem de Navarrete a Nájera (foto cedida no Flickr por Giovanni Riccardi sob as seguintes condições)

Mas antes de chegar a Nájera, depois de cruzar a N-120 por uma passagem subterrânea, vamos ver no caminho, à esquerda, o Poyo de Roldán.

Primeiro deixamos à esquerda a colina a que se referem como “poyo” e, um pouco mais adiante, vemos um cartaz explicativo que lembra a lenda de Roldán contra o gigante Ferragut, ocorrida nessa colina e que na Tournride resumimos em algumas linhas. Lembrando que Roldán era sobrinho de Carlos Magno, o imperador dos francos. É um personagem histórico, mas seus feitos militares acabaram moldando sua história como uma espécie de lenda mítica.

Capitel Românico De San Juan De Acre Com A Cena De Roldán E O Gigante Ferragut
Capitel românico de San Juan de Acre com a cena de Roldán e o gigante Ferragut (foto cedida por Javier Regay sob as seguintes condições)

Aqui lembramos como um dia chegou aos ouvidos de Carlos Magno que nessas terras havia um gigante sírio chamado Ferragut que proclamava a supremacia do Islã contra o Cristianismo. Sabendo disso, Carlos Magno mandou um grupo de soldados para matá-lo, que lutaram dias sem sucesso. Chegou o momento em que Roldán pediu ao tio para lutar, e lutaram por dois dias e duas noites. Exaustos, os dois adversários fizeram uma pausa e começaram a falar sobre suas religiões. Criou-se um ambiente mais relaxado e o gigante confessou a Roldán algo que acabaria custando sua vida: disse a ele que seu único ponto fraco era o umbigo. Roldán atacou nesse ponto quando voltaram à luta e derrotou o inimigo.

Essa lenda se encaixa historicamente na luta para expulsar os muçulmanos da península durante a Reconquista, quando a figura de Roldán era frequentemente usada como grande defensor do Cristianismo, cuja supremacia militar se associava à superioridade do Cristianismo.

CHEGAMOS A NÁJERA: “PEREGRINO: EM NÁJERA, NAJERINO”

Esta cidade de grande tradição jacobeia nos recebe com essa mensagem pintada numa casa na entrada do povoado, uma forma simpática de nos sentirmos em casa nos nossos 27,5 quilômetros de etapa.

Panteão Do Mosteiro De Santa María La Real Em Nájera
Panteão do mosteiro de Santa María la Real em Nájera (foto cedida no Flickr por Antonio Periago Miñarro sob as seguintes condições)

Entramos pelo leste e cruzamos o rio Najerilla pela ponte de pedra atribuída a San Juan de Ortega, impulsionador de infraestruturas do Caminho entre os séculos XI e XII (embora a ponte tenha sido reformada).

Já na margem oeste, não dá para perder o Mosteiro de Santa María la Real, panteão dos antigos reis de Navarra. Foi mandado fundar pelo rei Don García Sánchez II em 1052, depois de conquistar aquele território aos muçulmanos. Ele o dedicou à Virgem porque nesse lugar, tempos antes, ela havia aparecido ao rei em uma caverna, quando ele caçava. O mosteiro foi administrado por Cluny até o século XIX; hoje é franciscano.

Claustro Do Mosteiro De Santa María La Real Em Nájera
Claustro do mosteiro de Santa María la Real (foto cedida no Flickr por Giovanni Riccardi sob as seguintes condições)

Aos pés da igreja fica a caverna onde aconteceu a lenda da Virgem. Na sua entrada está o panteão real dos reis de Navarra, com doze sepulturas e tumbas entalhadas majestosas dos séculos X ao XII.

A igreja está entre os estilos gótico e renascentista. O claustro, uma verdadeira joia, é repleto de detalhes; ali também estão enterrados muitos nobres. Vale a visita (a entrada custa cerca de 4€).

Em Nájera também vale aproveitar o ambiente natural do Najerilla, encaixado entre paredões impressionantes de terra vermelha. Nesta localidade convivem de forma harmônica um entorno de tirar o fôlego com grandes monumentos de pedra, como o mosteiro que acabamos de ver.

Cavernas Nos Paredões Verticais De Terra De Nájera
Cavernas nos paredões verticais de terra de Nájera (foto cedida no Flickr por Drcymo sob as seguintes condições)

Se estiver com gás e quiser ver vistas incríveis do lugar, dá para subir ao castelo de Nájera antes de sair. Fica entre o castelo de La Mota e o povoado. Sua origem, como a do castelo, é muçulmana. No século XVI foi reabilitado como palácio, mas no fim desse século deixou de ser ocupado e começou a se deteriorar, até que, no século XVII, já eram quase só ruínas.

Graças às várias campanhas arqueológicas que foram feitas, muitos restos foram descobertos e hoje estão guardados em museus. Embora “in situ” não tenha muito do passado glorioso, as vistas e o entorno natural ao redor valem a pena.

EM AZOFRA DECIDIMOS (OU NÃO) DESVIAR PARA SAN MILLÁN DE LA COGOLLA

Saímos de Nájera subindo uma rampa pavimentada pela Rua Costanilla. Logo estamos numa boa pista de terra que, em 5,5 km, nos leva a Azofra, com perfil suave.

Mosteiro De San Millán De La Cogolla No Caminho Francês
Mosteiro de San Millán de la Cogolla (foto cedida no Flickr por Jose Manuel Armengod sob as seguintes condições)

Em Azofra entramos pela rua principal, que, como em muitos povoados jacobeios, cruza toda a localidade e coincide com o Caminho de Santiago. Em Azofra você encontra todos os serviços de que precisa e tem que tomar a decisão: desviar ou não para visitar San Millán de la Cogolla. Se decidirmos ir ver, fazemos 33 km até Santo Domingo de la Calzada. Se seguirmos reto, 12 km.

O que nos espera se decidirmos fazer o esforço de acrescentar 21 km no nosso caminho para visitar San Millán de la Cogolla? Um dos complexos monásticos mais impressionantes da Espanha, formado na verdade por dois mosteiros inicialmente diferenciados: Suso e Yuso. O conjunto é Patrimônio da Humanidade desde 1997.

Mosteiro De Suso Em San Millán De La Cogolla
Mosteiro de Suso (foto cedida no Flickr por Aherrero sob as seguintes condições)

A origem do conjunto está no século V, quando nasceu em terras riojanas Emiliano, um eremita que dedicou a vida inteira ao serviço do Cristianismo, sendo canonizado; hoje o conhecemos como San Millán.

Quando Emiliano morre, seus restos são levados a uma caverna naquele lugar, que depois vira igreja e, em seguida, o centro de uma comunidade monástica. Vale lembrar que essa comunidade não era como as que conhecemos hoje: seguia a regra moçárabe e era mista, com homens e mulheres vivendo juntos. Isso era muito comum na Península Ibérica até o século IX.

Mosteiro De Yuso Em San Millán De La Cogolla
Mosteiro de Yuso (foto cedida no Flickr por Mario Martí sob as seguintes condições)

No século XI, Don García Sánchez II, o mesmo rei que mandou construir Santa María la Real, ordena levar os restos do santo para Nájera. Mas, por um milagre, os que o carregavam ficam “pregados”, sem conseguir se mover, o que é interpretado como o santo não querendo deixar o lugar.

Biblioteca De San Millán De La Cogolla, No Mosteiro De Yuso
Biblioteca de San Millán de la Cogolla, no mosteiro de Yuso (foto cedida por Rafael Nieto)

Por isso o rei manda construir, ao lado do Mosteiro de Suso, outro mosteiro para depositar ali os restos, e assim surge o Mosteiro de Yuso. Este já segue a regra beneditina e é só masculino. Os dois coexistem lado a lado até o ano 1100, quando se unem e começa seu período de esplendor.

Essa era de ouro se materializou, sobretudo, numa produção incrível de códices, a maioria guardada hoje numa biblioteca imensa no mosteiro, que pode ser visitada. De fato, considera-se que aqui nasceu o castelhano codificado como o entendemos hoje, porque um monge neste “scriptorium” foi o primeiro a escrever em castelhano num desses códices. Isso é muito significativo porque, na época, o latim era a língua “culta” e, portanto, a única que se escrevia. O castelhano, por outro lado, era a língua popular e sua escrita não estava regulada nem codificada. Ao começar a ser escrito, vai se formando o castelhano como o falamos hoje.

Além da importância histórica desse complexo, o lugar é impressionante do ponto de vista artístico e arquitetônico, então a visita conjunta é uma delícia. Na Tournride recomendamos que você se informe antes de fazer a visita aos mosteiros para evitar o desgosto de chegar e descobrir, por exemplo, que é segunda-feira e está fechado.

DE AZOFRA A SANTO DOMINGO DE LA CALZADA

Saímos de Azofra pelo noroeste seguindo uma pista pavimentada que em poucos metros passa a ser de terra, mas de firme bom. Continuamos até chegar à A-12 e, depois de seguir 1 km pela lateral da autoestrada, chegamos a uma rotatória de onde parte a L-207. Cruzamos para o outro lado dessa estrada para seguir por uma trilha de terra.

Cerca de 50 metros depois de cruzar a estrada vemos uma bifurcação. É aqui que você deve decidir se quer continuar reto, passando por Cirueña, ou virar à direita para ir direto a Santo Domingo de la Calzada.

Trilha De Terra Na Saída De Nájera No Caminho De Santiago
Trilha de terra na saída de Nájera (foto cedida no Flickr por Giovanni Riccardi sob as seguintes condições)

Se decidirmos ir por Cirueña, descemos uma trilha de terra em rampa suave por cerca de 5 km até chegar a uma grande urbanização com campo de golfe, de construção recente. Ao norte dessa urbanização fica Ciriñuela, o povoado antigo. Entre os dois está a ermida da Virgen de los Remedios, templo de construção recente em alvenaria e tijolo, com cores pastel e interior simples.

Na verdade, a distância percorrida passando ou não por Ciriñuela não varia muito — só acrescenta cerca de 2 km —, mas a caminhada é bem mais agradável pegando o desvio. Se continuarmos reto, vamos ficar o tempo todo quase colados à autoestrada, em vez de seguir por estradas de firme bom entre grandes campos de vinhedos.

UM PASSEIO DE UMA TARDE POR SANTO DOMINGO DE LA CALZADA, “ONDE CANTOU A GALINHA DEPOIS DE ASSADA”

Entramos em Santo Domingo de la Calzada pela Rua San Roque, a leste. Como sempre, na Tournride contamos um pouco da história do lugar da etapa e propomos um passeio curto para você conhecer o local.

Neste caso, o passeio leva 15 minutos e, nele, dá para ver os principais monumentos do lugar percorrendo menos de 1 km. Clique aqui para ver o mapa do passeio.

Animado?

Primeiro: vamos conhecer a vida de Santo Domingo, padroeiro dos engenheiros

Dois Peregrinos Passando Por Santo Domingo De La Calzada No Caminho De Logroño A Santo Domingo De La Calzada
Caminho de Santo Domingo de la Calzada (foto cedida no Flickr por Alberto Cabrera sob as seguintes condições)

O surgimento da localidade de Santo Domingo de la Calzada está ligado à vida e à obra de Domingo García, um homem que, no século XI, dedicou seu tempo a construir infraestruturas para facilitar o caminho dos peregrinos.

Diz-se que o que hoje é Santo Domingo de la Calzada era, no século XI, uma floresta de carvalhos perto do rio Oja. Um eremita chamado Domingo vivia nesse bosque, retirado em sua espiritualidade depois de não ter sido admitido no mosteiro beneditino de San Millán de la Cogolla. Ele via todo dia as dificuldades que os peregrinos tinham para superar os acidentes geográficos dessas terras, numa época em que o Caminho estava em todo seu esplendor. Junto com um bispo, que também se dispôs a ajudá-los, Domingo construiu uma ponte de madeira sobre o rio Oja.

Portada Sul Da Catedral De Santo Domingo, Onde Estão Os Restos Do Santo
Portada sul da catedral de Santo Domingo, onde estão os restos do santo (foto cedida no Flickr por Antonio Periago Miñarro sob as seguintes condições)

Quando o bispo morreu, Domingo continuou criando infraestruturas, a mais conhecida a calçada de pedra que acabou dando nome à atual localidade em sua homenagem. Ele trocou a ponte de madeira por uma de pedra e construiu um abrigo e uma igreja.

Tudo isso deu um impulso econômico e populacional ao povoado em formação, incentivando o assentamento de mercadores. O rei Afonso VI, vendo como isso era útil, decidiu dar a Domingo a direção de outras obras do Caminho, e ele e seu discípulo Juan de Ortega continuaram a realizar diferentes infraestruturas. Por isso, Santo Domingo é hoje padroeiro dos engenheiros de estradas, canais e portos.

MILAGRES DE SANTO DOMINGO

A dedicação, a solidariedade e a bondade de Domingo, que o tornaram conhecido tanto por pobres como por ricos ao longo dos seus 90 anos de vida, fizeram com que, com o passar do tempo, fossem atribuídos múltiplos milagres a este santo. Muitos deles em vida e outros, curas de peregrinos ao visitarem sua tumba.

Talha De Santo Domingo Na Catedral, Com Esculturas De Um Galo E Uma Galinha Ao Lado
Talha de Santo Domingo na catedral, com esculturas de um galo e uma galinha ao lado (foto cedida no Flickr por Rowanwindwhistler sob as seguintes condições)

Seu milagre mais famoso é o do galo e da galinha. Essa história conta como uma família com um jovem filho que peregrinava a Santiago parou no hospital de peregrinos que Domingo havia construído. A hospitaleira se apaixonou pelo rapaz, mas ele não correspondeu; despeitada, ela escondeu na mochila do jovem um objeto de valor do abrigo, acusando-o de roubo quando ele partia com a família.

O rapaz foi condenado à forca, sentença que foi cumprida. Mas, depois de enforcado, os pais se aproximaram e o ouviram falar: disse-lhes que estava vivo graças a Domingo. Os pais foram contar ao corregedor, sabendo que diante de tal milagre ele exculparia o filho. Ao ouvir a história, ele respondeu, debochado, que o jovem estava tão vivo quanto a galinha (já assada) que se preparava para comer. De repente, a galinha reviveu e o corregedor, atônito, inocentou o rapaz.

Daí o lema da cidade de Santo Domingo de la Calzada: “onde cantou a galinha depois de assada“. Em homenagem a essa história, um galo e uma galinha vivos são mantidos na catedral da cidade, trocados a cada 15 dias; nas festas locais são servidos os “ahorcaditos”, doces típicos.

COMEÇAMOS NOSSO PASSEIO PELA CALLE MAYOR…

Começamos a caminhada no lado leste do povoado, entrando na Calle Mayor, no centro da qual está o conjunto que Santo Domingo iniciou e que também vamos visitar.

Poucos metros depois do início do passeio, encontramos à nossa esquerda um grande edifício de pedra: é o mosteiro de Nuestra Señora de la Asunción, do século XVII. Esta abadia cisterciense tem um albergue para peregrinos (gratuito) e uma hospedaria que as freiras usam como meio de vida.

Continuamos a caminhada e em poucos metros passamos pelo posto de informação turística, onde, se quiser, dá para fazer uma parada para pegar um mapa ou mais informações.

Cerca de 60 metros depois, à esquerda, abre-se a Praça da Alameda, um pequeno canto verde onde você pode relaxar se precisar. Do outro lado da rua está um edifício muito especial: a casa da Confraria do Santo. É formada por vários prédios, do século XVI a um albergue moderno, e tem um ótimo material em exposição sobre a vida do santo. Neste lugar são criadas as aves que depois são levadas à catedral para lembrar o milagre de Santo Domingo.

Chegamos à Plaza del Santo: torre, catedral e parador

Calle Mayor De Santo Domingo De La Calzada
Calle Mayor de Santo Domingo de la Calzada (foto cedida no Flickr por Guillén Pérez sob as seguintes condições)

No centro do povoado fica a catedral de Santo Domingo. Sua porta sul se abre para uma praça na rua principal, onde há uma grande torre.

A Torre Exenta é a mais alta de La Rioja e não é outra coisa senão o campanário da catedral. É raro que o campanário esteja separado do edifício principal, mas acredita-se que, neste caso, tenha sido feito assim porque o terreno era instável (estava perto do rio) e este era o melhor lugar para aguentar tanto peso. De fato, diz-se que, para ajudar a fixar a torre, foram adicionados ao solo restos de ossos de animais. Antes desta torre barroca havia outra, românica e depois gótica, destruídas por incêndio e pelo seu mau estado, respectivamente.

A entrada para a visita à catedral também pode incluir a entrada na Torre Exenta que, do seu piso mais alto, oferece vistas espetaculares do entorno. Na Tournride recomendamos que você opte por subir, porque vale muito a pena.

Torre Exenta De Santo Domingo De La Calzada
Torre Exenta de Santo Domingo de la Calzada (foto cedida no Flickr por Jose Luis Cernadas Iglesias sob as seguintes condições)

Ao lado da torre vemos a entrada para uma pequena ermida, a ermida de Nossa Senhora da Praça. Dizem que foi construída sobre um antigo oratório que o santo tinha feito com as próprias mãos. O aspecto que tem hoje é resultado da superposição de diversas obras até 1710.

Em frente à torre está um dos dois “paradores” do povoado. O Parador ocupa o que antes era um hospital de peregrinos, construído por Santo Domingo. Chama atenção seu saguão, com muitos arcos góticos e um teto de madeira com caixotão.

Entramos na catedral de Santo Domingo de la Calzada

Portada Sul Da Catedral Em Santo Domingo De La Calzada
Portada sul da catedral (foto cedida pela Catedral de Santo Domingo de la Calzada)

Na Plaza del Santo veremos o portal sul da catedral. Neste braço do templo ficam o sepulcro de Santo Domingo e o galinheiro onde se mantêm um galo e uma galinha para não esquecer os seus milagres.

Esta mesma catedral que visitamos hoje tem origem no templo primitivo que Domingo García construiu no século XI perto do rio Oja, ao lado de um hospital. A importância crescente desse núcleo no Caminho de Santiago fez com que sucessivas reformas fossem somadas àquela construção inicial até chegar ao que vemos hoje.

Torre Exenta E Restos Da Muralha De Santo Domingo De La Calzada À Noite Com Luzes
Torre Exenta e restos da muralha (foto cedida pela Catedral de Santo Domingo de la Calzada)

A relevância que o lugar foi ganhando pode ser vista não só em como foi entalhado em pedra, como também na hierarquia que a igreja primitiva foi recebendo. Já em 1106 seu status subiu a colegiada e no século XIII a sede episcopal se mudou de Calahorra para Santo Domingo, tornando o templo uma catedral.

O resultado de tudo isso é um grande templo com planta de peregrinação em cruz latina, formado por uma mistura de estilos que vão do românico ao barroco que encontramos, por exemplo, na Torre Exenta.

Cruzeiro E Ábside Da Catedral De Santo Domingo De La Calzada
Cruzeiro e ábside da catedral (foto cedida pela Catedral de Santo Domingo de la Calzada)

A planta de peregrinação é um tipo de templo que inclui uma espécie de corredor que contorna as naves e a girola, de modo que dá para percorrer todo o interior das paredes sem interferir, em nenhum momento, no que acontece na nave central e no cruzeiro. Assim, dá para visitar o túmulo da igreja sem atrapalhar, mesmo que haja missa no momento. A catedral de Santiago também tem esse tipo de planta.

Detalhe De Um Capitel Do Ábside Da Catedral De Santo Domingo De La Calzada
Detalhe de um capitel do ábside da catedral (foto cedida pela Catedral de Santo Domingo de la Calzada)

Na Catedral de Santo Domingo encorajamos você a abrir bem os olhos para observar a decoração dos capitéis das colunas, especialmente os do ábside. Tanto por dentro quanto por fora há um impressionante programa iconográfico tardo-românico, com cenas de animais fantásticos e representações de passagens da Bíblia. Os especialistas o consideram um dos melhores e mais completos desta época.

Galinheiro Da Catedral De Santo Domingo De La Calzada
Galinheiro da catedral (foto cedida pela Catedral de Santo Domingo de la Calzada)

Na parte norte da catedral fica o claustro, que hoje abriga o Museu Catedralício. Se você tem interesse pela história do lugar e pela arte sacra, não deixe de visitá-lo. Horários e preços da visita à catedral e ao museu aqui. Além disso, no braço sul da catedral também veremos o galinheiro onde o galo e a galinha são mantidos em memória do milagre do santo.

Entre restos de muralhas e antigos conventos, encerramos nosso passeio com o melhor da gastronomia riojana

Cruzamos o ábside da catedral e chegamos à Plaza de España, onde fica a prefeitura. O mais característico do edifício são as arcadas abertas para a praça por arcos rebaixados, onde os comerciantes costumavam se instalar para vender seus produtos sob cobertura, com o amparo da muralha atrás. Quando a prefeitura se mudou para o andar superior, o edifício começou a se expandir sucessivamente até que, durante o Barroco, ganhou a forma que tem hoje.

Pessoas Em Frente À Prefeitura De Santo Domingo De La Calzada
Prefeitura de Santo Domingo de la Calzada (foto cedida no Flickr por Rubén Vique sob as seguintes condições)

Da praça seguimos para a Avenida de Burgos, que contorna o que costumava ser a muralha que protegia o casco antigo de Santo Domingo de la Calzada. De fato, poucos metros depois veremos alguns restos dela bastante bem conservados.

As muralhas deste povoado somavam mais de 1,5 km de perímetro, com uma média de 12 metros de altura, 38 torres e sete portas. O que vemos hoje na Avenida de Burgos são os restos de uma dessas torres e parte das grossas paredes que protegiam Santo Domingo.

Continuamos contornando o núcleo antigo até chegar ao Parador de Santo Domingo Bernardo de Fresneda. Foi construído no século XVI para abrigar uma comunidade franciscana, mas no século XIX, com a desamortização, o lugar foi abandonado. Hoje foi reformado e abriga um Parador com restaurante. Uma parte do lugar também é usada como oficina para restaurar obras de arte.

A igreja de San Francisco acolhe a tumba de Frei Bernardo de Fresneda, que foi arcebispo e confessor de reis como Felipe II ou Carlos V. Ele próprio aplicou muitos recursos para reformar a igreja que receberia sua tumba, e seu esforço faz com que a visita valha a pena. Atenção especial ao cruzeiro da igreja, um bom exemplo renascentista.

Estamos na Avenida Juan Carlos I, o lugar perfeito para encerrar nosso passeio em Santo Domingo de la Calzada, porque nessa rua e na paralela se concentra a maioria dos restaurantes. Você encontra opções para todos os bolsos e pode experimentar pratos típicos como bacalhau ou batatas à riojana. Para beber, claro, uma boa taça de Rioja.

Amanhã você muda de comunidade de novo: entramos em Castilla y León e vamos pedalar até chegar a Burgos, outra das grandes cidades jacobeias. Bom Caminho!