Etapa 8: De Carrión de los Condes a León de bicicleta

Xavier Rodríguez Prieto

Dados técnicos da etapa

  • Distância até Santiago: 401 km
  • Distância da etapa: 96 km
  • Tempo estimado: 6 – 7 horas
  • Altitude mínima: 803 m
  • Altitude máxima: 900 m
  • Dificuldade: Baixa – Muito baixa
  • Lugares de interesse: Terradillos de los Templarios, Sahagún, Mansilla de las Mulas, León
  • Itinerário no Google Maps: Para ver o percurso no Google Maps clique aqui
Mapa Da Etapa 8 Do Caminho Francês De Carrión De Los Condes A León De Bicicleta

De Carrión de los Condes a León de bicicleta é a oitava etapa do Caminho Francês. Depois da primeira etapa, da segunda, da terceira, da quarta, da quinta, da sexta e da sétima etapa, chega o momento de deixar a Tierra de Campos para trás e entrar na província de León. É uma etapa longa, mas de perfil muito simples, em que você vai pedalar a maior parte do caminho por pistas de concreto e caminhos de terra firme, atravessando grandes distâncias sem povoados.

O único trecho realmente complicado do dia está na entrada em León, com ruas cheias de trânsito e muitas curvas. Por isso, na Tournride oferecemos aos ciclistas peregrinos uma alternativa para entrar em León que não tem sinalização jacobeia, mas é bem mais fácil de pedalar.

Se você for fazer esta etapa no verão, reforce a proteção solar e leve sempre garrafas de água extras na bolsa.

Perfil e rotas principais da etapa

A rota de Carrión de los Condes a León começa atravessando a Puente Mayor no final de Carrión e seguindo pela rua San Zoilo. Passamos duas rotatórias em linha reta e pegamos a PP-2411 durante 3,6 km, com perfil plano.

A PP-2411 vira à direita, mas a gente segue em frente por um caminho de terra que coincide com a antiga via romana Aquitana. É uma reta de 11 km entre campos, com perfil plano e uma leve subida no final. Essa mudança de inclinação faz com que Calzadilla de la Cueza só apareça quando você já está praticamente chegando.

Antiga Via Aquitana, 18 Km Em Linha Reta De Carrión A Calzadilla De La Cueza
Antiga Via Aquitana, 18 km em linha reta de Carrión a Calzadilla de la Cueza

Depois de atravessar Calzadilla de la Cueza, a estrada vira um caminho paralelo à N-120 e em cerca de 5,6 km leva a Ledigos. A primeira metade exige uma subida suave (40 m de desnível), mas antes de chegar em Lédigos volta a descer.

Peregrino Caminhando Pelo Caminho Paralelo À N-120 Entre Calzadilla De La Cueza E Lédigos
Caminho paralelo à N-120 entre Calzadilla de la Cueza e Lédigos

Ao chegar em Lédigos a gente segue pela N-120 por cerca de 3 km de leve subida até Terradillos de los Templarios. Em Terradillos de los Templarios a gente tem que desviar à esquerda da N-120 para entrar no povoado. Aqui existem duas opções:

  1. Seguir a rota jacobeia entrando em Terradillos. Ali a gente pega um caminho de 1,2 km que, depois de cruzar a P-973, leva em 1,5 km a Moratinos. Passando pelo povoado, em 2,5 km chega a San Nicolás del Real Camino, onde o trajeto volta a se unir à N-120.
  2. Seguir pela N-120 sem entrar em Terradillos de los Templarios. A gente vai direto para o final de San Nicolás del Real Camino, sem possibilidade de conhecer os povoados pelo caminho.

Depois de deixar San Nicolás del Camino para trás, a N-120 atravessa o rio Valderaduey e logo aparece à direita um pequeno caminho perpendicular. Se você pegar esse desvio, vai visitar a Ermida da Virgen del Puente e de lá continuar por uma trilha até Sahagún.

Se preferir não visitar a ermida e seguir direto até Sahagún pela N-120, é importante saber que a estrada contorna Sahagún pelo norte. Por isso, quando aparecer a placa indicando o desvio para o centro da cidade, 10 km depois de sair de Terradillos de los Templarios, você tem que pegar a via à direita para entrar no povoado e visitá-lo.

Sahagún (km 41 da etapa) é atravessada de leste a oeste, cruzando o rio Cea para subir e pegar a estrada de León durante 1,5 km até desembocar na N-120. Seguimos pela N-120 durante 2,2 km até chegar ao entroncamento com a A-231 e a LE-6711.

Nesse cruzamento de estradas você tem que escolher entre a rota tradicional ou a rota alternativa. As opções são:

  1. Rota alternativa: no entroncamento, vire à direita na LE-6711, que cruza a A-231 por um viaduto. Ela leva direto a Calzada del Coto e de lá você alterna estradas de concreto e caminhos de terra durante 32 km até Mansilla de las Mulas, onde o traçado volta a se unir à rota tradicional. Essa variante também passa por Calzadilla de los Hermanillos. O perfil é simples, com uma leve subida até depois de passar por Calzadilla de los Hermanillos e uma descida suave até Mansilla.
  2. Rota tradicional: no cruzamento, a gente segue em frente e vê que a N-120 faz uma curva à esquerda poucos metros adiante. Nesse ponto, pega-se um caminho de terra curto à direita que leva a Calzada del Coto, uma estrada de concreto de duas faixas com um caminho de terra paralelo pontilhado de árvores equidistantes. Depois de 5,5 km em perfil plano você chega a Bercianos del Real Camino. Atravesse pela calle Mayor e depois continue com uma leve subida durante 5,3 km até um túnel sob a A-231. Cruzando o túnel, chega-se a El Burgo Ranero. O perfil é praticamente plano.

Desde El Burgo Ranero até Puente Villarente a gente sempre segue pela LE-6615, que oferece descida permanente com aparência parecida com a da Calzada del Coto. Primeiro tem que cobrir 14 km até Reliegos e depois mais 6 km até Mansilla de las Mulas.

Peregrinos Fazendo O Caminho De Santiago Pela Calzada Del Coto
Calzada del Coto

Depois de chegar ao ponto de encontro entre as duas rotas em Mansilla de las Mulas, saímos do povoado pelo noroeste para pegar a N-601 durante 4,5 km até Villamoros de Mansilla e, em seguida, percorrer mais 1,5 km até chegar a Puente Villarente.

Em Puente Villarente faltam apenas 13 km e é hora de decidir como entrar em León. Seguir as setas na entrada dessa cidade é complicado para ciclistas — e até perigoso pelos cruzamentos e pelo trânsito. Por isso, na Tournride, além de explicar a rota jacobeia tradicional, oferecemos uma opção que não consta no itinerário oficial mas é muito mais fácil para quem está de bicicleta. As opções são:

  1. Rota tradicional para entrar em León (com sinalização jacobeia): na saída de Puente Villarente há um caminho de terra largo à direita. No começo é plano, mas por volta dos 3 km chega a Arcahueja e a partir dali aparecem duas rampas que levam a uma trilha que ladeia a N-601 em nível mais alto. O caminho termina no polígono industrial de León e de lá é preciso atravessar a N-601 por uma passarela elevada (com rampas, sem escadas). Deste ponto, as setas indicam a entrada por Puente Castro, até chegar a uma grande rotatória em que você vira à esquerda. Quando aparecer a Plaza de Toros de León, vire à direita para ir pela rua Corredera até o centro histórico, onde está a Catedral. Pode ser complicado seguir a sinalização por causa das várias curvas, boa parte das setas está pintada no chão ou em postes.
  2. Entrada pela N-601 (sem sinalização jacobeia): na saída de Puente Villarente você segue pela N-601 por quase 9 km, atravessando várias rotatórias até chegar ao polígono industrial da cidade, onde se passa por baixo da passarela pedonal azul. Depois de algumas curvas na N-601, você termina numa rotatória onde fica a placa de boas-vindas com o brasão de León e um relógio na parte superior. Atravesse a rotatória em linha reta pela Avenida Europa até a próxima rotatória, que é alongada. Aí pega-se um desvio oblíquo à direita (Avenida Reino de León e depois rua Juan XXIII) e segue-se em frente deixando seis cruzamentos para trás até o sétimo, que é a rua San Pedro. Virando à esquerda nessa rua, em apenas 300 metros você chega à Catedral.
Passarela Pedonal Sobre A N-601 Na Entrada De León
Passarela pedonal sobre a N-601 na entrada de León (Foto cedida por Dani Latorre)

Em linhas gerais, de Carrión de los Condes a León de bicicleta é uma etapa longa, mas com um perfil extremamente simples e longas distâncias entre os povoados jacobeus. Grande parte do caminho peregrino segue por trilhas paralelas à N-120, à Calzada del Coto ou à N-601, então dá para escolher entre o caminho de terra ou o asfalto. As trilhas são estreitas, mas estáveis. Se você optar pela rodovia, tome muito cuidado na entrada em León, onde há bastante trânsito.

Se achar que a etapa de Carrión de los Condes a León é longa demais, na Tournride recomendamos descansar em Reliegos (km 69 da etapa), Mansilla de las Mulas (km 75) ou Puente Villarente (km 82), onde você encontra todos os serviços necessários.

Dicas práticas

  • Se você começa a sua jornada em Carrión de los Condes, na Tournride ajudamos você a chegar. Independente de onde você vier, precisa passar por Palencia, León ou Burgos para pegar um ônibus direto a Carrión. Das três cidades, León é a única com voo comercial regular — o destino é Barcelona e é operado pela Air Nostrum.

A frequência de ônibus em Carrión não é muito alta, então vale a pena olhar os horários com antecedência. As empresas Estébanez Aja e Abagon cobrem a rota desde Palencia. Para ir de León ou Burgos, você pode usar a Alsa. Se nenhum horário encaixar, sempre dá para pegar um táxi em Palencia (custa uns 45-50€) ou, com sorte, encontrar alguém numa plataforma de carona que leve você por 3 a 5€. Lembre que na Tournride deixamos as bicicletas no seu alojamento em Carrión de los Condes se você começar por aí e podemos levar sua bagagem extra para que ela espere você no fim do Caminho.

  • Nesta etapa há distâncias enormes entre os povoados, especialmente de Carrión de los Condes a Calzadilla (18 km) e de El Burgo Ranero a Reliegos (14 km). Não há fontes de água no meio e pouquíssimos lugares para descansar, então é fundamental se abastecer bem de água e comida.
  • Cuidado com o verão e o calor: há pouquíssima sombra e o sol pode ser muito intenso.
  • Se chover, o barro pode atrapalhar bastante na Via Aquitana (de Carrión a Calzadilla de la Cueza), na Via Trajana (rota alternativa) e na entrada em León pela região de Arcahueja.
  • A quilometragem desta etapa é alta, então é recomendável dosar as energias. Mesmo assim, por ser praticamente plana, dá para fazê-la em bom ritmo e cobrir rápido as longas distâncias.

Roteiro detalhado e patrimônio histórico-artístico

Hoje deixamos Palencia e a sua Tierra de Campos para mergulhar em León e chegar direto à sua capital e ícone: a maravilhosa catedral gótica de Santa María. Muitos dos caminhos que levam até lá mantêm o traçado praticamente inalterado desde a época romana. São estradas carregadas de HISTÓRIA (sim, com maiúsculas) que vão deixar você descobrir o passado glorioso das grandes ordens medievais, como a de Cluny em Sahagún ou a dos Cavaleiros do Templo em Terradillos de los Templarios. Entre parada e parada, nos despedimos da Tierra de Campos passando por grandes extensões douradas de cereais, com perfil muito simples.

Esta é uma etapa fácil. Sim, é longa, mas com poucas paradas, o que permite viajar tanto no físico quanto no mental. É, na verdade, um trecho perfeito para abrir os olhos e soltar a mente.

Preparado para continuar lendo e descobrir o que o Caminho reserva para você?

Plaza Mayor De León Em Um Dia De Tempestade
Plaza Mayor de León (Foto cedida por Jesús Martínez)

De Carrión a Terradillos: por retas infinitas de passado romano, passando por Calzadilla de la Cueza e Lédigos

Para sair de Carrión de los Condes a gente atravessa a Puente Mayor e passa perto de San Zoilo. Se você não visitou o mosteiro no dia anterior, pode ser uma boa hora para espiá-lo, nem que seja por fora. Depois de cruzar duas rotatórias, seguimos pela PP-2411 durante 3 km, uma estrada de mão dupla em que os peregrinos a pé caminham pela calçada.

Mesmo não dando para vê-las da estrada, passamos bem perto das ruínas da antiga abadia de Santa María de Benevívere, fundada no século XII e abandonada depois da desamortização do século XIX. Apesar das entidades que tentaram salvá-la, o edifício foi demolido e os documentos ali guardados foram transferidos para o Arquivo Histórico Nacional.

Chegamos ao ponto em que a estrada encontra o caminho de terra reto que leva a Calzadilla de la Cueza, exatamente onde a PP-2411 vira à direita.

Peregrinos Percorrendo A Via Aquitana No Caminho De Santiago
Via Aquitana (Foto cedida por Kryf)

Esse caminho em bom estado — a menos que chova e vire lamaçal — é a antiga Via Aquitana. Na verdade, em tempos romanos, chamavam assim a via que ligava às margens da Galia (território que hoje é a França). Já na Idade Média ela passou a ser chamada Ab Asturica Burdigalam, que unia Astorga a Bordeaux. Desde o início da peregrinação a Santiago, os caminhantes jacobeus usam esta via antiga, e milhares de anos depois seguimos seus passos.

Apesar da sensação de comunhão histórica de seguir uma rota praticamente inalterada há séculos, é preciso dizer que, no fim do dia, esse trecho é duro — tanto psicológica como fisicamente. A gente percorre os 12 km em pouco tempo graças ao perfil plano, mas os peregrinos a pé passam horas atravessando essa via sem árvores, sem fontes e sem nada que quebre a paisagem interminável de cereais.

Antigamente havia dois hospitais para peregrinos neste trecho específico da Via Aquitana. Hoje, não tem nenhum tipo de serviço, exceto uma van que vende bebidas e comida no cruzamento com a P-2469 durante alguns meses do ano. Depois desse cruzamento também aparece uma placa indicando a cañada real leonesa, junto de uma área de descanso.

Uma cañada é uma rota que conecta os pastos de inverno e de verão do gado. A Leonesa se divide em Ocidental e Oriental — esta última é a que cruza aqui. Tem cerca de 700 km no total e une Riaño (em León) ao sul de Badajoz, passando por seis províncias.

No final dessa longa reta chegamos a Calzadilla de la Cueza (km 18 da etapa), escondida atrás de uma última mudança de inclinação. Lá você vai encontrar todos os serviços de que precisa. O caminho contorna o povoado pelo sul e desemboca na N-120, justo no ponto em que atravessamos o riacho Cueza. Os caminhantes seguem por uma trilha paralela à rodovia até Lédigos — você decide entre asfalto ou terra. São cerca de 6 km em leve subida, com uma descida bem antes de chegar em Lédigos.

Povoado De Calzadilla De La Cueza
Calzadilla de la Cueza (Foto cedida por Kolossus)

Assim como Calzadilla, Lédigos também não conta com grande herança patrimonial. De Calzadilla se destaca o retábulo renascentista da Igreja de San Martín, e como curiosidade a igreja paroquial de Lédigos é uma das pouquíssimas com todas as iconografias de Santiago el Mayor: peregrino, apóstolo e “matamouros”.

De Lédigos o caminho segue pela N-120 até Terradillos de los Templarios (km 27 da etapa). O nome da localidade define a sua própria alma, arquitetônica e histórica: terra de telhados planos ligada à antiga Ordem do Templo.

Na etapa anterior já mencionamos essa ordem de cavaleiros, fundada no século XII com o objetivo de proteger os peregrinos em Jerusalém — proteção que logo se estendeu ao Caminho de Santiago. Como já dissemos, acumularam tanto poder e riqueza em dois séculos que até o rei da França lhes devia grandes somas. Esse foi o começo do fim dos templários, porque se tornaram uma ameaça para a Coroa e para as demais ordens religiosas. Por isso, em 1312, o Papa ordenou a dissolução da Ordem pela força.

Esses cavaleiros acumularam tanto poder em tão pouco tempo que deram origem a todo tipo de lenda, sobre a origem da sua riqueza e sobre os rituais da Ordem. Atribuía-se a eles, por exemplo, a posse das relíquias do Santo Graal e até a história da “Galinha dos Ovos de Ouro”. De fato, esse animal lendário está ligado à localidade de Terradillos.

O povoado ficava em território sob jurisdição dos templários e dentro dele existia um hospital de peregrinos sob a sua proteção. A lenda local conta que os templários guardavam ali a galinha e, diante da iminência da dissolução da Ordem, enterraram o misterioso animal na parte alta do povoado.

No povoado também há um albergue que leva o nome do último Grão-Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay.

Mudamos de província: deixamos Palencia para trás e entramos em León para visitar Sahagún

Para ir de Terradillos a Sahagún você tem duas opções: seguir a rota jacobeia ou pular esse trecho e ir pela N-120. Lembre que indo pela N-120 você não passa por Moratinos nem por San Nicolás del Real Camino, os últimos povoados de Palencia. Depois de cruzar o limite provincial, atravessa-se o rio Valderaduey e aparece à direita o caminho perpendicular que leva à ermida da Virgen del Puente. Se você não pegar esse desvio e continuar pela rodovia, fique atento: para entrar em Sahagún é preciso desviar à direita, senão você contorna todo o povoado pelo norte e vai direto para a bifurcação em Calzada del Coto.

Se você pode sacrificar a visita a Moratinos ou San Nicolás para tornar esta longa etapa mais suave, na Tournride recomendamos entrar em Sahagún (km 41 da etapa). É um ótimo lugar para descansar e uma das localidades mais importantes do Caminho Francês em León, com muito patrimônio e história para descobrir.

Povoado De Sahagún No Caminho Para Santiago
Sahagún (Foto cedida por Konrad Ho)

A rota jacobeia sai de Terradillos pelo caminho oeste; é uma trilha firme, de terra, com leve descida até desembocar na P-973, onde depois de poucos metros se muda para a direita para passar por Moratinos e San Nicolás del Camino. É sempre um caminho de terra com cascalho pequeno e o perfil alterna subidas e descidas suaves até chegar perto da N-120, onde descemos em baixada até o centro de Sahagún.

Antes de chegar em Sahagún, cruzamos a N-120 para pegar uma trilha no prado do rio Valderaduey que leva à ermida de “la Virgen del Puente” (a apenas 3 km de Sahagún). O edifício, em estilo mudéjar, serviu por anos como hospital de peregrinos e hoje está rodeado por um gramado com bancos e esculturas que lembram o glorioso passado medieval de Sahagún.

Ermida Da Virgen Del Puente
Ermida da Virgen del Puente (Foto cedida por José Manuel Gil Martínez)

Sim, Sahagún tem um grande passado histórico! Para conhecê-lo, é preciso pegar a trilha que sai do gramado da ermida da Virgen del Puente e nos leva a atravessar a LE-251 (muito cuidado nesse ponto). De lá, entramos em Sahagún, mas para chegar ao centro temos que passar sob a linha do trem por um viaduto.

A história de Sahagún remonta à época romana, quando ficava no traçado da Via Trajana, mas a cidade como a conhecemos nasceu da fundação de um mosteiro medieval onde estão as relíquias dos santos Facundo e Primitivo. Aliás, o nome da vila vem daí: “Sanctus Facundus – Sant Fagund – Safa-gun – Sahagún“. Esses santos foram decapitados no século II d.C., perto do rio Cea, onde discípulos os enterraram. O local ganhou fama e no século IX decidiu-se construir um grande mosteiro, que ficou sob responsabilidade da Ordem de Cluny.

Como já comentamos no início deste Caminho Francês de bicicleta, a Ordem de Cluny criou toda uma rede de mosteiros ao longo da rota para abrigar os peregrinos, graças ao apoio da Coroa. Em Sahagún, o Mosteiro Real de San Benito recebeu vários privilégios e, em torno dele, surgiu uma grande fortaleza medieval dele dependente. O mosteiro chegou a ter universidade própria, com fama parecida com a de Salamanca ou a de Alcalá de Henares. O abade de Sahagún acumulou tanto poder que, no século XI, eclodiram várias revoltas da burguesia contra o seu excesso de autoridade.

Arco De San Benito Em Sahagún
Arco de San Benito de Sahagún (Foto cedida por Rubén Ojeda)

A partir do século XV a vila começa a declinar, movimento consolidado pela desamortização do século XIX, quando parte do antigo mosteiro foi leiloada publicamente. Hoje restam apenas a Torre do Relógio e o Arco de San Benito, antiga portada sul do mosteiro. Os sepulcros dos reis e outros objetos que estavam no mosteiro foram destruídos, ou podem ser encontrados em outros pontos da vila e em museus de León.

Por exemplo, no Mosteiro das Monjas Beneditinas (do século XVI) são guardados alguns restos do antigo Monasterio Real, já que o edifício funciona hoje também como museu. Entre as peças, está o sepulcro de Afonso XI e os de quatro das suas esposas, na igreja do convento.

Bem ao lado das ruínas do antigo Mosteiro de Cluny fica um dos símbolos da vila: a Igreja de San Tirso (séc. XII). Foi um dos primeiros edifícios da península em que, em vez da pedra, se usou tijolo. Pode parecer detalhe, mas isso deu origem ao estilo românico-mudéjar, ícone da Espanha das culturas que conviviam e se influenciavam. Aqui, muçulmanos que viviam em terras cristãs usavam métodos construtivos mais próximos da sua arte (tijolo, arcos em ferradura etc.) combinados com formas claramente românicas de estilo europeu. A torre com arcos em ferradura quadripartidos chama especialmente a atenção.

A Igreja De San Tirso Em Sahagún
Igreja de San Tirso em Sahagún (Foto cedida por José Manuel)

Escolhemos rota em Calzada del Coto para chegar a Mansilla de las Mulas

Ao sair de Sahagún a gente atravessa o rio Cea pela ponte de pedra e segue pela via até desembocar na N-120. Depois de 2 km nela, chega-se a um entroncamento: a N-120 se perde numa curva à esquerda depois do cruzamento com a LE-6711, que atravessa a rodovia dupla por um viaduto inferior.

Se subir esse viaduto, você pega a rota alternativa, que leva a Calzada del Coto e depois, por caminhos de terra, até Calzadilla de los Hermanillos. Alternando depois alguns trechos de concreto, chega-se a Mansilla de las Mulas.

Na Tournride, neste caso, recomendamos pular a variante e seguir pelo traçado original até El Burgo Ranero. Na curva da N-120 aparece um curto caminho sinalizado que leva a uma longa via de concreto muito fácil de pedalar, que a gente segue durante os 32 km até chegar a Mansilla de las Mulas. Os peregrinos a pé seguem por uma trilha paralela cheia de plátanos, mas é estreita. A via tem pouco trânsito e isso torna o perfil muito simples.

Peregrino No Caminho Para El Burgo Ranero
Caminho de El Burgo Ranero (Foto cedida por José Antonio Gil Martínez)

Depois de 5,5 km chegamos a Bercianos del Real Camino, um pequeno povoado com menos de 200 pessoas e todos os serviços necessários. Mais 7 km de concreto, em leve subida, e chegamos a El Burgo Ranero.

Restos De Um Antigo Pombal
Restos de um antigo pombal (Foto cedida por Jonathan Pincas)

O topônimo El Burgo Ranero é tema controverso. A maioria acredita que o nome vem do coaxar das rãs das lagoas próximas ao povoado (ao “burgo”). Ainda assim, um documento antigo se refere ao lugar como “Ranerium”, que seria uma latinização de um nome germânico. Segundo essa versão, o “de Ranero” indicaria posse, referindo-se à fortaleza de algum senhor chamado Ranero.

El Burgo Ranero Com Uma Lagoa Em Primeiro Plano
El Burgo Ranero com uma lagoa em primeiro plano (Foto cedida por José Antonio Gil Martínez)

Atualmente, o lugar é um oásis para os peregrinos, que costumam gastar muitas horas para cruzar essa paisagem simpática mas monótona. Aqui há alojamentos e bons serviços, então não vai faltar nada do que você precisar.

É importante recuperar as forças para enfrentar os próximos 13 km até Reliegos, por uma estrada idêntica à anterior, praticamente em linha reta. Uma coisa é certa: você quase não vai pedalar, porque o caminho é uma descida suave mas constante. Não demora nada!

Caminhos De Concreto Rumo A Reliegos
Caminhos a Reliegos (Foto cedida por David Hunkins)

Reliegos foi, até poucos anos atrás, o último lugar da Espanha onde caiu um grande meteorito. Eram cerca de 8 da manhã, em 1947, quando uma enorme rocha de cerca de 17 kg caiu na Calle Real do povoado, assustando os vizinhos, que acharam que fosse uma bomba ou uma grande explosão. Hoje, a maior parte da rocha está no Museu Nacional de Ciências Naturais em Madri, embora haja fragmentos em outros lugares.

Depois de visitar Reliegos, seguimos pelo caminho arborizado, em descida contínua, por mais 6 km, até cruzar a N-601 por um viaduto e entrar em Mansilla de las Mulas.

Bicicletas Para O Caminho De Santiago Estacionadas No Monumento Ao Peregrino Em Mansilla
Monumento ao Peregrino em Mansilla (Foto cedida por Adolfo Brigido)

Desde El Burgo Ranero entramos em Mansilla pela porta do Castelo, uma das antigas portas da muralha do século XII. Este lugar teve um dos melhores sistemas de fortificação de toda Castilla. As muralhas margeavam o rio e se dirigiam a noroeste, rumo à ponte que cruzava o rio Esla. Tinham cerca de 14 metros de altura com ameias na parte superior. Havia ainda enormes cubos semicilíndricos a cada 40 metros, preservados hoje na parte sul da muralha.

Muralha De Mansilla De Las Mulas
Muralha de Mansilla de las Mulas (Foto cedida por Miquel Acevedo)

Ao cruzar a antiga porta fortificada, passamos junto a um monumento dedicado aos peregrinos e chegamos logo à Igreja de Santa María. Do século XVII, tem arquitetura simples. Seguindo por este caminho chegamos à Plaza del Pozo, onde nos juntamos à rota alternativa que passa por Calzadilla de los Hermanillos.

Antes de sair pela ponte de oito arcos que atravessa o rio Esla, de estilo medieval mas bem restaurada (séc. XII), deixamos para trás o antigo convento de San Agustín. Fundado no século XV, teve grande importância cultural, com biblioteca e arquivo de destaque. Todos os documentos foram perdidos num incêndio durante a Guerra da Independência, assim como aconteceu em Carrión de los Condes. O que melhor se conserva hoje é a capela dos Villafañe, de planta quadrada e abóbada fendida. Além disso, alguns símbolos jacobeus esculpidos em pedra numa das antigas entradas do convento atestam sua importância como hospital de peregrinos.

Em Mansilla de las Mulas faltam menos de 20 km para León, e a gente chega lá por estrada ou por caminhos paralelos. As duas opções se cruzam em vários pontos.

Saindo de Mansilla pela ponte medieval já citada, vamos ver à esquerda um caminho largo paralelo à N-601, em perfil plano.

Indo pela rodovia ou pela trilha, em 4 km passamos perto de Villamoros de Mansilla e, pouco depois, chegamos a Puente Villarente em não mais de 1,5 km.

Ao entrar nesta localidade, fica fácil entender por que Villarente tem esse nome. Se você vai pela rodovia, atravessa a enorme ponte que cruza o rio Porma. Se você vai pela trilha, consegue vê-la por baixo, porque construíram belas passarelas de madeira que atravessam o rio e deixam apreciar toda a ponte — fizeram assim porque ir pelo acostamento era perigoso demais para os caminhantes.

A ponte de Villarente tem origem romana, mesmo sem prova física dessa época. As cheias do Porma destruíram quase tudo em diversos momentos históricos, por isso só os arcos centrais resistem como demonstração medieval. Esta é uma espécie de marco do Caminho Francês, palco de uma lenda de amor entre peregrinos medievais.

Ponte Romana Em Villarente
Ponte romana em Villarente (Foto cedida por Bill Bereza)

Em Villarente havia, na Idade Média, um hospital de peregrinos conhecido por uma regra: precisava ter uma jumenta para levar os peregrinos doentes até León (como uma espécie de “ambulância”). Diz a lenda que, no começo do século XIV, uma moça chamada Elizabeth trabalhava nesse hospital, noiva de um andaluz. Um dia, um peregrino muito doente chegou ao hospital. Ela cuidou dele e eles acabaram se apaixonando. Certa vez, debaixo do primeiro arco da ponte, marcaram o contorno das mãos na pedra do arco. Ali Elizabeth prometeu que, se ele voltasse de Santiago em 14 dias e colocasse a mão sobre aquela marca chamando por ela, ela deixaria o noivo para os dois fugirem juntos.

O peregrino foi a Santiago e conseguiu voltar a Puente Villarente no 13º dia. Mesmo assim, foi impossível para ele chegar ao arco porque o rio havia subido com tantas chuvas. Ele se deitou na margem do Porma rezando a Santiago para poder alcançar o arco de pedra no dia seguinte. Quando acordou, viu que uma grande linha de troncos havia criado um caminho entre as águas, levando exatamente ao ponto onde os dois tinham deixado as marcas das mãos. Correu até lá e chamou a amada imediatamente — ela apareceu logo em seguida, lançando-se nos braços dele, disposta a passar o resto da vida ao seu lado.

Com essa história linda na cabeça, cruzamos a Puente Villarente e saímos por uma ampla calçada ao lado da N-601. Aqui, há duas opções para entrar em León: seguir por Arcahueja ou ir pela N-601 até o centro da cidade.

Se você escolher a segunda opção, cuidado com o trânsito, especialmente no polígono industrial, mas a vantagem é que o perfil é mais simples e você evita cruzamentos rodoviários e passarelas.

Se você optar pelo caminho à direita na saída da Puente Villarente, vai seguir quase plano até Arcahueja, onde aparece uma pequena rampa que leva a uma trilha próxima à rodovia, que você pega para chegar ao polígono industrial. A N-601 passa pelo meio do polígono e precisamos atravessar por uma passarela pintada de azul. Descendo por ali, cruzamos outra passarela num entroncamento; o piso vira asfalto ao chegar na Avenida Madrid. Ao avistar a paróquia de Puente Castro, muda-se para a esquerda, atravessando o rio Torío por uma ponte pedonal e seguindo pela avenida até uma rotatória onde, virando à esquerda, chega-se à Plaza de Toros. A partir daqui entramos na área monumental virando à direita. Seguimos até a rua estreita que, virando à esquerda, leva direto à catedral.

É verdade que essa entrada pode confundir ciclistas por causa das muitas curvas, cruzamentos e passagens de pedestres. Se você quiser facilitar, pode ir pela N-601 até a primeira rotatória da cidade e seguir pela Avenida Europa até a Avenida Reino de León (primeira saída oblíqua à direita). Continue em frente passando por 6 cruzamentos perpendiculares — só vai precisar virar à esquerda na rua San Pedro para chegar à catedral. Marcamos todo esse trajeto em amarelo no nosso mapa da etapa.

Um passeio pela tarde em León, “o berço do parlamentarismo”

León é uma das grandes cidades históricas de visita obrigatória no Caminho Francês. Além disso, ela é um sopro de ar jovem e fresco, uma cidade dinâmica, cheia de cultura viva: shows em bares, exposições de arte, entre outros. É essa energia que a gente sente ao chegar, esse movimento existencial no seu centro histórico que convida os viajantes a se juntar à festa.

Cidades como León, grandes no tamanho, muitas vezes intimidam os peregrinos que chegam tarde e cansados. Se informar bem e montar um roteiro que permita visitar tudo com calma pode virar um trabalhão depois de uma etapa tão longa. É uma pena renunciar a conhecer a cidade tendo tantas opções para aproveitar.

Por isso, na Tournride facilitamos esse processo: depois de você descansar do esforço do dia e ganhar gás para um passeio, a gente te passa um mapa com o roteiro completo e conta o que você encontra em cada ponto. São só 40 minutos, 40 minutos que valem muito a pena.

Para quem pensa em tirar um dia de descanso no Caminho, León é a melhor opção para isso. Dependendo do horário em que você for andar, alguns lugares podem estar fechados, então talvez seja melhor visitá-los de manhã antes de pedalar a próxima etapa, ou dedicar um dia inteiro para conhecer com calma essa cidade magnífica.

Vamos aproveitar León, uma cidade monumental com muito para nos oferecer!

Catedral De León Em Dia De Sol
Catedral de León (Foto cedida por Manuel)

Um pouco de história para começar…

León deve grande parte da sua configuração atual aos romanos. Antes da chegada dos conquistadores itálicos, essa parte do território era deserta.

O exército romano se organizava em legiões, unidades militares com hierarquia interna própria, que se deslocavam para conquistar territórios ou cumprir missões específicas. No ano 29 a.C. a Legio VI Victrix (“Sexta legião vitoriosa”) criou um acampamento militar provisório no planalto entre os rios Torío e Bernesga. Era um local ideal para garantir abastecimento de água e estava num ponto de comunicação chave entre o norte e o centro da Hispânia que tentavam controlar.

Nesses mesmos anos começaram a explorar intensamente uma grande mina de ouro perto de León: Las Médulas. O método de extração dos romanos, chamado “ruina montium“, deixou uma paisagem espetacular na região que vale muito a pena visitar. As águas eram desviadas e soltas todas de uma vez, derrubando rapidamente grandes trechos de montanha.

Panorâmica De Las Médulas
Panorâmica de Las Médulas (Foto cedida por Rafael Ibañez Fernández)

Graças a esse método, os romanos extraíram muito ouro. Era preciso um assentamento permanente para controlar os recursos. Por isso, quando a Legio VI Victrix precisou ir lutar no Reno em 74 d.C., a Legio VII Gémina veio no seu lugar.

Essa legião construiu um acampamento bem mais elaborado. Hoje em dia, em León ainda resta muito daquilo que os romanos fizeram entre os séculos I e III d.C. A atual Calle Ancha, que leva à catedral, era o antigo “cardo” romano, rua principal no eixo norte-sul do acampamento, que cruzava perpendicularmente com o “decumanus”. Sob a catedral há ruínas das antigas termas romanas, e no Jardín del Cid, restos de todo o sistema de adutoras.

Muralhas De León Feitas De Pedra
Muralhas de León (Foto cedida por Rubén Ojeda)

Com a derrota do Império Romano, os suevos tomaram posse do antigo acampamento e transformaram edifícios como as termas em moradias. Depois, os visigodos conquistaram o território e o assentamento ficou quase deserto. A situação permaneceu assim durante a conquista árabe, já que León ficou numa zona intermediária entre as duas frentes.

Em 856 o rei Ordoño I conquistou León, que passou a fazer parte do Reino das Astúrias. Anos depois, as disputas de poder entre os seus três netos acabaram unificando os territórios das Astúrias e de León no Reino de León, e este assentamento se tornou capital pela primeira vez.

Em 1188, León entra para a história como o primeiro lugar em que um rei organizou a primeira Assembleia de toda a Europa medieval. Por isso a cidade é conhecida como “o berço do parlamentarismo”.

Nos séculos seguintes, León continuou crescendo e virou uma das cidades mais importantes para a Coroa e para o Caminho de Santiago. Chegou a ter 17 hospitais para peregrinos e foi sede ocidental da Ordem Militar de Santiago.

No século XIX virou capital provincial e ganhou um bairro de expansão com traçado ortogonal. León se tornou, então, a grande cidade dinâmica e moderna que conhecemos hoje, ainda que marcas do seu passado permaneçam nas ruas e nos monumentos que podemos visitar. Em esta página você encontra recriações virtuais históricas de León.

Visitamos quatro imperdíveis: Catedral, Casa Botines, San Isidoro e San Marcos

Começamos pelo símbolo mais emblemático da cidade: a Catedral, também conhecida como “Pulchra Leonina“. Esse apelido já dá uma ideia do que o visitante encontra nesta “bela leonesa”. Foi iniciada em 1275, quando o gótico estava no auge, com grande semelhança com templos como os de Reims ou Amiens.

Sem dúvida, o mais impressionante da catedral são seus vitrais, sem tirar o mérito da sua escultura em pedra ou da altura incrível das suas paredes e torres. Dentro do esquema gótico radiante, a elevação tripartida abre as paredes em todas as suas partes para receber janelas de vitral policromadas, que pintam o interior do templo com luzes multicoloridas.

Transepto Sul Da Catedral De León
Transepto sul da Catedral de León (Foto cedida por José Luis Cernadas Iglesias)

Como esses vitrais já seguiam um programa iconográfico específico, a arquitetura interior das catedrais góticas era praticamente aniconic. A escultura ficou para o exterior, e as três portadas da fachada ocidental preservam um ciclo impressionante.

Portada Ocidental Da Catedral De León No Caminho De Santiago De Bicicleta
Portada ocidental da Catedral (Foto cedida por Michel Curi)

A porta principal é dedicada à Virgen Blanca (Virgem Branca) e representa também partes do Juízo Final. Em detalhe, vale citar que a escultura atual da Virgem no mainel é uma cópia exata da original, que está preservada no interior do templo.

À esquerda está a Porta de San Juan, com cenas do nascimento de Jesus e dos primeiros momentos da sua vida. À direita, a Porta de San Francisco, dedicada inteiramente a contar a vida da Virgem (sua morte abaixo, e sua coroação acima).

A Catedral de León é um dos monumentos do Caminho Francês que mais merece uma visita por dentro. Pelo estilo arquitetônico, é feita para deslumbrar. A gente recomenda muito, sempre que possível, reservar tempo do seu dia para essa visita. Você encontra mais informações nesta página, com preços e horários.

Vitral Da Catedral De León
Vitral da Catedral de León (Foto cedida por José Luis Cernadas Iglesias)

Descemos da catedral pela Calle Ancha, construída sobre o antigo “cardo” romano. Ao fundo, à direita, avistamos a grande Casa Botines. Essa obra de Antonio Gaudí é um dos pouquíssimos edifícios que ele projetou fora da Catalunha. Vamos ver outro deles na próxima etapa: a Casa Episcopal de Astorga.

Desenho Da Casa De Botines
Desenho da Casa de Botines por Antonio Gaudí

Foi um empresário catalão, Joan Homs i Botinàs, que encomendou o projeto do edifício a Gaudí no final do século XIX. Embaixo ele abriu armazéns de tecidos; em cima, Joan construiu uma casa para morar. Com gosto inconfundivelmente modernista, o prédio está enquadrado em um estilo neogótico. Ao sair da catedral, é impossível não perceber como os arcos lobulados com coluninhas lembram o triforium da Pulchra Leonina. No geral, as torres posicionadas nos cantos e a aparência robusta remetem a um palácio medieval, mas o ar modernista dá um toque bem mais elegante.

Hoje a Casa Botines é a sede da Caja España (uma caixa econômica). Em 1996, essa instituição restaurou o edifício tentando eliminar as reformas feitas depois da morte de Gaudí. Atualmente só é possível acessar a área de agência bancária. A visita é gratuita e o horário é das 8:30 às 14:00.

Fachada Principal Da Casa Botines
Fachada principal da Casa Botines (Foto cedida por Rubén Ojeda)

Contornando a Casa Botines pelo leste, pela rua Ruiz de Salazar, seguimos até a Basílica de San Isidoro. A gente sugere virar à direita na Pilotos Regueral para aproveitar o caminho e visitar o Jardín del Cid, um pequeno tesouro escondido da parte antiga da cidade. Enquanto a gente recupera as energias num banco do jardim, dá para contemplar ruínas do antigo sistema de adutoras romanas.

Restos Expostos Na Parte Externa Do Acampamento Da Legio Vii Gemina
Restos expostos na parte externa do acampamento da Legio VII Gemina (Foto cedida por Caligatus)
Panteón De Los Reyes Dentro Da Basílica De San Isidoro
Panteón de los Reyes dentro da Basílica de San Isidoro

Seguindo pela rua Cid, em menos de um minuto chegamos à Basílica de San Isidoro. Dentro dela está o Panteón de los Reyes, chamado de “Capela Sistina do Românico”. É um espaço quadrado dividido em seis abóbadas cobertas inteiramente por pinturas do século XII, num estado de conservação impressionante. Esse legado excepcional está sustentado por colunas grossas com grandes capiteis repletos de temas decorativos, e abriga sepulcros esculpidos de reis e consortes.

Pantocrator Em Uma Das Abóbadas Do Panteón De Los Reyes
Pantocrator em uma das abóbadas do Panteón de los Reyes

O acesso à Igreja de San Isidoro é gratuito. Foi construída ao lado da antiga muralha medieval, da qual ainda se encontram restos. O interior do templo contrasta com o da catedral: não entra quase luz; o românico está envolto em penumbra e solidez, com ciclos decorativos e imaginativos — às vezes perturbadores — nos capiteis das colunas. Por fora, a escultura da portada também é um tesouro românico.

Para visitar o claustro, o Panteón de los Reyes e o Museu de San Isidoro é preciso ir até a pequena entrada a oeste, num canto da praça. Custa cerca de 5€ e inclui uma visita guiada, que a gente recomenda muito aqui na Tournride.

Contornando a Basílica de San Isidoro pela rua Sacramento, viramos obliquamente à esquerda para ir pela Avenida Suero de Quiñones, que leva direto à Plaza de San Marcos. Somos recebidos ali por um monumento ao peregrino. É um homem de bronze, olhando para San Marcos. Está descalço, sentado sob um cruzeiro e vestido com o cajado e a roupa jacobeia medieval.

Monumento Ao Peregrino Em San Marcos
Monumento ao peregrino em San Marcos (Foto cedida por José Luis Cernadas Iglesias)

Essa escultura não só lembra a importância do Caminho Francês para a glória da capital leonesa, mas também a origem do próprio edifício de San Marcos. No século XII, uma infanta fez uma grande doação para construir um enorme edifício para peregrinos, fora das muralhas da cidade. Esse templo-hospital cresceu e virou sede da Ordem de Santiago, os cavaleiros protetores das rotas jacobeias.

Atualmente, quase nada resta daquele edifício original. O estado de degradação abriu caminho à sua demolição no século XVI para dar lugar a esta obra-prima renascentista. A grande fachada plateresca está dividida em dois grandes corpos, cuja uniformidade e simetria transmitem certa calma mesmo com muita decoração. Sob o plinto, há medalhões esculpidos com personagens greco-latinos, exemplo do verdadeiro Humanismo e da glória clássica do Renascimento. Imperadores como Júlio César ou Trajano, e mecenas de pequenas peças renascentistas como Carlos Magno, olham para nós dos seus medalhões de honra.

Plaza De San Marcos
San Marcos (Foto cedida por José Luis Cernadas Iglesias)

Desde o começo, o conjunto de San Marcos teve múltiplos usos. Foi antes hospital de peregrinos e convento, mas também prisão — onde esteve preso Quevedo —, centro educacional, sede administrativa e campo de presos republicanos durante a Guerra Civil. Hoje funciona como Parador Nacional de Turismo, embora a igreja mantenha o uso religioso e uma parte abrigue um museu com peças sacras.

Vale destacar que este Parador tem uma cafeteria perto do rio Bernesga, com um terraço agradável e vista para a Puente de San Marcos. É um lugar ideal para relaxar.

Puente De San Marcos
Puente de San Marcos (Foto cedida por José Luis Cernadas Iglesias)

Terminamos no Barrio Húmedo aproveitando o patrimônio leonês enquanto comemos uns petiscos

Depois de todo o conhecimento adquirido nas visitas culturais por León, só dá para fechar o dia de um jeito: provando a deliciosa gastronomia da cidade.

Embora a cidade ofereça uma boa variedade de restaurantes com bom custo-benefício, na Tournride a gente recomenda o Barrio Húmedo, onde você pode fazer uma rota de bar em bar provando as especialidades de cada casa. Na maioria, a “tapa” vem junto com a bebida que você pediu; em algumas, é preciso pagar à parte.

Para chegar ao Húmedo com um passeio bacana, a gente sugere seguir a margem do rio até a Avenida Ordoño II e, virando à esquerda, chegar à Casa Botines. Não é o caminho mais curto, mas permite conhecer um pouco mais esse outro lado da cidade.

Toda a área entre a Calle Ancha, a Plaza Mayor e a Catedral está cheia de bares e restaurantes. Não deixe de provar a morcilla leonesa — que se serve espalhada e com arroz, diferente da de Burgos — e os embutidos curados.

Com essa comida deliciosa nos despedimos até a próxima etapa. Vamos até Astorga, onde vai ser nosso último dia em perfil plano… Teremos El Bierzo e Los Ancares como contraponto a esses campos infinitos de cereais!

Peregrinos Vendo O Pôr Do Sol No Caminho De Santiago
Pôr do sol no Caminho de Santiago